Os primeiros sinais vieram aos poucos: calores esporádicos, irritabilidade, dificuldade para dormir. Há cinco anos, a esteticista e massoterapeuta Graziela Costa começou a perceber mudanças no próprio corpo, mas não relacionou os sintomas imediatamente à perimenopausa.
— De um tempinho para cá até deu uma melhorada, mas não tem muita informação sobre perimenopausa nas mídias. Por isso é importante conversar com outras mulheres que, de repente, também estão passando por aquilo — comenta Graziela, hoje com 48 anos.
A esteticista de Novo Hamburgo, no Vale do Sinos, lembra que, quando começaram, os sintomas eram “calorzinhos” ocasionais. Depois, vieram outras manifestações.
— De uns três anos para cá eu comecei a sentir mais frequência calor, insônia, dificuldade para dormir ou acordava muitas vezes durante a noite, dores de cabeça, irritabilidade. Essas sensações todas “maravilhosas” que a perimenopausa nos traz — ironiza.
O sangramento menstrual aumentou de forma significativa:
— Eu usava absorvente noturno durante o dia. Ficava uns dois dias literalmente me esvaindo em sangue.

A intensidade do fluxo levou Graziela a desenvolver um princípio de anemia. Ela passou a investigar o que estava acontecendo e ouviu diferentes orientações médicas no caminho. Uma delas sugeriu retirar o útero.
— Eu pensei: por que vou tirar meu útero por causa disso, se eu não tenho nada? Só porque estou menstruando mais? — lembra.
Ao procurar outra especialista, desta vez com formação voltada para menopausa e climatério, a médica pediu exames e recomendou que ela iniciasse suplementações. Graziela também reorganizou a alimentação e inseriu fitoterápicos e atividade física na rotina. A compreensão do marido e dos filhos também ajudou.
— A médica me pediu vários exames, viu vitaminas, suplementação, me explicou o que estava acontecendo comigo. Foi totalmente diferente.
Comportamento
Com as mudanças, os sintomas diminuíram.
— A insônia passou. Eu consegui voltar a dormir bem, acordar mais descansada para trabalhar. Ainda tenho calorões de vez em quando, mas nada que me atrapalhe tanto.
A experiência de Graziela se repete em relatos de mulheres que chegam aos 40 anos sem saber exatamente o que é a perimenopausa – e sem reconhecer que alterações emocionais, cognitivas e físicas podem estar ligadas às mudanças hormonais desse período.

A gestora de Recursos Humanos Milene Godoy Cunha, 44 anos, começou a sentir sintomas no fim do ano passado. Primeiro veio a irritabilidade.
— Eu fiquei bem mal. A gente acha que é um monte de coisa. Às vezes pensa que está ficando louca — conta a gaúcha de Porto Alegre, que hoje mora em Florianópolis.
Vieram também calorões, insônia, cansaço, queda de cabelo, pele mais seca e escapes urinários.
— O sono não é mais o mesmo. Eu acordo de madrugada, às vezes com calorão, às vezes sem motivo. Aí penso em um monte de coisa e demoro a voltar a dormir.
Milene diz que os sintomas afetaram diferentes áreas da vida.
— Mexe com a vida inteira. Não se consegue desenvolver igual no trabalho, várias coisas. Até na relação sexual também — lamenta a gestora.
A profissional, que já fazia tratamento antidepressivo, percebeu piora no humor e sentia que o remédio já não faia efeito.
— Muita mulher passa por tudo isso e vai direto para o antidepressivo. É mais comum ir ao psiquiatra do que fazer reposição hormonal — sintetiza.
Sem menstruar desde a colocação de um DIU hormonal, Milene não tinha alterações no ciclo que servissem como alerta. Mas, com os outros sintomas, resolveu investigar mesmo assim. O acompanhamento acontece pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
— Tu pede exame hormonal e às vezes dizem: “mas tu não está na idade”. Só que a perimenopausa pode começar antes — destaca Milene.
A gestora conta que passou a buscar informações nas redes sociais, mudou a alimentação e tenta manter uma rotina de exercícios:
— Eu me forço a ir para a academia porque sei que faz bem. O que ajuda é tentar continuar fazendo as coisas, mesmo sem vontade.
Milene também percebe impacto na autoestima, tanto pelas questões emocionais como após o ganho de gordura abdominal e a recorrência de oscilações no peso, também comuns nesse período.
— A gente se sente jovem em um corpo velho — resume.
Entrevistas
Grupo de mulheres
Foi justamente a sensação de desinformação e solidão que levou a cozinheira e educadora alimentar Renata de Aguiar, 47 anos, a criar um grupo de mulheres voltado à troca de experiências sobre perimenopausa. Nela, os primeiros sintomas apareceram principalmente no sono.
— Eu sempre tive um sono regular e comecei a acordar com frequência durante a noite. Às vezes acordava encharcada de suor às 3h da manhã — recorda.
Depois vieram alterações de humor, oscilação de energia e maior sensibilidade ao estresse:
— Meu pavio diminuiu. Questões externas passaram a me afetar mais emocionalmente.
Renata procurou atendimento médico, fez exames e recebeu diagnóstico de perimenopausa. Paralelamente, começou a estudar o tema.
— A perimenopausa me trouxe um convite muito claro de reorganização física, alimentar, emocional e do sono. Percebi que os limites do meu corpo tinham mudado.
A cozinheira passou a adotar medidas como higiene do sono, atividade física, automassagem, meditação e ajustes na alimentação. Também começou a escrever sobre o próprio processo.
— Aos 47 anos comecei a escrever sobre o que estou sentindo. Isso tem me ajudado a entender melhor o meu processo.
Da experiência pessoal nasceu o Colheita Feminina, grupo criado dentro do espaço Encanto Aguiar, mantido por Renata no Centro Cultural Vila Flores, para reunir mulheres em rodas de conversa. Nos encontros, as participantes trocam experiências sobre sintomas, tratamentos, autoestima e envelhecimento.
— Existe uma identificação e uma transformação quando a mulher percebe que não está sozinha. Muitas mulheres passam por esse processo sem informação, sem acolhimento e muitas vezes em silêncio — diz Renata.
O que é a perimenopausa
A menopausa é definida como a interrupção definitiva da menstruação após 12 meses consecutivos sem sangramento. Já a perimenopausa é o período de transição hormonal que antecede essa fase, e pode começar anos antes da última menstruação.
Segundo a ginecologista especialista em Ginecologia Endócrina Ana Julia Carneiro Monteiro, a redução gradual da função ovariana provoca oscilações hormonais importantes.
— Imagina que a mulher passa 30, 40 anos embebida em hormônio, e aí do nada esse ovário para de produzir e todos esses tecidos têm que se adequar a esse processo — observa a médica.
Na primeira fase da perimenopausa, explica a profissional, os ovários ainda tentam compensar a queda da função hormonal. Isso pode causar ciclos menstruais mais curtos e sangramentos intensos.
— A mulher começa a sangrar com mais frequência e costuma lidar com uma gangorra hormonal muito intensa.
Os sintomas iniciais podem incluir:
- Irritabilidade
- Alterações de humor
- Sensibilidade emocional
- Maior vulnerabilidade psicológica
Depois, conforme os hormônios diminuem de forma mais acentuada, surgem sintomas como:
- Fogachos (sensação de calor repentino)
- Insônia
- Secura vaginal
- Redução da libido
- Ganho de gordura abdominal
- Dificuldade de ganho de massa magra
- Dores articulares
A endocrinologista e metabologista Tatiana Schreiber afirma que os impactos não se limitam ao corpo:
— Essa mulher começa a não se reconhecer mais — destaca a profissional.
Segundo a médica, sintomas neurocognitivos ainda são pouco valorizados:
— Aparece o que chamamos de “brain fog”, uma névoa mental. A mulher que antes rendia muito no trabalho passa a esquecer palavras, se atrapalha em tarefas simples e sente queda importante da capacidade cognitiva.
Tatiana afirma que muitas pacientes chegam ao consultório dizendo que sentem mudança na personalidade.
— Elas dizem: “meu marido não me reconhece mais”, “não tenho mais paciência com meus filhos”, “não tenho paciência no trabalho”.
Toda mulher vai passar por isso. Não é uma doença, mas é uma fase que pode trazer impacto enorme na qualidade de vida
TATIANA SCHREIBER
Endocrinologista
Diagnóstico clínico
Apesar da busca frequente por exames hormonais, especialistas afirmam que o diagnóstico da perimenopausa é principalmente clínico.
— Os hormônios flutuam muito nessa fase. Muitas mulheres têm exames normais e já estão enfrentando sintomas importantes, porque uma coisa é não ter fertilidade, outra é estar na perimenopausa — explica a endocrinologista.
A irregularidade menstrual pode ser um indicativo, mas nem sempre aparece. Mulheres que usam DIU hormonal, por exemplo, podem não perceber alterações no ciclo. A orientação é procurar avaliação médica ao notar mudanças persistentes no corpo e no humor.
— Cansaço, alteração de memória e insônia podem ter diferentes causas. É importante investigar e fazer o diagnóstico diferencial — diz Tatiana.
Ana Julia afirma que mulheres com histórico de TPM intensa costumam apresentar mais sintomas.
— A TPM já é um indicativo de que o corpo lida mal com oscilações hormonais. Isso pode se repetir na perimenopausa.
Tratamento hormonal
Segundo as especialistas, a terapia de reposição hormonal é hoje o principal tratamento para mulheres sem contraindicações.
— O tratamento padrão ouro é com estrogênio e progesterona — explica Tatiana.
A terapia não deve ser iniciada antes do início dos sintomas, mas já pode acontecer na perimenopausa, antes da interrupção definitiva da menstruação.
— Hoje a gente não espera mais a mulher parar de menstruar para começar tratamento — orienta a endócrino.

Existem, porém, contraindicações, como histórico de trombose ou câncer de mama. Nesses casos, podem ser usados tratamentos não hormonais, geralmente medicamentos da classe dos antidepressivos.
— Eles ajudam, mas não têm a mesma potência da reposição hormonal — adverte Tatiana.
As médicas ressaltam que atividade física, alimentação equilibrada e acompanhamento psicológico podem ajudar no enfrentamento dos sintomas, embora não substituam o tratamento hormonal quando ele é indicado.
— Mulheres fisicamente ativas e com bom controle de peso tendem a ter menos sintomas — afirma Ana Julia.
Acesso ao tratamento
As médicas apontam dificuldades de acesso ao tratamento hormonal, como custos para quem não consegue via SUS.
— Hoje uma mulher gasta em média R$ 150 por mês para um tratamento básico. Isso acaba afastando muitas pacientes — pontua Ana Julia.
Para Tatiana, a menopausa e a perimenopausa ainda são temas pouco discutidos.
— Toda mulher vai passar por isso. Não é uma doença, mas é uma fase que pode trazer impacto enorme na qualidade de vida — alerta.
Milene resume a sensação de muitas mulheres que atravessam a fase sem referências anteriores:
— A família não fala sobre isso. A gente chega nessa idade sem saber o que vai acontecer com o próprio corpo.
Para Graziela, falar sobre o assunto ajuda a reduzir o estranhamento:
— Quando tu entende o que está acontecendo contigo, tu consegue lidar melhor — analisa a esteticista.
Ampliar o debate também traz outros benefícios – o silêncio em torno do tema, na visão de Renata, contribui para o sofrimento das mulheres.
— Falar sobre isso também é uma forma de transformar a maneira como a sociedade enxerga o envelhecimento feminino.













