
Entre as escolhas que vão do arranjo de flores à lista de convidados, o caminho até o altar tem exigido mais do que romantismo: jogo de cintura financeiro. No Brasil, onde a celebração do casamento ainda carrega peso simbólico e expectativa de festa, a alta dos custos leva casais a adaptar formatos, rever excessos e negociar prioridades para conseguir tirar o sonho do papel.
Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Uma pesquisa do Casar.com, em parceria com a Assessoria VIP, projeta que o setor deve movimentar cerca de R$ 32 bilhões no Brasil em 2026, impulsionado por uma cadeia ampla de fornecedores e serviços. Com tíquete médio de R$ 69 mil por festa e estimativa de quase 500 mil cerimônias no ano, o mercado mantém estabilidade, mas com custos elevados.
— É importante ressaltar que esses dados são uma projeção que a gente faz com base em alguns indicadores. Tem uma certa estagnação no número de casamentos, mas, em termos de gastos, de maneira geral, a gente vê um crescimento desse mercado. Existe um reajuste de preço de fornecedores — avalia o CEO da plataforma, Marcelo D’Alfonso.
No Rio Grande do Sul, os custos com casamentos já superam a média nacional em 112,6%, segundo a estimativa do Casar.com. Em Porto Alegre, a diferença é ainda mais acentuada, com valores que chegam a 182,5% acima do tíquete médio do país.
Para a assessora de casamentos Carolina Lewis, é difícil definir um valor médio padrão para uma celebração, já que os custos podem variar significativamente conforme o perfil de cada evento. Segundo ela, o número de convidados, a duração, o local escolhido, o nível de personalização – do cardápio à decoração – e outros fatores podem influenciar diretamente na faixa de preços.
— Um casamento que tenha uma festa minimamente tradicional, vamos dizer assim, com convidados, alimentação para todos, seja um almoço ou um jantar, que vai ter doces ou bolo, fotógrafo, e todos esses detalhes, vai ter investimentos variados que dependem de cada área. Mas, hoje em dia, somando todos os serviços e dividindo pelos convidados, pode dar em torno de R$ 1.000 por pessoa — projeta a especialista.
Comportamento
Quais gastos fazem parte de um casamento?
Colocando na ponta do lápis, a lista de pagamentos depende das prioridades de cada casal. Podem entrar na conta itens como aluguel do local, buffet, bebidas, decoração, fotografia, vídeo, trajes dos noivos, lembrancinhas, música e equipe de apoio, além de taxas e serviços que nem sempre são lembrados no início do planejamento.
Parte desses gastos pode ser ajustada ou até substituída, dependendo do estilo da celebração. Carolina explica que um mesmo tipo de serviço pode variar bastante de preço conforme o nível de entrega. No caso da gastronomia, por exemplo, o valor por convidado pode ir de cerca de R$ 100, em propostas mais enxutas, a mais de R$ 300 em experiências mais elaboradas, com cardápios sofisticados, maior estrutura e melhores insumos.
Outro exemplo surge na hora de escolher quem vai registrar o evento. A variação também pode ser significativa: um fotógrafo pode oferecer um pacote mais básico, com cobertura essencial da cerimônia, enquanto outro cobra mais por um trabalho com direção estética, edição mais elaborada e um olhar autoral sobre o dia.
— Mesmo que o casal tenha um bom orçamento, eles vão precisar gerenciar isso. Vão investir um pouco mais em um serviço de que fazem mais questão e um pouco menos em outro, que pode ser mais básico. Tirar ou substituir algumas coisas acaba sendo necessário para ficar dentro do previsto — acrescenta a assessora.
Alternativas para diminuir o peso no bolso
Na internet, casais fazem vaquinhas ou rifas com prêmios criativos para que amigos e familiares contribuam com os gastos da celebração. Na França, um empresário vendeu espaços de anúncio no terno usado no altar para financiar parte do casamento. Nos Estados Unidos, um casal monetizou a própria recepção ao comercializar ingressos para convidados desconhecidos.
Quando o jornalista Matheus Wolff dos Santos, de 28 anos, e a cozinheira e confeiteira Júlia Medeiros, de 26, ficaram noivos, logo surgiu a preocupação com os custos da celebração. Juntos há três anos, passaram por diferentes opções até encontrar um meio-termo entre um casamento financeiramente viável e algo que tivesse a cara do casal.

— Pensamos em encontrar um valor acessível para os dois, que desse para guardarmos um dinheirinho no final de cada mês. Quando começamos a olhar alguns orçamentos, eram de R$ 30 mil ou R$ 50 mil. Avaliamos que, se fosse assim, teríamos que guardar dinheiro por uns seis anos para conseguir fazer dar certo. Mas já moramos juntos, já temos o carinho um pelo outro, então queríamos achar algo que desse para fazer agora — afirma o noivo.
Após muita pesquisa, os dois escolheram um lugar em Porto Alegre para celebrar a união em fevereiro do ano que vem. Alguns detalhes, como buffet e decoração já foram definidos. Outros, como o fotógrafo e o vestido da noiva ainda estão sendo planejados. Para dar conta dos gastos, o casal uniu os talentos e criou uma segunda fonte de renda.
— Para arrecadar esse dinheiro que precisamos para o casamento, unimos as habilidades do Matheus, que trabalha com marketing e redes sociais, com a minha paixão por confeitaria. Criamos a Doce Essência e fazemos brownies para vender no Parcão e na internet, por encomenda. É tudo do nosso jeito: testamos as receitas, pensamos e vendemos juntos — relata a noiva.
No começo, o casal vendia os doces apenas no bairro Bom Fim, onde mora. Conquistou um público na vizinhança e passou a testar outros locais de Porto Alegre nos fins de semana, quando está de folga dos empregos principais. A estratégia consiste em abordar os frequentadores, apresentar os produtos e contar o propósito da empresa que criaram juntos.
— A gente fala que está juntando dinheiro para o casamento, que é algo que sempre sonhamos. Isso sensibiliza as pessoas, que se identificam com a história. Muitos elogiam a iniciativa. Já encontramos, inclusive, outros casais que estavam fazendo a mesma coisa: vender algo para conseguir casar — lembra Matheus.
Definir prioridades é necessário
A primeira coisa que um casal precisa definir, segundo a assessora de casamentos, é quanto dinheiro está disposto a gastar com a celebração. Carolina conta que é comum que os casais vejam muitas ideias nas redes sociais e queiram replicá-las. Contudo, em alguns casos, é preciso abrir mão de itens que pareciam indispensáveis quando o casamento começou a ser planejado.

Além de buscar renda extra para dar conta dos custos, casais têm revisado planos e adaptado expectativas. Foi o caso de Matheus e Júlia, que chegaram a cogitar uma celebração ao ar livre, em um sítio, mas recuaram ao perceber o impacto no orçamento. Em vez disso, optaram por um salão fechado na Capital, dentro da própria realidade e que, segundo eles, fazia mais sentido para a história dos dois.
— Às vezes não é nem a questão de ser um orçamento baixo, mas sim de o casal não estar disposto a investir. Eles olham quanto custa um fornecedor específico e pensam que poderiam usar aquele valor na lua de mel, para trocar de carro ou mobiliar o apartamento, por exemplo. Eles comparam o casamento com outros sonhos e repensam algumas coisas — defende Carolina.
Esse movimento aparece também nos dados do Informe do Setor Nupcial 2025, elaborado pela Casamentos.com, que mostram como os casais em 2024 foram afetados pelo cenário econômico. Segundo o levantamento, 45% reduziram a lista de convidados, 42% optaram por soluções mais caseiras, colocando a mão na massa em vez de contratar serviços, e 30% abriram mão de elementos personalizados que gostariam de incluir.
De acordo com a especialista em organização de casamentos, na hora de gerenciar o orçamento, os casais também repensam algumas tradições associadas a esse tipo de celebração, que talvez não façam sentido e podem encarecer ainda mais o evento. O bolo de casamento, os bem-casados e a filmagem completa são alguns exemplos.
— Na decoração, eles não têm insistido tanto nas flores. A gente não vê mais casamentos tão floridos como antes, porque as flores ficaram mais caras depois da pandemia e das enchentes. Então, os casais têm optado por trabalhar mais com verdes, tecidos e velas. A decoração fica mais minimalista, tanto por estilo quanto pelo valor — pontua Carolina, que organiza eventos desde 2019.
No fim das contas, muitos dos elementos tradicionalmente associados ao casamento não são indispensáveis para que a celebração seja significativa. Diante de um cenário mais caro, casais têm percebido que o essencial está na experiência que faz sentido para a história dos dois.
Para D’Alfonso, da Casar.com, é muito nítido que o sonho de celebrar uma união segue fazendo parte da vida dos brasileiros, independentemente dos desafios financeiros, que, com planejamento, podem ser administrados:
— Os casais querem fazer algum tipo de celebração nesse momento importante. É até um divisor de águas, em que você quer comemorar, contar para a sociedade, para os amigos, esse fato marcante. A gente consegue ver isso aqui.






