
O que determina se uma história está a altura de virar biografia? Carlota Albuquerque, bailarina e coreógrafa gaúcha que figura entre os nomes mais importantes da dança contemporânea, acredita que a sua não é interessante o suficiente para ganhar a eternidade nas páginas de um livro.
— O que realmente importa não sou eu, mas as minhas relações afetivas e artísticas — justifica a artista de 69 anos, dos quais mais de 60 foram dedicados à dança.
Ainda que pouco convencida, foi Carlota a persona escolhida para marcar a retomada do projeto Gaúchos em Cena, braço do festival Porto Alegre em Cena que, a cada edição, dedica-se à elaboração da biografia de um artista gaúcho, operando como instrumento de salvaguarda da memória artística do Rio Grande do Sul.
O projeto estava parado desde 2018, mas retorna às 19h de 29 de abril, quando será lançada, no Teatro Oficina Olga Reverbel, a biografia assinada pela atriz e gestora cultural Gabriela Munhoz e pela teórica do teatro Joana de Albuquerque, filha de Carlota.
O título escolhido para a obra não poderia ser mais certeiro: Carlota Albuquerque – O Coletivo ou Nada. Afinal, é a coletividade que guia os passos da artista, que constantemente evoca a figura do outro para explicar a si mesma.
— Sou o resultado dos encontros que tive — resume.
Paixão pela dança
Carlota é também fruto de sua paixão avassaladora pela dança, descoberta ainda na infância, aos oito anos, quando ingressou na escola do icônico João Luiz Rolla, um dos precursores do balé clássico no Estado.
Ela queria ser bailarina, mas, por exigência do pai de que tivesse uma formação “tradicional”, ingressou na faculdade de Psicologia. Acabou abandonando o curso no último semestre após ser aprovada na seleção de uma companhia artística.
Desde então, construiu uma trajetória atravessada pela liberdade da dança contemporânea e pelo desejo de experimentação do corpo. Mudou sua forma de se relacionar com a arte ao longo do tempo, passando de bailarina a coreógrafa e professora, mas nunca perdeu o entusiasmo que a fez largar tudo para insistir no sonho de dançar.
— Percebo que trabalharei até o fim, pois o palco me revigora, me rejuvenesce e me desafia. Sinto que o palco e os seus bastidores são os lugares que meu corpo realmente habita — reflete.
Apesar disso, em conversa com Donna, a artista fala de maneira honesta sobre o peso de sustentar uma vida dedicada à dança, os momentos de instabilidade financeira e o esforço de conciliar o trabalho artístico com etapas da vida, como a maternidade e, mais recentemente, o envelhecimento.
Entre uma pergunta e outra, emerge uma mulher firme e, ao mesmo tempo, sensível. Alguém que se reconhece obsessiva, “difícil” e até dura quando o assunto é trabalho, mas movida por uma necessidade vital de estar perto das pessoas. E alguém cuja história poderia render muitas excelentes biografias — ainda que não se convença disso com facilidade.

Confira a entrevista com Carlota Albuquerque
Como é para você ver a sua trajetória ser celebrada em vida, estando ainda em plena atividade?
É muito sensível o fato dessa homenagem vir da coleção Gaúchos em Cena, do Porto Alegre em Cena, um festival que faz parte de quem eu sou. Mas ter essa obra me assustou um pouco, pois sou uma pessoa de grupo e sempre me reconheci dessa forma.
O livro em si é um segredo para mim, mas pedi que contassem a história das pessoas que se relacionaram comigo, pois elas são a minha história.
O título da biografia, O Coletivo ou Nada, é algo que define quem você é, então?
Define em todos os sentidos. Sou tão voltada para o coletivo que, às vezes, esqueço de mim; sofro com a dor do mundo e tento ajudar a todos, o que já me trouxe muitos problemas. Mas não acredito em uma vida que não seja vivida em coletivo, tampouco em uma arte solitária. Arte se faz coletivamente, e talvez seja por isso que os governos autoritários temem tanto os artistas: porque o poder do coletivo é uma força impressionante.
O mundo atual é violento, as redes sociais criam uma falsa ideia de felicidade que nos aniquila, e é no encontro com o outro que a gente se recompõe. Não consigo me imaginar apartada do coletivo.
O livro é assinado por duas mulheres que são suas fãs declaradas, sendo uma delas sua própria filha. Como você imagina que será enxergar sua história através das lentes afetivas de pessoas que a admiram?
Não sei, estou curiosa (risos). O que acho interessante é que são dois afetos distintos: minha filha, que viveu comigo, mas também morou longe por anos, e conhece todos os meus defeitos; e a Gabi, com quem tenho uma ligação artística especial, porque já trabalhamos juntas e eu a conheço desde que estava na barriga da mãe; ela é filha de uma ex-aluna minha.
Essas relações são importantes porque não queria um olhar "jornalístico", mas algo capaz de entender os processos internos de quem é a Carlota. Espero que elas falem também das minhas dificuldades e dos meus problemas.
Sou uma pessoa afetiva, mas também dura, obsessiva e exigente no trabalho; quero dominar todos os elementos da cena, como a luz e os cenários, e sei que não é fácil trabalhar comigo. Como elas vivenciaram “Carlotas” diferentes, acredito que trarão olhares interessantes sobre quem eu sou. Talvez ler o livro se torne um processo terapêutico para mim (risos).
Uma parte importante da sua trajetória é dedicada ao ensino, e muitos bailarinos têm você como mestra. Consegue se enxergar como alguém que contribuiu para formar outras pessoas?
Nunca acredito plenamente nisso; sinto que é a relação que forma, não a minha interferência. É o que a pessoa me afeta e o que eu afeto a ela, entende? Todas as pessoas com quem trabalhei e estudei estão em mim, do mesmo modo que eu devo estar nelas; mas isso não faz de mim responsável por nada.

A dança exige muito do corpo, e você está com 69 anos. Como tem sido perceber as limitações que surgem naturalmente com a idade?
Sinto que meu corpo entende a idade que tenho, mas a minha mente não aceita parar. Às vezes, estou exausta, mas a dor parece sumir enquanto estou trabalhando. Não sei explicar: é como se o trabalho me anestesiasse; mas, depois, as consequências vêm.
Tenho artrose degenerativa, tenho um músculo rasgado, justamente porque vivi os excessos da dança nos anos 1980, quando não tínhamos limites nem qualquer preocupação com a anatomia. Dançávamos em qualquer lugar, fazíamos acrobacias; se tínhamos lesão, tomávamos injeções para suportar a dor e voltar ao palco. Nada de parar para fazer fisioterapia.
Já aos 30 anos, decidi que não queria mais ser bailarina. Como sou muito tímida, a criação coreográfica me atraiu mais do que a exposição em cena. Fui aprendendo a trabalhar com os corpos dos outros, não mais com o meu, e a valorizar a autoria de cada artista.
Minhas limitações físicas acabam sendo compensadas pelo prazer de ver como cada bailarino transforma minhas propostas coreográficas em algo singular. Claro que tenho o desafio de conseguir demonstrar o que quero que desenvolvam, mas isso me motiva a costurar novas possibilidades para traduzir aquilo que meu corpo já não alcança.
A idade também me impede de aceitar alguns trabalhos que sei que vão exigir demais do meu corpo, ultrapassar limites, mas vou levando como dá. Precisava colocar uma prótese, mas não quero; se colocar, terei que parar, e não quero.
A verdade é que envelhecer é um naufrágio, mas quero continuar nadando. Vou me segurando, procurando boias onde me apoiar. A criação artística é a minha grande boia, o que me dá o sentimento de plenitude.
Como foi conciliar a maternidade de três filhas com a entrega física e emocional exigidas pelo trabalho com a dança, muitas vezes sem retorno financeiro?
Foi muito complicado. Houve um período em que meu companheiro tinha um baita emprego, o que me permitiu contar com uma rede de apoio maior para cuidar das minhas filhas. Mas depois ele foi demitido, e as coisas realmente apertaram.
Nesse período, eu levava as meninas para todos os lugares comigo. Elas “faziam parte” dos meus grupos de trabalho. Inclusive, algumas coreografias mudavam por causa da presença delas. Uma vez, minha filha Joana entrou em cena durante um ensaio, achando que se tratava de uma brincadeira, e a interferência dela deixou a coreografia muito mais interessante do que a original.
Apesar disso, era muito difícil. Às vezes, sabia que estava exaustivo para elas. Acabava sendo exaustivo para mim também, porque havia momentos em que elas estavam cansadas, mas precisava continuar. Então, ao mesmo tempo que me aliviava tê-las por perto, havia esse outro lado.
Sem falar que a criação me exigia muito. Para montar um espetáculo, havia um trabalho de pesquisa intenso: eram semanas ouvindo discos e buscando trilhas, levantando referências, mandando vir materiais de outros lugares para consulta. Não havia a facilidade da internet, então toda a pesquisa era manual, um trabalho tremendo.
Financeiramente, a vida foi instável porque optei por me manter como artista independente. Ainda me vejo nesse lugar de alguém que precisa trabalhar, não sou uma aposentada. Então, foi difícil, sim. Na verdade, ainda é difícil. Ser gaúcha, ser artista...

Ser mulher também, imagino.
Sabe que a mulher sempre foi bastante importante na dança, mas houve um momento em que os homens eram tão poucos que se criou uma supervalorização da presença masculina. As mulheres sempre foram muito fortes e ocuparam todos os papéis; mas, nesse momento, os homens eram mais valorizados do que as mulheres em posições como as de direção e coreografia. Felizmente, isso não acontece mais.
Mas eu tenho três mulheres, né? Essa preocupação com a igualdade de gênero sempre me acompanhou, também por causa delas. Agora, tenho dois netos homens que estão crescendo e aprendendo sobre essas questões.
Eu acho que um dos grandes desafios do nosso tempo, com o avanço da misoginia, é justamente como criar os meninos, né?
Sim, mais do que nunca. Acho que lá em casa estamos fazendo um bom trabalho. Tem um desenho da Disney de que eles gostam muito, Encanto. Eles assistiram e me disseram: "Vó, tu não é a Abuela (personagem da vó), tu é a Luísa". A Luísa é uma mulher superforte, que carrega tudo, então foi um grande elogio. É bonito ver que eles percebem essa força das mulheres.
Entrevistas
Na coxia da vida, para além da arte, o que te move?
São os meus encontros. Gosto de ter as pessoas por perto, seja para festejar ou para dar pitaco na reforma do meu banheiro (risos). Sou o tipo de pessoa que gosta da opinião de todo mundo; só depois de todos meterem o bedelho é que decido o que vou fazer.
Acho que isso é um pretexto para estar junto. A perda, para mim, é terrível. Ter perdido meu irmão e ter minha irmã longe tem sido algo avassalador. Não gosto nem de pensar, porque realmente não lido bem com as perdas. Quero as pessoas por perto o máximo que puder.
Acho que é isso que impede a vida de ficar “morna”. Sou uma pessoa inquieta, que pensa e fala muitas coisas ao mesmo tempo, mas que acredita, acima de tudo, nas relações humanas.











