
Nascida em Nuremberg, na Alemanha, Jolantha Fries cresceu imersa na música sagrada indiana. Ainda criança, entoava o Gayatri Mantra, um dos mantras mais antigos e sagrados do hinduísmo. Não demorou para que seu líder espiritual, o guru Osho (1931-1990), lhe destinasse um novo nome: Deva Premal, que, em sânscrito, uma antiga língua da Índia, significa "amor divino".
Hoje, aos 56 anos, a artista tem como principal missão colocar sua voz etérea e serena à disposição de quem procura paz e contemplação. Ao lado do marido, Miten, 78, com quem tem uma relação de mais de três décadas, ela percorre o mundo fazendo shows que, na visão dela, são encontros de oração em forma de som: uma celebração da arte, da meditação e da alma.
Depois de mais de uma década de ausência, Deva e Miten retornam ao Brasil para uma turnê — nesse meio-tempo, inclusive, foram indicados ao Grammy de melhor álbum new age, em 2020, e ultrapassaram os 2 milhões de discos vendidos.
Entre as cinco cidades pelas quais a dupla vai passar está Porto Alegre. O show ocorre na terça-feira da semana que vem (28), às 20h, no Teatro da PUCRS (Avenida Ipiranga, 6.681, prédio 40). Os ingressos estão à venda na plataforma Sympla.
Para Donna, Deva conta de onde vem sua inspiração para compor e como encontrou a paz para poder transmiti-la. Ainda detalha como é dividir a vida pessoal e profissional com a mesma pessoa há 35 anos.
Leia a entrevista com Deva Premal
O que são os mantras que vocês levam pelo mundo? Vocês os cantam em sânscrito?
Mantras são um conjunto de sons de cura em sânscrito conhecidos por beneficiar mente e corpo. O sânscrito é mais do que uma língua: é uma coleção de sons que, por si só, constituem uma forma de medicina. Cada palavra, cada sílaba, carrega um efeito específico sobre o corpo, a mente e o espírito. Trata-se de uma ferramenta extremamente poderosa, acessível a todos.
O que diferencia o sânscrito de qualquer outro idioma é que ele é um fenômeno baseado em energia, e não descritivo. Ele se conecta diretamente à qualidade de uma energia apenas pelo som.
Por exemplo, a palavra "amor" em inglês pode despertar associações diferentes em cada pessoa — dor, esperança, alegria — conforme a própria história emocional. Já ao cantar a palavra sânscrita para amor, prema, experimentamos essa qualidade de forma pura e direta, livre de conceitos ou associações pessoais. O objeto se torna universal, todos o acessam igualmente.
Os mantras são diretos e eficazes em diversas situações. Tornam-se parte natural da vida cotidiana, trazendo um senso mais profundo de sacralidade às atividades do dia a dia.
A popularidade ainda nos surpreende. Chegamos até a ser indicados ao Grammy — algo inacreditável.
DEVA PREMAL
Artista que faz dupla com o marido, Miten
Como você encontrou esse caminho espiritual? O que a motivou a levar adiante seus aprendizados e suas mensagens de reflexão e paz?
Encontrei meu caminho espiritual muito cedo. Na verdade, nasci nele. Meu pai era um praticante dedicado de yoga e mantras em sânscrito, e me recebeu neste mundo cantando o Gayatri Mantra comigo todas as noites antes de dormir. O Gayatri é considerado a oração mais antiga conhecida pela humanidade, e seu poder é como o de uma árvore milenar — profundo e compassivo.
Claro que, como todos, precisei encontrar minha própria compreensão da vida. Essa busca me levou à Índia e ao meu mestre, Osho. De certa forma, toda a minha vida foi vivida com essa consciência espiritual — desse grande espírito que permeia todos os seres vivos. E minha intenção mais profunda sempre foi viver com o máximo de amor e compaixão possível.
Por que você acredita que a mensagem que deseja transmitir se tornou popular e que hoje você é uma das principais vozes da música new age?
Antes de tudo, com sinceridade, Miten e eu não começamos com a intenção de "transmitir" uma mensagem. Tivemos a honra de facilitar sessões de meditação em ashrams (retiros espirituais hindus). É isso que fazemos há 35 anos: tocar e cantar para aprofundar a meditação. A popularidade ainda nos surpreende. Chegamos até a ser indicados ao Grammy, algo inacreditável.
Não sei por que tantas pessoas nos procuram especificamente, mas isso acontece. E são pessoas boas, com luz no olhar, boas intenções e humildade. Companheiros de jornada, vindos de todos os cantos do mundo. Quando canto, sinto que levo as pessoas de volta àquelas sessões de meditação nos ashrams, anos atrás — e também ao estado presente de participação plena e alegria.

Nossa vida é simples: cantamos e entoamos mantras. Hoje, mais pessoas ao redor do mundo percebem que, para sobreviver, precisamos viver de forma mais amorosa e compassiva. Isso não é fácil, mas é possível. Vislumbramos essa luz desde os anos 1960 e agora somos uma nova geração em busca de paz interior e amor universal. E isso começa dentro de nós. É aí que entram os mantras.
Cantar movimenta o ar. É real. Não é inteligência artificial. Quando cantamos juntos, respiramos no mesmo ritmo, e isso é poderoso. Não cantamos letras de música pop, mas sons energéticos de cura que impactam a vida. É encorajador ver cada vez mais pessoas interessadas.
Como você vê o crescimento desse interesse?
O kirtan (prática devocional que consiste no canto de mantras e nomes divinos) se tornou um fenômeno global, o yoga está presente em grande parte das cidades do mundo, e centros de meditação abrem suas portas para mais gente.
Precisamos encontrar nossa própria paz interior para irradiá-la por meio de nossas ações, inspirando outros a fazer o mesmo — com atitudes que causem menos dano e promovam mais cura, inclusive para animais e plantas. A alimentação vegana, por exemplo, é uma forma significativa de reduzir o sofrimento animal.
Essas percepções levam mais pessoas a buscar esse retorno a si mesmas, a encontrar quietude interior. E os mantras são um dos caminhos mais prazerosos e eficazes para isso. Milhares de pessoas já vivenciaram essa experiência, e a demanda só cresce. Para mim, a meditação por meio do canto de mantras é uma das formas mais naturais de encontrar paz e aliviar o estresse.
Cantar movimenta o ar. É real. Não é inteligência artificial. Quando cantamos juntos, respiramos no mesmo ritmo, e isso é poderoso.
DEVA PREMAL
Artista que faz dupla com o marido, Miten
Em um mundo marcado por guerras e extremismos, como os mantras podem ajudar a encontrar paz e compreensão?
Cantar juntos é uma das formas mais poderosas de nos unir. Respiramos juntos, criamos som juntos. Tornamo-nos artistas, criando algo do nada, e de repente surge um som vivo do qual todos participam. É uma experiência profunda de criação compartilhada. Nesse sentido, é o antídoto perfeito para a guerra, que se baseia na divisão.
O canto nos aproxima, dissolve fronteiras. Os mantras em sânscrito são universais justamente porque ninguém mais fala essa língua. É um idioma antigo que não pertence a nenhuma cultura ou nação atual. Ao cantar em sânscrito, todos estão em igualdade. Todos se encontram no mesmo lugar. E os mantras carregam uma energia intencional: cultivam paz, compreensão, conexão e amor.
Em 2004, você e Miten criaram uma "linha direta de mantras" no Reino Unido, com milhares de telefonemas de pessoas que buscavam por paz. Como vocês adaptaram esta ferramenta de sucesso para 2026?
Hoje temos ferramentas que nos permitem cantar juntos de maneiras antes impossíveis. Miten e eu criamos um aplicativo pelo qual realizamos sessões semanais ao vivo de meditação e canto todos os sábados. Fazemos isso desde a pandemia.
Isso só é possível graças à internet: a capacidade de estar presente, ao vivo, com pessoas do mundo todo ao mesmo tempo. Milhares participam semanalmente. Para muitos, tornou-se um fio condutor em suas vidas, algo em que podem confiar para lidar com a intensidade dos tempos atuais.

Como você e Miten construíram uma relação tão duradoura e sintonizada, apesar da diferença de idade?
Vivemos uma amizade e uma história de amor muito bonitas ao longo de 35 anos. Somos profundamente gratos por termos nos encontrado e por não termos deixado a diferença de idade interferir — isso é apenas uma construção mental.
Em essência, somos espíritos eternos, e espíritos não têm idade. Não temos fórmula ou conselho. Mas acreditamos que os mantras e o canto conjunto têm papel importante. Criam uma conexão que vai além das palavras e do físico: um encontro profundo de almas.
Ao longo dos anos, recebemos relatos de pessoas que foram profundamente impactadas por essa música. Algumas disseram que ela salvou suas vidas.
DEVA PREMAL
Artista que faz dupla com o marido, Miten
Como é o processo de composição de vocês?
Nossa vivência em ashrams na Índia nos deu uma compreensão profunda de como criar música para meditação e celebração.
Trabalhamos com composições próprias e de amigos que compartilham dessa intenção. Alguns mantras seguem melodias tradicionais e outros são entoados na forma de japamala, com repetição em 108 ciclos (japamala é um cordão sagrado com 108 contas).
Muitas vezes, usamos melodias que tocam o coração e levam o mantra à alma. A melodia funciona como um veículo: leva o mantra a lugares que as palavras não alcançam. Ela também faz com que o mantra permaneça conosco ao longo do dia, surgindo espontaneamente em momentos cotidianos. Assim, a música planta uma semente que continua a nos nutrir.
De que forma as mulheres podem encontrar paz em um mundo com tamanha violência contra elas?
É triste que ainda exista tanta desigualdade entre homens e mulheres. Mas a paz não tem gênero. Todos precisam de cura e são capazes de encontrá-la. Mesmo aqueles que causam dor também sofrem e precisam de cura. É isso que os mantras oferecem.
Existem abordagens terapêuticas importantes, como o Somatic Experiencing (em tradução livre, Experiência Somática), que ajudam a lidar com traumas. Os mantras podem fazer parte desse processo.
Ao longo dos anos, recebemos relatos de pessoas que foram profundamente impactadas por essa música. Algumas disseram que ela salvou suas vidas. Os mantras são poderosos. Podem ajudar e acolher, atuando junto a outras formas de cura.
Sim, sinto-me confortável comigo mesma. E, no fim, é isso que significa viver em paz.
DEVA PREMAL
Artista que faz dupla com o marido, Miten
Como é a rotina de vocês fora das turnês?
Nossa vida é simples: caminhamos, cozinhamos, cantamos. Mantemos contato com pessoas do mundo todo por meio de nossa comunidade online. Vivemos na Costa Rica, em meio à floresta tropical, cercados por natureza. Sentimo-nos muito abençoados.
Você encontrou a paz? É feliz?
Posso dizer que encontrei uma paz profunda, baseada na confiança. Já testemunhei muitas vezes as coisas se encaixando, como pequenas sincronicidades. Claro que o medo aparece, especialmente diante do mundo atual. Mas, no fundo, existe uma confiança estável que me sustenta. Sim, sinto-me confortável comigo mesma. E, no fim, é isso que significa viver em paz.
Qual é sua relação com o Brasil?
Temos uma música chamada Calma e Tranquilidade, composta por Ronaldo Freitas, que adoramos cantar em português. Há algo nesse idioma que abre meu coração.
Vivemos na Costa Rica, onde se fala espanhol, mas meu coração pertence ao português brasileiro. A espiritualidade do Brasil está na alegria, na celebração, na música e na abundância de oração e serviço — uma espiritualidade viva, cheia de energia.
Planejávamos retornar ao país em 2020, com uma turnê completa, mas a pandemia mudou tudo. Ficamos muito felizes que esse momento finalmente chegou.

