
As mulheres brasileiras estão empreendendo mais. É isso que mostra um levantamento divulgado pelo Sebrae, que contabilizou a abertura de mais de 2 milhões de micro e pequenas empresas lideradas por mulheres em 2025. O dado representa crescimento de 20% em relação ao que havia sido registrado no ano anterior, taxa recorde para o nicho do empreendedorismo feminino.
Conforme Susana Stoher, gestora do programa Sebrae Delas no Rio Grande do Sul, múltiplos fatores ajudam a explicar esse aumento. Contudo, a decisão de empreender, para a maioria, ainda está atrelada à busca por horários de trabalho mais flexíveis, que permitam conciliar a criação dos filhos com a tentativa de alcançar a independência financeira – o chamado "empreendedorismo por necessidade".
— Mas há um percentual crescente de mulheres que estão começando a empreender porque reconhecem demandas no mercado e conseguem criar soluções para elas. É o que chamamos de empreendedorismo de oportunidade — pondera.
Experiência transformada em negócio
Dentro desse grupo está a porto-alegrense Cristiane Barth, 38 anos, proprietária da loja Caixinha Mágica Presentes. O empreendimento foi iniciado por ela em novembro, a partir de uma lacuna identificada na própria experiência de consumo: sempre que precisava presentear a filha de 10 anos ou coleguinhas da menina, era difícil encontrar opções criativas e que fugissem do óbvio.
Comportamento
Por isso, resolveu abrir a própria loja de presentes infantis, com uma curadoria autoral de brinquedos, jogos, materiais de papelaria e outros objetos. Parte dos produtos são confeccionados pela própria Cristiane, que utiliza impressoras 3D para criar brinquedos sensoriais personalizados, pensados para os pequenos que estão no espectro autista ou têm algum outro tipo de neurodivergência.
— A minha filha tem TDAH, e o meu desejo também era trazer opções que pudessem ser interessantes para crianças atípicas. São brinquedos que estimulam alguma habilidade na criança, como memória, linguagem e atenção — explica ela, que ainda concilia a jornada empreendedora com um emprego formal.
— O meu sonho é que o meu negócio cresça e eu possa abrir mais lojas pela cidade, talvez até franquias, mas mantendo o diferencial de ser um local acolhedor e próximo. Quando abri a loja, não pensei tanto sobre isso, mas hoje acredito que é possível — projeta.
Entrevistas
A visão de futuro de Cristiane não surge do nada: antes de tirar o projeto do papel, ela procurou conhecer bem o terreno onde iria pisar. Fez um MBA na área de negócios e buscou consultoria especializada junto ao Sebrae, o que permitiu que passasse pelo processo de planejamento e abertura da empresa de forma consciente e estruturada.
— Iniciei no final do ano, então, peguei o movimento das compras de Natal. Mas aí veio janeiro e fevereiro, a cidade ficou vazia, e a procura caiu bastante. Ter buscado orientação foi fundamental também para que eu pudesse me preparar para lidar com os desafios do período inicial — diz Cristiane, refletindo que nem todas as empreendedoras têm a mesma oportunidade de se preparar.

Mudança de rumo depois dos 40
É o caso das mulheres periféricas, que têm intersecções como a classe social e a raça somadas às desigualdades relacionadas ao gênero – o que, muitas vezes, limita ainda mais o acesso a conhecimentos sobre finanças e gestão, entre outros tópicos fundamentais no ramo do empreendedorismo.
Foi pensando nessa lacuna que a empresária Roberta Capitão, 49 anos, decidiu abrir um novo negócio no ano passado – integrando, assim, a gama de empreendedoras que fizeram a abertura de negócios femininos bater recorde em 2025.
Depois de mais de duas décadas empreendendo de forma tradicional, na área da odontologia, ela ingressou no universo da inovação e fundou a PerifaTech, uma startup de tecnologia que busca qualificar negócios periféricos para uma melhor gestão empresarial.
— Tenho 26 anos de trajetória empreendedora, mas entrar no mundo da inovação foi um desafio. Eu nem sabia que o que eu estava criando era uma startup, por exemplo. Como uma mulher com mais de 40 anos e sem curso superior, tive que me adaptar a um ecossistema que ainda é muito desigual, tanto para as mulheres quanto para quem vem da periferia — relata a empreendedora.

A startup criada por Roberta oferece, pelo valor mensal de R$ 19,90, o acesso a um assistente virtual que funciona dentro do WhatsApp. Os assinantes podem recorrer à ferramenta para tirar dúvidas diversas, da precificação à gestão de pessoas, e obter orientação sobre como manejar questões práticas do dia a dia de suas empresas.
Segundo Roberta, a IA por trás da funcionalidade foi projetada para entender as formas de comunicação da população periférica e, do mesmo modo, responder aos usuários de forma simples e acessível:
— Em ferramentas como o ChatGPT, é necessário saber criar um prompt, algo que o nosso público muitas vezes não sabe fazer. O nosso diferencial é a linguagem adaptada e a orientação imediata, para que os empresários consigam lidar com os problemas no momento em que eles aparecem.
Desafios maiores para as mulheres
Moradora da Restinga, a empresária chama atenção para o rápido fechamento de muitas empresas periféricas. Algo que, para ela, está ligado à falta de acesso à educação empreendedora, que é agravada pela urgência financeira de quem empreende por necessidade.
— As pessoas investem as economias de uma vida inteira para abrir negócios que acabam fechando rapidamente – e não por falta de talento, mas por falta de entendimento sobre gestão. Isso é ainda mais problemático para as mulheres da periferia, que muitas vezes dependem desses negócios para alcançar independência financeira e romper com ciclos de violência — afirma ela, que é fundadora da Associação Empreendedoras Restinga.

De acordo com a especialista Danielle Cosme, fundadora da aceleradora de negócios femininos Clã Conexões e vice-presidente da Associação Gaúcha de Startups, os primeiros anos de negócio tendem a ser os mais difíceis na vida de qualquer empreendedor, mas, para as mulheres, as dificuldades podem ser mais contundentes.
— Nossos desafios são bem maiores. Precisamos superar a síndrome da impostora e lidar com a jornada dupla de conciliar o trabalho com a casa e os filhos. No mercado, a desigualdade também é nítida: pesquisas mostram que, embora os índices de inadimplência sejam menores entre as mulheres, elas pagam taxas de juros mais altas e têm menos espaço nas mesas de decisão — elenca a especialista.
Desigualdade no acesso ao crédito
Um estudo realizado pelo Sebrae em 2024 mostra que enquanto os homens à frente de pequenos negócios arcam com uma taxa de juros média de 36,6% ao ano nos financiamentos contratados, as mulheres pagam 40,6%. Em alguns Estados, como o Rio de Janeiro, a discrepância é maior: a taxa média paga em geral pelos pequenos negócios é de 47,9% ao ano, mas as microempreendedoras individuais (MEI) arcam com índice de 60,4%.
A pesquisa aponta, ainda, que mulheres empreendedoras usufruem de uma fatia bem menor dos recursos que o mercado disponibiliza para os pequenos negócios, o que evidencia desigualdade também no acesso ao crédito. Isso, conforme Danielle, representa um obstáculo para a saúde dos empreendimentos femininos:
— O desafio atual não é fazer a mulher empreender, mas evitar que ela feche o seu negócio antes do segundo ano. Nós estamos colocando as mulheres na sala, mas a gente precisa colocar as mulheres na mesa, sentadas para assinar contratos e acessar investimentos. Já demos um grande passo em relação ao empreendedorismo feminino, mas precisamos avançar mais.
Mitigar a desigualdade
Diante desse cenário, iniciativas voltadas à promoção da permanência das mulheres no empreendedorismo passam a ganhar relevância. No Sebrae, por exemplo, programas específicos têm buscado atuar em diferentes etapas da jornada empreendedora, da concepção à garantia da longevidade dos negócios femininos.
— Identificamos que existe um momento anterior à abertura de uma empresa por uma mulher, que é o desenvolvimento das competências socioemocionais dessa empreendedora. Muitas mulheres não enxergam o potencial de crescimento que existe nelas e nos seus negócios — explica Susana Stoher, gestora do Sebrae Delas no RS.
Segundo ela, isso impacta diretamente a forma como as mulheres conduzem suas empresas e, consequentemente, o quão longe chegarão com elas. Outro ponto crucial é a democratização do acesso ao crédito, frente na qual a instituição também tem atuado.
— Temos o Fampe Mulher, um fundo garantidor exclusivo para negócios liderados por mulheres, que dá 100% de garantia para empréstimos dentro da nossa rede de instituições financeiras parceiras — detalha.













