
Aos 54 anos, Maria Beltrão reúne uma longa trajetória no jornalismo. Com um estilo leve, bem-humorado e próximo do público, a carioca se consolidou como uma das comunicadoras mais queridas da televisão brasileira. Hoje, à frente do É de Casa, ela também inspira muitas mulheres ao mostrar que é possível construir uma carreira sólida sem renunciar à autenticidade.
Jornalista formada pela Faculdade da Cidade, Maria iniciou a carreira na equipe inaugural da GloboNews. Há mais de três décadas no Grupo Globo, desenvolveu um percurso profissional marcado pela clareza na comunicação e sensibilidade na condução de temas difíceis. Entre 2008 e 2022, apresentou o Estúdio i, telejornal diário que hoje é apresentado por Andreia Sadi.
Em 2022, mudou de ares e passou a integrar o time de apresentadores do É de Casa, programa que vai ao ar nas manhãs de sábado na Globo. Foi o momento de ampliar sua atuação para temas ligados ao cotidiano, cultura e comportamento. Em entrevista para Zero Hora à época, ela contou que era a hora de experimentar outras coisas.
Agora, em uma nova fase, marcada pela mudança no visual, a jornalista diz estar mais aberta a variar os temas que leva ao público. Os cabelos loiros simbolizam esse momento, em que passa a abordar com mais frequência questões ligadas ao bem-estar, ao envelhecimento sem estigmas e à liberdade de viver com mais leveza.
Entrevistas
— Acho que o cabelão loiro acabou se tornando um símbolo dessa fase em que estou mais aberta ao novo, com mais liberdade para experimentar. De certa forma, ele reflete muito o momento que estou vivendo agora. Se as loiras se divertem mais? Isso, eu não sei dizer, mas posso garantir que eu estou me divertindo bastante (risos).
Maria mantém conexão com o público online. Nas redes sociais, compartilha dicas de estilo, reflexões sobre a vida, brincadeiras com um toque de humor e indicações de leituras. Além disso, ela é presença constante nas transmissões do Oscar, tendo participado de mais de 15 edições. O novo cabelo surgiu na premiação deste ano, em março.
Ela conta que foi uma proposta comercial que topou e não se arrependeu. Na visão dela, foi uma transformação importante:
— Como eu acredito que a vida é feita de recomeços e mudanças, posso dizer que sim, acabou inaugurando uma nova fase. Até porque o cabelo puxa outras mudanças: dá vontade de renovar os looks, experimentar na maquiagem. É como se uma coisa levasse naturalmente à outra.
Confira a entrevista completa
A exposição na TV costuma trazer cobranças estéticas, especialmente para mulheres. Como tu construíste a tua relação com a própria imagem ao longo da carreira?
Desde que comecei na TV, há 30 anos, eu já sabia que não correspondia a um certo padrão. Mas logo entendi que não conseguiria ser outra coisa na vida além de mim mesma. Então eu insisti no meu jeito, na minha assinatura, até que ela passou a fazer sentido.
Hoje, eu acho que não existe nada melhor do que saber quem a gente é. Quando você tenta ser diferente disso, além de trazer sofrimento, você não passa verdade para quem assiste. E essa é a pior das fórmulas.
Logo entendi que não conseguiria ser outra coisa na vida além de mim mesma.
Após os 40 anos, o que mudou na forma como tu te vês, tanto no espelho quanto internamente?
Acho que a palavra-chave é aceitação. Nada melhor do que a maturidade para entender que cada ruga é, na verdade, uma conquista, e cada cicatriz, uma história.
Hoje eu me olho com mais gentileza, tanto no espelho quanto por dentro. Tem menos cobrança e mais compreensão. E isso muda tudo. Ah, e depois dos 50, está melhor ainda.
O que é a idade para ti?
A idade não é o que dita quem eu sou ou o que quero fazer. Claro que a gente sente o peso do passar do tempo — no corpo, no ritmo, em pequenas questões do dia a dia. Mas envelhecer com qualidade de vida e saúde é uma bênção. Junto com alguns incômodos, que antes não existiam, vem algo muito valioso: a sabedoria. E isso não tem preço.
A idade não é o que dita quem eu sou ou o que quero fazer.
O empoderamento feminino hoje está muito presente nas discussões, mas no início da tua carreira não era tão comum. Em que momento esse tema passou a fazer parte, de forma mais consciente, da tua vida profissional?
Eu não consigo apontar um momento específico em que isso aconteceu. Vejo muito mais como um processo, um fortalecimento gradual da presença e da voz da mulher no mercado de trabalho, inclusive no jornalismo.
Eu acho que o empoderamento vem quando a mulher tem liberdade para fazer suas escolhas e poder ser quem ela é.
O que tu acreditas ser empoderamento feminino hoje?
É muito difícil definir empoderamento feminino, porque cada mulher, dependendo da sua realidade, vai ter uma visão sobre isso. O que eu posso dizer é que a palavra-chave, para mim, é liberdade. Eu acho que o empoderamento vem quando a mulher tem liberdade para fazer suas escolhas e poder ser quem ela é.
Tu construíste uma carreira sólida no jornalismo por décadas. Quando tu percebeste que estavas exatamente onde queria estar? Ou isso ainda está em construção?
Acho que a beleza está justamente em nunca estar pronta. Sempre tem um desafio, sempre tem algo em construção. Eu gosto disso, dessa vontade constante de me reinventar dentro do que eu faço.
Hoje eu continuo sendo jornalista, mas há quase quatro anos, também atuando na área do entretenimento. E ali eu descobri uma nova maneira de contar histórias. Isso, para mim, é o mais fascinante. Essa eterna novidade que é a vida, dentro do que eu amo fazer.

O jornalismo já te obrigou a sair da tua zona de conforto? Qual momento da tua carreira tu acreditas que mais se destacam?
Foram muitos momentos em que o jornalismo me tirou da zona de conforto, é até difícil escolher. Mas eu sempre digo que um divisor de águas na minha vida foi a cobertura do 11 de Setembro. Fiquei 10 horas seguidas no estúdio, fazendo a cobertura ao vivo, tentando explicar e, ao mesmo tempo, acompanhando, junto com o mundo inteiro, o que estava acontecendo.
Fiz a tradução simultânea dos discursos do George W. Bush, em inglês, e do Jacques Chirac, em francês.
Um divisor de águas na minha vida foi a cobertura do 11 de Setembro. Fiquei 10 horas seguidas no estúdio, fazendo a cobertura ao vivo.
Só quando cheguei em casa, de madrugada, consegui começar a digerir aquilo tudo. Chorei muito! Fiquei desolada. Foi um desafio enorme. E também um momento em que percebi que tinha uma vocação muito forte para a cobertura ao vivo, que acabou se tornando uma marca minha. Paradoxalmente, um dos episódios mais tristes da história recente foi muito importante na minha trajetória profissional.
Comportamento
Muitas mulheres se cobram por não terem tudo “resolvido” aos 30 ou 40 anos e outras tantas se sentem "velhas demais" para ir atrás dos sonhos. O que a tua história ensina sobre tempo, maturidade e sucesso?
Não tem idade para sonhar. Eu adoro uma frase de um personagem do Valter Hugo Mãe que diz algo como: quando a gente sonha alto, a realidade aprende. Eu sou dessas. Vou continuar sonhando alto sempre.
Ao mesmo tempo, eu acho que a gente não pode viver de frustração, porque as coisas não acontecem exatamente como a gente imaginou. A vida é um presente. E, se eu pudesse dar um conselho para minha versão mais nova, seria: curta o presente, de verdade. Curta o que está acontecendo agora.
Porque todo dia tem alguma coisa boa. Um livro, uma conversa, um aprendizado. Às vezes, a gente fica tão focado na meta, no lugar onde se quer chegar, que esquece de olhar para a caminhada. E a caminhada também é espetacular. Tudo que a gente aprende, tudo que a gente vive, tudo isso é vida. E vida merece ser celebrada em cada etapa.
Eu sou muito caseira, amo ficar em casa. Então a minha vida social é bem mais tranquila do que as pessoas imaginam.
Tu és mãe, és casada, tens uma carreira de sucesso, cuida da saúde física e mental, lê, tens vida social. É possível equilibrar tudo ou, de vez em quando, alguns pratinhos vão cair?
Ah, com certeza tem pratinho caindo o tempo inteiro (risos). Mas, já não me cobro mais como antes. E também já entendi o que eu gosto e o que eu não gosto, o que dá para ceder e o que não dá. Eu acho que isso, de se conhecer, ajuda muito. Saber onde vale colocar energia e onde não vale.
E tem uma coisa que facilita a minha vida também. Eu sou muito caseira, amo ficar em casa. Então a minha vida social é bem mais tranquila do que as pessoas imaginam. Estar em casa com o meu marido, vendo um filminho, viver esses rituais de família com minha filha, como o almoço de domingo e a missa. É isso que me alimenta.

Quais são as dores e as delícias, como diria Caetano Veloso, de ser uma referência para tantas mulheres?
Ai, as delícias são muitas. É maravilhoso perceber que a nossa história, as nossas escolhas e até as nossas imperfeições podem tocar outras mulheres, gerar identificação. Eu adoro me encontrar com outras mulheres nas minhas fragilidades. Isso é muito libertador.
As dores vêm muito da expectativa do outro. Porque a gente não é perfeita e nem poderia ser. A gente está em construção o tempo inteiro. Mas, no fim, tudo vale a pena. Entre dores e delícias, tudo vale a pena.
Que conselho tu darias para aquelas mulheres, nas faixas etárias dos 40, 50 ou 60 anos, que estão em busca de felicidade e significado?
Que responsabilidade! Acho que vai muito nessa linha do carpe diem, de aproveitar o momento, entender que a vida é um presente.
Cultivar pensamentos que nos levem ao amor e à esperança. Porque isso muda tudo, muda o jeito como a gente enxerga o que vive. Eu gosto muito de uma frase do Ariano Suassuna que diz: “o otimista é um tolo, o pessimista é um chato. Eu prefiro ser uma realista esperançosa”.
















