
Ser mulher custa mais caro? A pergunta, que vem gerando debates, envolve aspectos que vão muito além do financeiro. Está na desigualdade salarial, no tempo dedicado aos cuidados com a casa e a família, nas exigências estéticas e até mesmo nas estratégias cotidianas de segurança. Soma-se a isso o impacto emocional e psicológico de viver sob pressão.
Não por acaso, especialistas apontam que, na prática, a resposta é sim, ser mulher costuma custar mais. É possível afirmar que essa conta vem mais alta justamente porque as mulheres ganham menos. No Brasil, elas recebem cerca de 20% menos do que os homens. Em empresas com mais de cem funcionários, a diferença chega a 21,2%, conforme o Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho e Emprego, de 2025.
Além disso, o tempo dedicado ao trabalho doméstico e ao cuidado dos seus impacta diretamente a trajetória financeira feminina porque reduz horas disponíveis para atividades remuneradas, qualificação profissional e progressão na carreira.
— Menos renda mensal significa menor capacidade de poupança e investimento. Como as mulheres vivem, em média, sete anos a mais do que os homens, precisam sustentar uma longevidade maior com um patrimônio construído sob condições estruturalmente desfavoráveis — explica Leila Ghiorzi, educadora financeira e mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Comportamento
Segundo a PNAD Contínua do IBGE, as mulheres brasileiras dedicam até 10 horas semanais a mais do que os homens aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Esse cenário compõe a chamada “penalidade da maternidade”, responsável, conforme estudos do Banco Mundial e da OCDE, por uma queda significativa na renda das mulheres após o nascimento dos filhos, além da redução na probabilidade de promoção e maior incidência de informalidade ou trabalho em tempo parcial.
— Diferentemente do que ocorre com os homens, cuja renda tende a se manter estável ou até aumentar após a paternidade, a maternidade costuma gerar uma perda salarial persistente ao longo da vida. Essa penalidade não é apenas temporária: ela afeta o crescimento salarial futuro, a contribuição previdenciária e o patrimônio acumulado — pondera Leila.

O custo não é igual para todas
Mulheres negras e de baixa renda enfrentam maior informalidade, menor acesso a renda estável, crédito e proteção previdenciária e maior vulnerabilidade econômica. A interseccionalidade – a combinação entre gênero, raça e classe – amplia desigualdades ao longo da vida.
Enquanto mulheres de maior renda podem terceirizar cuidados ou acessar serviços privados, as de baixa renda sentem mais o impacto de despesas como absorventes, transporte e saúde preventiva. Estudos da ONU Mulheres e do Banco Mundial apontam que mulheres em situação de pobreza dedicam mais horas ao trabalho não remunerado, o que reduz ainda mais sua inserção no mercado formal.
— O “custo de ser mulher” não é uniforme. Ele é proporcionalmente mais alto para mulheres negras e de baixa renda, porque a desigualdade salarial, a informalidade, a sobrecarga de cuidado e a menor proteção social se acumulam. Quando gênero, raça e classe se sobrepõem, as desvantagens deixam de ser pontuais e passam a ser estruturais — afirma Leila.
Entrevistas
A carga do cotidiano
Historicamente, consolidou-se a ideia de que a manutenção do lar e as demandas dos filhos e, muitas vezes, do marido, seriam responsabilidades prioritariamente femininas. Esses papéis foram sendo naturalizados e se tornaram fonte de pressão sobre as mulheres, como ressalta a historiadora Letícia Schneider Ferreira, professora e integrante da Assessoria de Gênero e Sexualidade do do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS):
— Isso fica muito claro quando ainda ouvimos a forma como as pessoas se expressam: “O marido pode ajudar a mulher”, como se o trabalho no espaço doméstico fosse uma ajuda, e não uma divisão equitativa entre todos que vivem naquela casa. As mulheres são julgadas o tempo inteiro por essa situação. Se a casa está bagunçada ou não está tão limpa, em 99% dos casos os homens não são cobrados por isso, mas as mulheres, sim.
Na estrutura da relação, esses afazeres acabam sendo delegados à parceira, ainda que não necessariamente de forma explícita – muitas vezes por falta de proatividade dos companheiros. Júlia Zamora, psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), explica que há um conceito conhecido como “inutilidade performática masculina”.
Trata-se do suposto desconhecimento, por parte de alguns homens, sobre como realizar determinadas tarefas, o que os eximiria da responsabilidade e colocaria a parceira como responsável por algo que ele alegaria “não saber fazer tão bem”.
— “Não lavei a roupa porque você entende melhor como funciona”, “não arrumei o guarda-roupa das crianças porque você sabe melhor onde estão as coisas”. Esses exemplos ilustram como, de forma conveniente, a carga de algumas atividades é direcionada majoritariamente às mulheres. Normalmente, essas divisões estão ancoradas em estereótipos culturais de gênero e na divisão sexual do trabalho, que parte da ideia de que determinadas tarefas seriam melhor desempenhadas de acordo com o gênero — comenta.
Essas expectativas culturais contribuem para a manutenção de estigmas, discriminações e violências contra mulheres que subvertem essa lógica e não colocam a vida doméstica e o cuidado com o outro em primeiro lugar.
— A violência de gênero é reconhecida como um problema de saúde pública e é ela que sustenta desigualdades e sobrecargas. Tratar essa questão como falha individual inviabiliza a compreensão das verdadeiras causas e dificulta a construção de ações coletivas e de longo prazo que possam, de fato, enfrentar essa problemática — acredita Júlia.
O custo da insegurança
Outra carga significativa que as mulheres carregam é a necessidade constante de vigilância e autoproteção diante da violência. Muitas precisam adotar estratégias para se sentirem seguras, o que reforça um estado permanente de alerta. Essa realidade é perceptível no Rio Grande do Sul: nos últimos 14 anos, o Estado registrou, em média, um feminicídio a cada quatro dias, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP).
Uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgada na quarta-feira (4), mostrou que, entre 2021 e 2025, o RS foi o Estado com o maior número de feminicídios da Região Sul, respondendo por 38,8% das mortes. Foram 444 casos em solo gaúcho, frente a 429 ocorrências no Paraná e 272 em Santa Catarina.
Violência contra a mulher
Jane Felipe de Souza, professora titular aposentada da UFRGS, que atuou na área de Educação, Sexualidade e Relações de Gênero, reforça que a violência de gênero atravessa todas as classes e idades. Ela destaca que as estatísticas sobre feminicídios e outras formas de violência — como maus-tratos emocionais, violência patrimonial, moral e sexual — revelam falhas profundas na educação promovida pelas famílias e pela sociedade desde a infância.
— Assim, mulheres acabam sofrendo consequências físicas e emocionais de homens com baixa tolerância à frustração, que as maltratam e desrespeitam quando percebem que elas não estão mais sob seu domínio ou não se dobram aos seus desejos. A liberdade de ser, de pensar e de existir pode custar caro às mulheres.
Por isso, Jane defende que é preciso educar os meninos, desde cedo, para que respeitem as meninas e, ao mesmo tempo, orientá-las para que saibam reconhecer comportamentos agressivos e opressores e consigam se afastar deles o quanto antes:
— Creio que os índices de feminicídio revelam o quanto a sexualidade feminina ainda é atravessada por silenciamentos, tabus e violência. Grande parte dos assassinatos cometidos contra mulheres ocorre pela não aceitação, por parte dos homens, do término de relacionamentos que já não fazem sentido para elas. Essa reivindicação de liberdade não é respeitada; ao contrário, pode ser punida com a morte.
Para Júlia, são muitos os efeitos psicológicos produzidos pela necessidade constante de vigilância, especialmente o aumento da ansiedade, a sensação de privação de liberdade e a desconfiança ampliada em relação ao mundo. Como resposta prática, é preciso desenvolver estratégias de autopreservação.
— Muitas mulheres precisam repensar comportamentos para minimizar riscos de violência: compartilhar a localização com pessoas de confiança, evitar determinados horários, correr na rua apenas acompanhadas. Essas práticas não são tão presentes entre homens, porque o nível de insegurança não é o mesmo. Ou seja, há um custo que envolve, inclusive, a mudança de hábitos cotidianos e que mantém um estado de alerta constante — conta.

O preço da aparência
Como se não bastasse, o corpo feminino ainda é frequentemente tratado como se estivesse à disposição do julgamento público — lógica que ganhou novos reflexos com a força da mídia e das redes sociais. Conforme Júlia Zamora, se antes a pressão estética se concentrava na comparação com celebridades, hoje se expandiu para incluir “pessoas reais”, o que torna a cobrança mais constante e difusa.
— Isso gera a ideia de que um corpo imperfeito seria falta de esforço. Esse problema também aumenta considerando o período de ciclo de vida da mulher. É como se a mulher não tivesse direito ao envelhecimento. Pode ocasionar principalmente prejuízos na autoestima, transtornos alimentares, uso abusivo de substâncias e medicações para emagrecimento, inibição nas relações sociais e vida sexual e outros riscos relacionados à saúde física — aponta a psicóloga.
Para Carla Lemos, influenciadora, autora do livro Use a Moda a Seu Favor (Galera Record, 2019) e colunista da revista Glamour, há ainda uma contradição no discurso contemporâneo sobre autoestima e aparência. Depois de anos ensinando que era preciso sempre melhorar, agora passou-se a defender a ideia de que é possível se aceitar como se é. Mas, segundo ela, essa mudança traz uma armadilha: afinal, quem é esse “você” que deve ser aceito?
— É um ciclo enlouquecedor. Parece que nada é bom o suficiente. A gente passou pelo momento do body positive e, de repente, surge uma canetinha que promete o corpo dos sonhos. Agora há toda a questão fitness. Fazer atividade física é importante para a saúde, mas o discurso é usado para aumentar a pressão. Não basta ser magra, é preciso ser sarada. Você precisa se preocupar ainda mais com alimentação, suplementos, personal, academia, corrida, tênis, roupa. Nunca para.
Ao longo do tempo, foi construída a ideia de que a mulher se resume à própria aparência e que isso determina o seu valor. Logo, é preciso reconhecer que as mulheres não consomem apenas por insegurança. Há uma engrenagem maior que dita padrões estéticos e que se beneficia da criação constante de "necessidades".
Muitas mulheres buscam se encaixar nesses parâmetros por meio de tratamentos, cirurgias, treinos, dietas, suplementos e produtos como as canetas emagrecedoras. No entanto, a maioria não tem recursos para arcar com tudo isso. Diante da pressão, algumas acabam recorrendo a procedimentos mais baratos e que podem colocar a saúde em risco.
— Isto pode afetar, na medida em que a pessoa pode se sentir infeliz caso não atenda às exigências da cultura em que está inserida. A busca por alcançá-las pode levar, muitas vezes, a compulsões, como se esse corpo estivesse necessitando sempre de mais alguma coisa, a endividamentos e a uma dificuldade de encarar o envelhecimento e a finitude como processos naturais — afirma Jane.
Por que rosa custa mais?
Essa conta acaba voltando ao bolso das mulheres. Mesmo ganhando menos, elas pagam a mais por produtos semelhantes destinados aos homens. A chamada taxa rosa não é mito, como aponta Leila Ghiorzi.
Levantamento do Departamento de Assuntos do Consumidor de Nova York, de 2015, analisou 794 produtos de 91 marcas vendidos em 24 varejistas e apontou que, em média, itens voltados às mulheres custam 7% mais do que os masculinos. Nas comparações diretas, elas pagaram mais em 42% dos casos, contra 18% para os homens.
— O estudo nota que, apesar de fatores como produção explicarem parte, as disparidades refletem estratégias de precificação baseadas em gênero, tornando-as em grande parte inevitáveis para consumidoras, já que elas não controlam ingredientes ou tecidos e dependem do que o mercado oferece — diz Leila.
Veja diferenças por categoria
- Cuidados pessoais: 13% mais caros para mulheres, com xampus e condicionadores 48% acima
- Roupas adultas: 8% mais caras, como camisas femininas 15% acima
- Brinquedos e acessórios: 7% mais caro para meninas
- Roupas infantis: 4% mais para meninas
- Saúde para idosos: 8% mais para mulheres
A economista Lisiane Fonseca da Silva, professora da Universidade Feevale, explica que o mercado identifica uma maior disposição feminina para consumir itens de autocuidado e, por isso, amplia a oferta e os preços.
— Os itens de autocuidado estético não entram em uma lista de necessidades primárias. E, até por isso, o preço também é mais alto. Nós, mulheres, costumamos gostar de nos cuidar. O mercado entende isso e nos dá mais opções — explica.
Saúde feminina custa caro
Gastos recorrentes com saúde também impactam o orçamento das mulheres ao longo da vida. Consultas ginecológicas, anticoncepcionais, absorventes e exames preventivos – como papanicolau e mamografias – são despesas que se acumulam por décadas.
No Brasil, mulheres representam 53% dos beneficiários de planos de saúde e realizaram mais de 17 milhões de consultas ginecológicas e 10 milhões de exames em 2021, o que também eleva custos com copagamentos e franquias. Produtos como absorventes geram um gasto recorrente de cerca de R$ 20 a R$ 50 por mês, somando milhares de reais ao longo da vida fértil. Os dados são da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e Federação Nacional de Saúde Suplementar.
— Trata-se de custos contínuos por décadas, biologicamente determinados e socialmente naturalizados. O resultado é que, ao longo da vida, essas despesas representam um fluxo permanente de saída de recursos, que reduz a capacidade de poupança e investimento, especialmente quando somadas à desigualdade de renda já existente entre homens e mulheres — diz Leila.
Como virar essa conta

As especialistas são unânimes: o custo de ser mulher não é resultado de escolhas individuais, mas de desigualdades estruturais. Medidas como transparência salarial, ampliação de políticas de cuidado – como creches e licenças parentais mais equilibradas –, fortalecimento da proteção previdenciária e educação para a igualdade de gênero desde a infância estão entre os caminhos apontados para reduzir essas distorções.
Para Leila Ghiorzi, é essencial criar condições mais equânimes no mercado de trabalho e na geração de renda:
— Essas medidas não devem ser vistas como permanentes, mas como instrumentos de correção de distorções acumuladas ao longo do tempo. Para que, no futuro, políticas específicas deixem de ser necessárias porque o próprio sistema econômico opere com menor assimetria entre homens e mulheres.
Lisiane ressalta que as novas gerações já demonstram maior sensibilidade para a questão da equidade, mas lembra que a lógica patriarcal ainda está presente na sociedade.
— A mão de obra feminina é tão produtiva quanto a masculina. A diferença salarial é cultural, não técnica. A perspectiva que a gente tem que pensar é nas políticas públicas, no sentido de tentar diminuir essas diferenças. Se o salário daquela função é X, não importa se é homem ou mulher, o salário tem que ser o mesmo.
Outro ponto é a ampliação de espaços de debate e escuta. Letícia acredita que instituições públicas e privadas precisam estar atentas às desigualdades estruturais e às exigências que recaem com maior peso sobre as mulheres.
— Também é importante olhar para esse fenômeno a partir de uma lente interseccional, ou seja, quando falamos de “mulher”, não estamos falando de apenas uma forma de ser mulher. Mulheres de diferentes etnias, faixas etárias, escolaridades e orientações sexuais vão possuir vivências e necessidades diferentes e que devem ser consideradas — conclui Júlia.




















