
Entre mocinhas, vilãs, mulheres apaixonadas, fortes, engraçadas e com tantas outras características, Sheron Menezzes construiu uma carreira marcada pela variedade de personagens. Aos 42 anos, a gaúcha acumula mais de duas décadas de carreira divididas entre televisão, cinema e teatro, dando vida a personagens que revelam as muitas facetas da força, da sensibilidade e da complexidade feminina.
É justamente essa a proposta do novo projeto da atriz. Estreia nesta quinta-feira (12), a série Juntas & Separadas, produção do Globoplay. Com roteiro assinado por Thalita Rebouças e Juliana Araripe e direção geral de Mini Kerti, a produção navega pelas vidas das amigas Laura (Sheron), Ana Lia (Natália Lage), Claudinha (Debora Lamm) e Joana (Luciana Paes), mulheres que estão vivendo ou já vivenciaram colapsos amorosos, familiares e profissionais.
— Quando recebi o convite, tive uma reunião com a Mini Kerti e com a Thalita Rebouças e, antes mesmo de receber os capítulos, eu falei: “ok, topo”. Elas me venderam muito bem a ideia. É bem atual mesmo, é como se eu estivesse sentada numa mesa de bar com as minhas amigas, sabe? O tempo inteiro, com as minhas amigas pessoais — relata Sheron.
Entrevistas
A personagem que interpreta é uma apresentadora de televisão que está passando por um divórcio. Juntas, Laura e as amigas conversam sobre temas que permeiam o conceito de "ser mulher" de forma leve e descontraída.
— Achei que a gente deveria mostrar como mulheres bem resolvidas conversam em mesa de bar também. A gente só fala sobre papo de homem em mesa de bar. E a ideia de ter um papo de mulher, um papo calcinha, assim, na mesa de bar, me interessou muito. A gente fala de sexualidade, de relacionamento, de maternidade, de mudança de carreira, de conexão entre mulheres — afirma.
Em entrevista a Donna, a atriz porto-alegrense fala sobre sua trajetória, o papel da maternidade, com Benjamin, de oito anos, fruto do relacionamento com Saulo Bernard, e a emoção de desfilar como musa da Portela em um enredo dedicado à negritude gaúcha.
Confira a entrevista com Sheron Menezzes
Tu falaste que na série tem bastante coisa sobre sexualidade, maternidade e o papel da carreira na vida da mulher. Esses assuntos ainda são tabus?
Não acho que sejam tabus, mas a gente não tem o hábito de falar. Vamos começar pelo relacionamento: muitas mulheres acham que, quando estão seguras no relacionamento, dá medo de fazer mudanças. E, às vezes, a gente quer falar sobre isso, mas não fala, porque parece que falhou. Tem uma chamada em que o marido fala: “Nosso casamento não pode dar errado”. Um casamento de 20 anos deu certo para caramba, mas às vezes está na hora de dar uma mudada.
Assim como na profissão. Por causa da estabilidade, a gente não tem coragem de mudar. Às vezes acha que não vai ter apoio. Então, quando essas mulheres sentam e conversam, sentem o apoio e passam a ter mais confiança para fazer essas mudanças. Quando digo mudanças, é em todos os âmbitos da vida.
Quando a gente não conversa, não sabe que a colega, a amiga, a prima, seja quem for, passa pelas mesmas dúvidas. Então, a série traz essa importância de verbalizar e trocar com as nossas.
A Laura é uma apresentadora de televisão que está em busca de se conhecer melhor fora dessa persona de figura pública. Esse é um desafio que já fez ou faz parte da tua vida pessoal, de alguma forma?
A grande questão da Laura é que ela se acomodou em um relacionamento quando jovem e focou muito na profissão. Então não deu atenção ao relacionamento: se estava bom, se faltava alguma coisa ou se eles precisavam construir algo diferente. E aí, quando o lado profissional está maravilhoso, ela percebe que precisa mexer na vida pessoal.
Não passei por isso, porque minha vida pessoal sempre foi muito importante. Então, mesmo trabalhando muito, sempre tive cuidado com os meus desejos, meus sonhos, as coisas de que gosto e com as pessoas com quem ando. Comigo, as duas coisas caminham juntas.
Até agora, não tive uma grande quebra na minha vida que me fizesse pensar: “agora preciso fazer algo que deixei adormecido”. Mas nós, mulheres, estamos sempre tentando equilibrar tudo e fazer dar certo, e aí esquecemos de alguma outra coisa. O grande segredo é equilibrar. Não é impossível, mas, às vezes, a gente não sabe como fazer. Na verdade, isso vale para todo mundo.
Comportamento
Tu já fizeste outras séries, mas também muitos papéis marcantes em novelas. Tem alguma personagem que ficou guardada contigo?
A Sol, de Vai na Fé (2023), virou uma extensão de mim, já que foi a minha grande estrela. Mas fiz muitas personagens marcantes, e cada uma foi importante para a construção da minha carreira e da minha Sol.
A Milena, de Caras e Bocas (2009), era daquelas mocinhas de antigamente, que escorriam chorando atrás da porta. Meio Regina Duarte, sabe? Foi interessantíssimo. A Paula, de Babilônia (2015), era uma advogada que trabalhava na questão feminina e negra. Ela sabia de si, da função dela, da vida dela. Foi um aprendizado.
Teve a Berenice, de Lado a Lado (2012), que foi a minha primeira vilã, extremamente engraçada e carismática. Nem sabia que as pessoas podiam gostar tanto de uma vilã assim. A Diara, de Novo Mundo (2017), para mim, foi um momento incrível, porque fiz a novela grávida do início ao fim. A Sarita, de Aquele Beijo (2011), foi minha protagonista, não solo como a Sol, mas tinha embates com a Marília Pêra.
Foram vários personagens que construíram a atriz que sou hoje, porque todo personagem é importante e ensina alguma coisa, se você estiver aberto a ouvi-lo.
São duas décadas de carreira e de personagens marcantes. Sabemos que as mulheres sofrem muita pressão estética, principalmente para não envelhecer. Como é ver o tempo passar estando nas telinhas? Existe uma pressão forte?
Nunca me coloquei nesse lugar. Sempre lidei bem com a minha aparência e com a forma como me vejo. Quando você se sente bem consigo mesma, não tem pressão. Para algumas personagens, as pessoas olham e falam: “Ah, ela aparenta ser mais jovem, vamos por aqui”, ou “Ela aparenta ser mãe de uma menina, como a Sol, mãe de uma jovem de 20 anos”. E eu vou.
O bom da nossa profissão é isso: existe maquiagem, caracterização para fazer a gente aparentar o que quiser. Poderia fazer uma senhorinha? Com caracterização, poderia. Então lido bem com isso.
Como tu enxerga o espaço para atrizes negras na TV atualmente? Agora, em Vai na Fé, por exemplo, tu contracenaste com grandes nomes da nova geração, como Bella Campos e Clara Moneke. Como tem sido essa experiência?
Tive algumas referências. Poucas, porque era uma época em que não havia atrizes pretas em papéis de destaque. Mas as que tive foram muito importantes para mim. Construí o meu caminho querendo, dentro e fora da TV, ser uma ótima referência para as meninas. Então sempre cuidei do que falo, da minha profissão e da minha vida pessoal para que, quando essas meninas me vissem, pudessem se inspirar e ter um bom exemplo.
Dentro e fora da TV, sei que fiz muito bem isso. Muitas crianças me dizem: “Eu queria ser igual a você”. A Clara (Moneke), por exemplo, a gente conversava muito sobre isso e, logo depois de Vai na Fé, ela fez uma protagonista. Ela me falou: “Você foi muito importante para que pudesse construir essa personagem”.
A gente falava muito sobre como ser exemplo, porque a gente tem que ser. Quando uma menina preta te vê na televisão, ela olha e pensa: “Ela é igual a mim, eu posso estar ali”. Ser uma ótima referência é importantíssimo. Fico muito feliz com os retornos que recebo, de mães e das próprias crianças que hoje já são adolescentes e adultas.

Tu achas que abriste caminhos para muitas delas?
Acho que sim. Porque, assim como abriram caminhos para mim, eu só continuei. É como se você pegasse um buraquinho e fosse cavando. Me entregaram a pá e eu continuei cavando, e não vou parar até que vire uma grande cratera. Esse espaço está cada vez aumentando.
As meninas que vêm vindo, como a Clara Moneke e a Bella Campos, continuam cavando também. E que, juntas, possamos fazer uma grande cratera para que todas caibam nesse espaço. Até que não haja mais caminhos a serem abertos e tudo seja apenas uma coisa só.
É muito difícil não aproveitar para falar de Carnaval. Tu és musa da Portela há 15 anos e, neste ano, a escola apresentou um enredo sobre a negritude no Rio Grande do Sul. Como foi, para ti, gaúcha, participar desse momento e representar teu Estado?
Todo Carnaval, todo enredo fala da gente. Não da gente sulista, mas da nossa negritude, das nossas raízes. Então todo ano é especial, porque a gente vai a algum lugar da nossa ancestralidade para falar sobre isso. Mas, neste ano, falar das minhas raízes sulistas foi muito importante. Eu cresci num terreiro, a mãe da minha mãe era mãe de santo. Depois ela não foi mais, mas cresci no batuque, que foi o que a gente trouxe no enredo. Estava falando de mim ali, da minha essência, da minha infância.
Eu vim representando, inclusive, como destaque da escola na frente do primeiro carro, representando a beleza oculta, aquela beleza que as pessoas não veem. E por que elas não veem? Porque elas acham que não existe preto no Rio Grande do Sul, que não existe a religião. Eu vim representando exatamente isso: como somos muitos e lindos.
O Rio Grande do Sul é um dos Estados, se não me engano, com o maior número de terreiros no Brasil. E as pessoas não sabem disso, não sei por quê. Mas a gente precisava mostrar isso, e foi mostrado. Muita gente veio falar comigo depois para dizer que não sabia disso, ou da história do Negrinho do Pastoreio, ou do Príncipe Custódio, ou que havia tantos terreiros. É muito importante mostrar isso na avenida do Carnaval do Rio de Janeiro, que é um lugar em que todo mundo está de olho. É importante porque é minha ancestralidade.
Fora do Estado, muitas pessoas têm a ideia de que não existe uma população negra no Rio Grande do Sul. Tu chegaste a conviver com isso na tua carreira, construída no Sudeste, de ter que te afirmar como uma mulher negra gaúcha?
As pessoas acham que não sou do Sul. Elas não sabem. Também não acham que sou carioca, mas não sabem muito bem de onde sou, porque o meu sotaque é muito misturado. Tenho que explicar que sou de Porto Alegre e sempre tem aquela cara de surpresa.
Aí explico que já fui primeira princesa do Garota Verão de Porto Alegre. Isso, para mim, é revolucionário. Ter uma garota negra nesse concurso em 2000, em Porto Alegre, era algo que não acontecia.
Às vezes é um pouco chato ter que explicar tudo isso, mas acho que hoje as pessoas já têm uma cabeça um pouco mais aberta. Acho que quem faz esse tipo de pergunta é porque não quis estudar, não quis prestar atenção ou não faz questão. E aí também não tem como ensinar, não dá para ficar ensinando as pessoas o tempo todo. Já deu.
Entre todas as tuas versões, tem a Sheron mãe. O que tu descobriste sobre ti mesma depois de ter virado mãe?
Antes, a Sheron era aquela mulher que saía para trabalhar e queria dar o melhor de si no trabalho, para que todo mundo visse a ótima profissional que ela é. Hoje, a Sheron sai para trabalhar, faz um bom trabalho, mas gosta e prefere voltar para casa para dar tudo de si na maternidade e mostrar para o filho a ótima mãe que ela tenta ser.
A minha maior preocupação é ele. Eu amo o meu trabalho, mas não troco a minha vida, a minha maternidade, pelo trabalho. Depois do Benjamin, eu descobri que é possível amar mais do que a gente imaginava a cada dia. Voltar para casa é a melhor parte do meu dia.
E as outras Sherons? Em que momento tu achas que estás agora, seja na carreira ou na vida pessoal?
Não sei se a palavra plenitude existe nessa profissão. Mas acho que corri tanto atrás de tantas coisas na minha vida que, hoje, tenho tudo o que sonhei. Acho que estou na fase de colher os frutos de tudo o que plantei. E são frutos muito, muito doces.
Isso é algo que a maternidade também me deu: saber aproveitar. Porque vivemos muito no futuro, pensando no que vai ser, e não aproveitamos o que temos. A maternidade faz você chegar em casa depois de um dia longo e perceber que o presente é aquele abraço gostoso, aquele “mamãe”.
Às vezes chego em casa e ele diz para assistirmos a alguma coisa na televisão enquanto eu faço as tranças. Eu não abro mão disso, de aproveitar cada minutinho.












