
No vasto e por vezes impessoal oceano das redes sociais, uma iniciativa local tem servido como porto seguro e fonte de inspiração feminina. Através da campanha A Dona da Virada, lançada neste mês como extensão do projeto A Hora da Virada, da jornalista Duda Streb, mulheres com diferentes trajetórias têm compartilhado como enfrentaram obstáculos e retomaram o controle de seus destinos, a fim de incentivar quem possa estar vivenciando situações parecidas.
A gênese do projeto data de mais de 10 anos, quando Duda teve a sua primeira "virada": trocou a segurança de uma carreira consolidada no jornalismo esportivo pelo caminho incerto do empreendedorismo, em busca de ter mais tempo para a maternidade.
— Eu me vi dividida entre ser profissional e ser mãe. Cada viagem que eu fazia para alguma cobertura esportiva, por mais incrível que fosse, eu tinha que deixar a Luíza. Isso começou a machucar meu coração mais do que me alegrar — lembra a jornalista de 53 anos.
— Eu tinha uma estrada no jornalismo, mas pensava que queria ser mãe. Eu não queria terceirizar a educação da minha filha — resume.
A decisão originou, inicialmente, a palestra A Hora da Virada, que acabou por se tornar um projeto multiplataforma, com linha de produtos e uma série de ações voltadas a inspirar a coragem necessária para tomar as rédeas da própria vida.
A iniciativa ganhou novos contornos em novembro de 2021, quando a jornalista descobriu um câncer de mama e passou a usar suas redes sociais pessoais, bem como as do projeto, de uma forma mais íntima, compartilhando a luta contra a doença.
— Comecei a mostrar uma Duda "real", não somente a imagem impecável que as pessoas conheciam da televisão. Dividi detalhes da minha mastectomia, as dificuldades da quimioterapia e toda a minha superação. Com isso, acabei criando uma rede de apoio mútua com outras mulheres — conta ela.

Da dor à rede de apoio
A partir disso, a relação com o público estreitou. Na comunidade A Virada das Viradas, um perfil do Instagram fechado só para mulheres, a jornalista passou a ter trocas pessoais com as seguidoras, repartindo os desafios e aprendizados de suas "viradas".
A última, uma experiência conturbada dentro de um relacionamento, foi o que inspirou a campanha A Dona da Virada.
— Eu enfrentei uma violência patrimonial e emocional muito forte, que me tirou o chão, mas da qual eu consegui me desvencilhar. E aí eu resolvi fazer como fiz com o câncer: transformei a dor em amor — revela Duda, que convidou seguidoras a também compartilharem as suas "viradas", incluindo a superação de relacionamentos tóxicos.
Entrevistas
— Para mostrar que nós somos as donas da nossa história e da nossa vida. Ninguém pode controlar a nossa liberdade — diz.
Em depoimentos que vêm sendo publicados ao longo deste mês nos perfis da jornalista — que, juntos, reúnem em torno de 165 mil seguidores —, mulheres anônimas narram como deram a volta por cima diante de problemas diversos, como relações abusivas, lutos, crises financeiras e diagnósticos de saúde.
Vida após o diagnóstico
Entre as participantes está a cabeleireira Daniele Pipoli, 45 anos, que teve seu caminho unido ao de Duda pelo diagnóstico comum de câncer de mama. Ela descobriu a doença em 2024 e encontrou na jornalista, que já havia vencido o câncer, uma espécie de referência frente aos desafios que precisaria encarar.
— Esse apoio foi fundamental para moldar o meu posicionamento diante da doença. Decidi não tratar o câncer como um karma, mas como um diagnóstico que faria parte de uma etapa da minha vida e que exigiria de mim uma atitude positiva para ser superado. Tomei as rédeas da situação, não deixei a doença me definir — afirma.
Isso não significa que o caminho até a cura tenha sido fácil. A etapa mais desafiadora para a cabeleireira foi, justamente, a perda dos cabelos.
— Eu vendo autoestima todos os dias para as minhas clientes e, de uma hora para a outra, precisei lidar com essa situação de ficar careca. Foi complicado em um primeiro momento, mas eu decidi encarar como uma parte do meu processo de cura — lembra.

Ainda com os fios curtos, ela celebra a descoberta da própria força pessoal. E planeja fazer da sua história um exemplo de que é possível passar pelo câncer sem sucumbir a ele.
— Hoje, curada, sinto que tenho o poder de escolher quem eu quero ser. Ingressei no projeto A Dona da Virada para compartilhar que a cura é possível e que a vida após o diagnóstico existe e é plena. Para mim, ser "dona da virada" é não se curvar aos problemas e assumir a autoridade sobre a própria vida — reflete.
Recomeços possíveis
A resiliência também é a marca de Patrícia Tagliani, 50 anos, participante do projeto que define a própria trajetória como "um mosaico de viradas".
Após um divórcio conturbado e o luto pela morte inesperada de um irmão, a empresária precisou encontrar forças para seguir a vida ao lado da filha, à época com três anos. Depois, ingressou em outra relação e engravidou novamente. Contudo, com o passar do tempo, o relacionamento acabou se tornando complicado.
Patrícia enfrentou uma nova separação — em meio a isso, ainda lidou com o falecimento do pai — e "aceitou" que o amor já não faria parte da sua vida. Há quatro anos, porém, ela conheceu o atual marido e voltou a acreditar na possibilidade da felicidade a dois.
— Em agosto de 2024, aos 48 anos, eu realizei o sonho de casar vestida de noiva. Foi um momento muito lindo para nós. Eu estava plena, feliz, realizada — conta.

Com o incentivo do companheiro, Patrícia deu início a mais uma "virada": tirou do papel o sonho antigo de empreender no ramo da moda e lançou a própria marca de roupas autorais, focada na produção de peças em linho e outros tecidos nobres.
Tudo parecia ir bem quando, durante exames de rotina, a empresária descobriu um câncer de mama.
— Meu chão se abriu. Interrompi o meu projeto profissional para me entregar totalmente ao tratamento. Após uma cirurgia e o ciclo de radioterapia, finalizado em outubro, comecei a redesenhar o sonho de colocar a marca Patrícia Tagliani no mercado — narra, refletindo que sua última "virada" ainda está acontecendo.
— Estou fazendo hormonioterapia e, no fim do mês, recém terei a minha primeira consulta pós-tratamento. Mas estou focada em vencer mais esse desafio e me dedicar ao meu trabalho, que é o meu projeto de vida. Sempre é possível recomeçar, porque somos mais fortes do que imaginamos — diz.
Coragem que se multiplica
O sonho de empreender também move a doceira Patrícia Nunes, 40 anos. Mãe solo, ela teve sua primeira "virada" quando decidiu deixar o trabalho como vendedora em uma loja de shopping para abrir o próprio negócio. Começou vendendo quindins de porta em porta até fundar a Quindinlândia, hoje consolidada no mercado da Capital.
— Às vezes, a gente não dá importância para os nossos talentos. Eu nunca fui confeiteira; só o que eu sabia era fazer quindins. E usei esse talento para mudar a minha realidade — reflete.
Ao longo da última década, porém, ela viu sua doceria andar sobre os trilhos uma montanha-russa. A demanda da empresa cresceu nos primeiros anos, e ela contratou empréstimos para ampliar a capacidade de produção e inaugurar uma loja física.
Entretanto, o empreendimento foi impactado pela enchente de 2024, e a empresária acabou quebrando.

Em meio ao momento profissional conturbado, Patrícia ainda enfrentou uma lesão que a deixou impossibilitada de continuar preparando os doces, que garantiam o sustento dela e das duas filhas. Ao mesmo tempo, passou por uma depressão e o término de um relacionamento tóxico:
— Foi um período muito difícil, em que eu realmente me vi sem saída. Achei que o meu sonho tinha acabado.
A luz no fim do túnel veio em agosto do ano passado, quando Patrícia foi convidada para montar uma loja no Acampamento Farroupilha, no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho. A princípio, a Quindinlândia ficaria no local apenas durante os festejos, mas a doceria acabou inaugurando uma loja fixa no parque, que agora funciona durante todo o ano.
— Esse espaço está me ajudando a me reerguer financeiramente e a pagar as dívidas do fechamento anterior. Meus problemas não desapareceram, mas estou no meio do processo de reconstrução e me sentindo cada vez melhor — diz ela.
Movimento que continua
Celebrando o início de mais uma "virada", a empreendedora pretende fazer da própria história um motor de incentivo para outras mulheres. A participação no projeto de Duda Streb é o primeiro passo.
— Quero conseguir usar as redes sociais para passar essas mensagens, mas tenho muita dificuldade de me comunicar. Quando começo a falar da minha história, começo a chorar. Gravar para A Dona da Virada foi um desafio por conta disso, mas a Duda está me ajudando a superar essa barreira — detalha Patrícia Nunes.

Conforme Duda Streb, o movimento iniciado neste mês não deve parar quando o calendário virar. Diante da repercussão, a jornalista pretende ampliar a campanha para dar voz a cada vez mais mulheres.
— Eu recebo diariamente mensagens de mulheres que dizem que queriam ter a minha coragem. Mas elas têm, só não sabem. A marca A Hora da Virada tomou uma proporção que eu nunca imaginei, porque nasceu do meu coração. Hoje, sinto que posso ajudar a ressignificar a vida de outras mulheres — reflete a jornalista.










