
Para Alice Carvalho, viver um momento histórico do cinema brasileiro tem sido intenso e simbólico. Parte do elenco de O Agente Secreto, indicado em quatro categorias do Oscar 2026, a atriz de 29 anos celebra a repercussão do filme que reafirma a força do audiovisual nacional.
— É uma vitória que não é individual, é um ganho do cinema brasileiro como um todo, que inspira o futuro da nossa lida e me faz sonhar com mais fomento e mais espaço para filmes autorais na nossa indústria — comemora a também roteirista e escritora sobre o reconhecimento de O Agente Secreto nas premiações e nos festivais em que foi exibido.
Na história escrita e dirigida por Kleber Mendonça Filho, Alice interpreta Fátima, uma professora universitária e esposa de Marcelo, personagem de Wagner Moura. Embora sua participação seja breve, a personagem permanece no imaginário da narrativa, construída a partir do olhar dos outros – inclusive em torno da provocação "raparigou ou não raparigou" –, o que reforça sua presença simbólica ao longo da trama.
A potiguar contou que recebeu o convite para integrar o elenco de última hora, enquanto ainda estava envolvida nas gravações da novela Renascer (2024). Mesmo assim, não hesitou em aceitar o papel. Em entrevista ao Fantástico, Kleber Mendonça Filho explicou que Fátima teria poucos minutos em cena, mas exigia uma atriz à altura da força dramática da personagem. E sabia que Alice daria conta.
“Eu não fiz um teste, mas fiz um pedido a Exu: contar boas histórias e ser feliz. Exu é cara, coroa e coragem, meu companheiro (...) Tem que ser sabido e tem que ter muitos amigos. Para esse filme é nítido que Kleber tem os dois”, escreveu Alice em um post no Instagram na época do lançamento de O Agente Secreto, em 2025.
A arte como liberdade
Nascida em Natal, no Rio Grande do Norte, Alice esteve em contato com a arte desde cedo: começou no teatro como uma maneira terapêutica de lidar com a hiperatividade e, ao longo da adolescência, entre testes e rejeições, decidiu criar suas próprias histórias. Assim, surgiu a websérie Septo (2016), criada ao lado de outros roteiristas e amigos potiguares.
— O teatro foi meu primeiro lar artístico. Sempre foi um espaço de expressão muito importante para mim. Desde cedo, percebi que contar histórias tinha algo de curativo, de libertador. Essa conexão com as pessoas e com as narrativas foi o que me levou a seguir esse caminho — destaca.
A produção ganhou três temporadas e, impulsionada pela visibilidade da internet, a carreira de Alice começou, aos poucos, a deslanchar. A atriz participou da série Segunda Chamada (2019), da TV Globo, protagonizou o curta-metragem Bege Euforia (2022), integrou o elenco do longa Ângela (2023), e estrelou o clipe A Vida é Curta Demais Pra Viver Depois, da banda BaianaSystem.
Desde cedo, percebi que contar histórias tinha algo de curativo, de libertador. Essa conexão com as pessoas e com as narrativas foi o que me levou a seguir esse caminho.
ALICE CARVALHO
Atriz e roteirista
A virada de chave veio em 2023, quando assumiu um dos papéis centrais em Cangaço Novo, do Prime Video – que teve o primeiro capítulo exibido no Festival de Cinema de Gramado de 2023. Ao lado de Allan Souza Lima e Thainá Duarte, seus irmãos na trama, ela interpreta Dinorah Vaqueiro, descendente do famoso cangaceiro Amando Vaqueiro, e comanda um grupo de cangaço que leva o legado de seu pai adiante. O sucesso da série foi tanto que garantiu uma segunda temporada, confirmada para 2026.
Ainda tendo o cangaço como pano de fundo, a atriz também estrelou Guerreiros do Sol (2025), trama ambientada no sertão nordestino entre as décadas de 1920 e 1930, livremente inspirada nas histórias de Lampião e Maria Bonita. Na novela, produzida e disponível no Globoplay, ela interpreta Otília, irmã da protagonista Rosa, vivida por Isadora Cruz. A personagem de Alice forma casal com Jânia, papel de Alinne Moraes, ampliando a representatividade feminina e LGBT+ no audiovisual brasileiro.
A inquietude criativa também transborda para a escrita de roteiros de séries e peças. Alice também já lançou três livros: Do amor e algumas crônicas, mas não estão todas aqui no subtítulo, senão o subtítulo ficaria enorme e cafona (2015), A princesa empoderou (2018) e Inkubus (2024).
Planos para 2026
Além do Oscar, que ocorre no dia 15 de março, a agenda de Alice Carvalho já tem outro compromisso: interpretar nos cinemas a trajetória de Marta Vieira da Silva, considerada a maior jogadora de futebol da história.
“A mesma camisa, o mesmo sonho de vencer e muito afeto. Dividir a minha história com a Alice Carvalho no cinema é cuidado, escuta e verdade. Porque trajetórias seguem potentes quando contadas com o coração”, escreveu Marta, em dezembro passado, em uma publicação compartilhada com a atriz potiguar.
“Minha irmã, parceira e rainha! Já com muita saudade! Que libertador poder finalmente contar nosso segredo”, comentou Alice.
A cinebiografia será dirigida por Andrucha Waddington, com roteiro de Elena Soarez, produção da Conspiração Filmes e coprodução da Globo Filmes e da TV Globo.
Em entrevista a Donna, Alice fala sobre a construção de Fátima em O Agente Secreto, a importância de dar vida a personagens nordestinos no audiovisual e seus planos para 2026.
Confira a entrevista com Alice Carvalho
Como tem sido viver esse momento histórico no cinema brasileiro com O Agente Secreto?
Tem sido muito intenso e emocionante. Participar de um projeto dirigido pelo Kleber, ao lado do Wagner, de um elenco tão potente, com uma equipe técnica e criativa tão entrosada, e que conquistou espaço internacional e o reconhecimento do público e da crítica, é um sonho.
O momento da indicação ao Oscar teve algo de especial? Como foi?
Foi extremamente simbólico. Ver um filme tão brasileiro, tão nosso, sendo indicado em categorias tão importantes, dá um orgulho imenso. A indicação representa o trabalho coletivo e reafirma que o cinema feito aqui tem voz e força no mundo.
Fátima tem um papel pontual em O Agente Secreto. Como foi o processo de construção dessa personagem e quais camadas você considera essenciais nela?
Fátima é uma das grandes personagens femininas da nossa história, uma presença-ausente (ou ausência presente) de intensidade muito grande. A construção passou muito pelos silêncios, pelos olhares, pelas imagens e pela forma como ela ocupa o espaço. São nesses detalhes que as camadas mais profundas dela aparecem em cena.
O que esse filme significa para você, enquanto atriz nordestina, dentro da indústria audiovisual?
Significa pertencimento. É muito forte ver um projeto que respira a nossa cultura alcançar tanta gente, ser celebrado e convidar o mundo a olhar para o Brasil com outra perspectiva. É uma reafirmação da potência do que é feito por nós.
Em Guerreiros do Sol, Otília é o par romântico de Jânia. Você acha que a obra contribui para ampliar a representação feminina e LGBT+ na dramaturgia brasileira?
Com certeza. Mostrar uma relação entre mulheres com naturalidade, sem caricatura, é fundamental. Representações que existem na vida real ajudam a ampliar diálogos e a fortalecer identidades que historicamente ficaram à margem das grandes narrativas.
Você tem interpretado personagens nordestinas em produções de grande visibilidade. Como enxerga a responsabilidade e a potência desse lugar?
Encaro como um compromisso de honrar nossas histórias, ancestralidades e estéticas. É um lugar potente porque carrega verdade, vida e resistência e porque também abre caminhos para que outras vozes sejam ouvidas.
Como mulher, que conversas você acredita que ainda precisam ser ampliadas dentro do audiovisual?
Ainda precisamos avançar muito na inclusão real dentro das equipes criativas e na forma como as mulheres são retratadas, com complexidade, contradição e profundidade. É urgente ampliar conversas sobre raça, gênero, classe e sexualidade sem estereótipos, com mais escuta e protagonismo.
Como você percebe seu amadurecimento como artista e como mulher nos últimos anos?
Tenho aprendido a confiar mais nas minhas escolhas e na minha voz. Cada personagem me atravessa de alguma forma e me ensina sobre vulnerabilidade, resistência e autenticidade, dentro e fora das câmeras.
Em meio a uma rotina intensa de gravações, quais práticas de autocuidado são indispensáveis para você?
Descansar, estar perto de quem eu amo, cuidar do meu corpo e da minha espiritualidade. Também preciso de tempo para ler, caminhar e respirar.
Você é bastante ativa nas redes sociais, especialmente no X (antigo Twitter). Como é esse contato com o público e como lida com comentários negativos?
A troca com o público é algo que valorizo muito. Gosto de dialogar e compartilhar. Os comentários negativos fazem parte da dinâmica de ser uma pessoa pública, não vejo com pesar.
Quais são seus planos para 2026 e o que deseja conquistar na carreira?
Vejo 2026 como um ano de expansão. Quero seguir explorando papéis que me desafiem, como será com Marta e outros que estão por vir. Ano de estreia de Cangaço Novo, que é um projeto que tenho muita felicidade e orgulho de ter feito parte. Pretendo me juntar sempre com artistas e diretores que me instiguem e continuar construindo histórias que façam sentido.
Para finalizar, como você definiria quem é Alice Carvalho hoje?
Essa resposta tá sempre em aberto.
