
Ao atender o telefone e ouvir o “tudo bem?” da repórter, Arlete Salles não escondeu a satisfação com o bom momento que vive. No ar em Três Graças como a personagem Josefa, a atriz fala entusiasmada da possibilidade de seguir em cena aos 87 anos.
— Estou bem, de pé, trabalhando e exercendo com muito prazer o ofício que tanto amo. A novela está seguindo um caminho bonito e sendo bem aceita pelos telespectadores. Estou muito feliz.
Referência incontornável da dramaturgia brasileira, Arlete construiu uma trajetória marcada pela versatilidade e humor que se tornaram sua assinatura. Do teatro à televisão, atravessou décadas interpretando mulheres fortes, cômicas, contraditórias e humanas.
O papel em Três Graças surge como mais uma personagem engraçada e igualmente carregada de densidade emocional. Submetida à rotina de sofrimento psicológico imposta pela filha – a vilã Arminda, vivida por Grazi Massafera –, Josefa exige de Arlete uma composição que transita entre o humor, a ironia e a tristeza.
Já sofri muito com a opinião das pessoas. Hoje, já não me importo mais. Essa é uma coisa boa do envelhecimento: não tenho tempo para ficar me importando com o que os outros falam.
ARLETE SALLES
Atriz
O resultado tem divertido e emocionado espectadores de diferentes faixas etárias, confirmando que a experiência e a maturidade artística nunca saem de moda.
— Tem sido uma alegria sentir o carinho do público a essa altura da minha carreira — conta.

Em entrevista a Donna, Arlete repercute o sucesso de Josefa e relembra desafios profissionais recentes – como Família é Tudo, novela na qual viveu gêmeas. Com franqueza e delicadeza, ela ainda comenta o etarismo na televisão, manifesta a intenção de diminuir o ritmo de trabalho e fala da relação afetiva que mantém com o ofício que a acompanha desde sempre.
A atriz também abre espaço para reflexões íntimas: o envelhecimento longe de idealizações, os cuidados com a saúde, o novo olhar sobre os amores do passado e a liberdade de não mais ligar para o julgamento alheio.
Entre memórias e confissões, Arlete Salles reafirma que envelhecer, embora desafiador, pode ser também território de lucidez, trabalho e felicidade plena.
Leia a entrevista com Arlete Salles
Você está no ar em Três Graças com a Dona Josefa, que passa por maus bocados nas mãos da vilã de Grazi Massafera. Como tem sido dar vida a essa personagem?
Não é uma personagem fácil porque optei por fazer uma composição física diferente para ela. Embora a Josefa possa ter a mesma idade que eu, ou até ser mais jovem, ela é mais velha fisicamente. Josefa é uma mulher sofrida. Ela vive sob a ameaça da filha, que diz que vai colocá-la em um asilo e tenta, inclusive, contra a vida dela; então, é uma pressão psicológica muito forte.
Eu fiz uma composição que representasse essa condição em que ela vive: tem um ombrinho mais caído, caminha com mais dificuldade, faz certo sacrifício para levantar. Às vezes, termino o dia cansada por ter que manter esse registro físico. Ao mesmo tempo, a personalidade dela me encanta.
Esse trabalho vem um ano depois de Família é Tudo, na qual você encarou o desafio de viver personagens duplas.
Família é Tudo foi mesmo um grande desafio e um trabalho exaustivo. Interpretar duas personagens simultaneamente exige muito, você precisa trocar de figurino e cabelo o tempo todo. Como as gravações ocorriam em um estúdio muito grande da Globo, as caminhadas entre o camarim e o local de cena eram longas, o que me cansava bastante. Mas valeu a pena.

O que levou você a aceitar o trabalho em Três Graças pouco tempo depois desse desafio?
O primeiro encanto foi o nome da personagem: Josefa, que era o nome da minha avó. É uma lembrança doce e poética da minha infância. Quando o papel chegou, senti que não poderia dizer não, pois seria como dizer não à minha avó, recusar uma oportunidade de homenageá-la.
Aceitei também pelo carinho que tenho pelo diretor Luís Henrique Rios e pelo autor Aguinaldo Silva, com quem não trabalhava há muito tempo. Mas, sendo muito sincera, minhas expectativas eram baixas. Achei que seria só mais uma personagem, alguém que ficaria em um cantinho fazendo crochê – inclusive, fiz umas aulas de crochê por causa dela. No entanto, fui descobrindo a alma dessa mulher: forte, corajosa e cheia de vida, apesar de seus problemas.
A personagem tem tido uma recepção calorosa do público. Como você encara esse reconhecimento nesta etapa da carreira?
Os comentários que tenho recebido são, talvez, os melhores de toda a minha trajetória na teledramaturgia. Esse afago do público é muito gratificante e me surpreendeu. No início, achei que ela poderia gerar alguma identificação nos idosos, mas até as crianças estão gostando da personagem.
Como atriz, eu trabalho para que o público goste. É claro que nem sempre vou acertar, mas a intenção é sempre agradar o espectador, buscar o aplauso, tocar o coração de quem me assiste. É bobagem dizer que não, porque nós dependemos da opinião do nosso público. Então, esse reconhecimento é um sopro de renovação na minha carreira.
O que você diria que foi crucial na sua trajetória para chegar até esse momento de vida, mantendo uma carreira tão longeva e bem-sucedida?
Primeiro, trabalho, trabalho e trabalho. E uma busca incessante por ser melhor. Nunca estou totalmente satisfeita com o que faço, sempre acho que posso fazer melhor e vejo cada papel como uma oportunidade de melhorar.
Também acabei me identificando muito com o humor, porque sou uma pessoa bem-humorada. Gosto de levar a vida com leveza e isso me ajudou. Nunca fui de ficar me queixando e dando atenção para as coisas ruins. Prefiro valorizar as coisas boas.
A felicidade não está em um casamento ou em um namoro; a felicidade está dentro da gente. Porém, até eu entender isso, já estava velha.
ARLETE SALLES
Atriz
Recentemente, foi lançada uma campanha por meio da qual atores veteranos reivindicam mais espaço na TV. Como você enxerga esse cenário e como se sente por continuar na ativa aos 87 anos?
Eu realmente não tenho essa queixa, mas sei que as oportunidades são menores para os artistas mais velhos. Não é um fenômeno que se restringe ao Brasil. Até porque a dramaturgia ainda está muito ligada aos ímpetos da juventude. É na mocidade que você se apaixona e desapaixona, tem inquietações, age impulsivamente... tudo o que é trabalhado na dramaturgia. Você não vê histórias que retratam o universo dos idosos, por isso, temos menos chances de trabalho.
Apesar de não me atingir diretamente, eu me preocupo, sim, porque começo a lembrar de colegas que não vejo há tempos, não sei como estão ou do que estão vivendo. Fico feliz por ser esse ponto fora da curva e continuar produtiva, exercendo o meu ofício. Às vezes até penso que está na hora de diminuir o ritmo.
Está cogitando se aposentar?
Das novelas, talvez. Não vou dizer que estou dando adeus, porque daqui um tempo pode aparecer um convite irrecusável, mas pretendo diminuir bastante. Novela tornou-se um gênero muito trabalhoso, e acaba sendo exaustivo ficar do início ao fim. Então, posso aceitar um convite, conversando com os diretores e alinhando as condições de trabalho. Mas não vou deixar de fazer teatro. Enquanto tiver saúde, boa audição e boa memória, quero continuar realizando o meu ofício.

Você costuma dizer que envelhecer, apesar de trazer aprendizados, envolve também sofrimentos. Como equilibra as dores e as delícias do envelhecimento?
Envelhecer é muito difícil. Não é uma coisa simples, porque você enfrenta muitas dificuldades, principalmente físicas. Mas, no plano emocional, envelhecer me fez muito bem. Sinto que a velhice me trouxe paz. Aquela inquietação típica de geminiana que tinha, silenciou, e agora consigo usufruir melhor do que a vida oferece. Tenho dias difíceis, dias em que as pernas doem mais, que a saúde não está tão boa, mas vou seguindo e me cuidando. Sou corajosa, igual a Josefa (risos).
Como você cuida da saúde?
Tenho um clínico geral maravilhoso, e tudo o que ele me diz para fazer, eu faço. Não para ficar mais jovem, mas para ter saúde. Mas se pudesse ficar mais jovem, adoraria também (risos). Procuro ter uma alimentação saudável e faço exercícios, sempre respeitando os meus limites.
Gosto muito de caminhar. A caminhada é uma atividade democrática e excelente para os idosos, pois faz bem para o corpo e a mente. Também gosto de fazer agachamentos. É algo que podemos fazer em casa, somente com o auxílio de uma cadeira, e que traz força e equilíbrio para as nossas pernas. O importante é se manter ativo. Você, que é idoso, movimente-se também. A vida é maravilhosa e a gente precisa aproveitá-la da melhor forma até o fim.
Gosto de levar a vida com leveza e isso me ajudou. Nunca fui de ficar me queixando e dando atenção para as coisas ruins. Prefiro valorizar as coisas boas.
ARLETE SALLES
Atriz
A sua trajetória pessoal foi marcada por romances acompanhados de perto pelo público, como os casamentos com Lúcio Mauro e Tony Tornado.
Sobre o Tony, quero esclarecer que não fomos casados. Sei que ele anda falando que nós fomos casados por sete anos, mas o que tivemos foi um namoro de menos de um ano. Antes de completar um ano, ele já tinha ido embora. Não sei onde ele foi buscar esses sete anos. Com o Lúcio Mauro, eu fui casada, e ainda tive outros dois casamentos. Fui casando, né!? Fui buscando ser feliz.
Só que a felicidade não está em um casamento ou em um namoro; a felicidade está dentro da gente. Porém, até eu entender isso, já estava velha. Como eu nunca tive o "dedo" muito bom, agora encerrei totalmente.

Então, não está aberta para um novo amor?
Quem estiver com a minha idade e quiser namorar, eu aplaudo e acho bacana, mas não sinto mais essa vontade. Acho bem improvável que ainda me relacione com alguém romanticamente. Como a vida é um hóspede inesperado, não vou dizer que é impossível, mas acho improvável. Acho que vai ficar para a próxima encarnação (risos).
Alguns dos seus relacionamentos públicos ocorreram em uma época na qual as mulheres eram muito julgadas. Isso afetava você de alguma forma?
Já sofri muito com a opinião das pessoas, vivi momentos terríveis, mas tudo isso passou. Hoje, já não me importo mais. Essa é uma coisa boa do envelhecimento: não tenho tempo para ficar me importando com o que os outros falam. Não entro em rede social, até porque não sei mexer, e dou valor somente ao que importa: o meu trabalho e a minha família.
Estamos iniciando um novo ano. O que você espera dele?
A novela vai até a primeira quinzena de maio. Depois desse percurso tão longo de trabalho, espero dar uma descansada e aproveitar a minha casa e a minha família. Há um projeto de teatro em vista, um monólogo bem interessante, mas ainda preciso pensar. Primeiro, vou focar em descansar. Acho que mereço, né!?



