
A ideia de que mulheres podem ocupar qualquer espaço no esporte já está posta, mas, na prática, ainda há barreiras a serem superadas. Em um ambiente historicamente masculino, as ultramaratonas têm recebido, pouco a pouco, mais competidoras dispostas a enfrentar desafios extremos e a testar os próprios limites. Nesse movimento, três gaúchas ajudam a fortalecer a presença feminina nas corridas de longa distância.
Cada vez mais populares, as ultramaratonas são corridas a pé com distâncias superiores aos 42,195 quilômetros de uma maratona. Os percursos podem ter quilometragem fixa, como 50, 160 ou até 500 quilômetros, ou duração pré-definida.
No Brasil, existem competições em diferentes tipos de terreno, como asfalto e pista – a exemplo da 1000KM Brasil, em Minas Gerais –, além de provas em trilhas, montanhas e até na areia. É o caso da Extremo Sul, que desafia os atletas a completar 226 quilômetros entre o Chuí e a Praia do Cassino, no Rio Grande do Sul, em até 52 horas.
Os dados confirmam que, apesar do crescimento no número de competidoras, o cenário ainda é majoritariamente masculino. A Ultra BM, em São Paulo, por exemplo, contou com 304 mulheres e 985 homens inscritos em 2025. No ano passado, participaram 235 mulheres e 745 homens. Já na Extremo Sul, que ocorre anualmente, o número de atletas do sexo feminino inscritas passou de seis, em 2024, para 21 em 2025, enquanto entre os homens o total foi de 36 no ano passado e de 57 neste ano.
— Vejo uma força enorme nas ultramaratonistas. Muitos homens que correram a Extremo Sul ficaram impressionados com a força que as mulheres que participaram têm. Mas o número de participantes é pequeno, até em outras ultramaratonas. Acho que é porque a grande maioria tem filhos, casa e uma rotina difícil. Admiro demais as mulheres que correm porque nós temos que abdicar de algumas coisas para treinar e para ter resultado — afirma a ultramaratonista gaúcha Cledi Lunardi, 35.
Natural de São Martinho, na Região das Missões, Cledi começou a correr em 2014, praticando atletismo e corridas rústicas. Em 2017, a jovem professora participou das primeiras provas de meia-maratona, maratona e ultramaratona. De lá para cá, a atleta passou a se aventurar em distâncias cada vez mais longas.
Vejo, nas provas que faço, que é muito raro as mulheres desistirem. Elas têm que se lesionar, se machucar feio, para abandonar. E, mesmo assim, tentam retornar para o desafio.
CLEDI LUNARDI
Ultramaratonista vice-campeã da Extremo Sul 2025
Em 2025, participou da Extremo Sul pela sexta vez e conquistou o segundo lugar geral ao completar os 226 quilômetros em 35 horas e 25 minutos, apenas 12 minutos atrás da campeã.
No mesmo ano, também competiu pela primeira vez na 1000KM Brasil. A atleta treina para o evento, considerado a maior ultramaratona da América do Sul, há cinco anos. Ela não conseguiu concluir a prova devido a dores nos pés e encerrou o desafio na marca dos 688 quilômetros, a maior distância que já percorreu. Para ela, a parte mais desafiadora das corridas longas é o aspecto mental:
— O que me chamou atenção foi como reagi com o mental. Pesquiso muito sobre isso, sobre como pensar positivo pode ajudar a superar esses desafios. A mulher tem uma força mental incrível. Eu vejo, nas provas que faço, que é muito raro as mulheres desistirem. Elas têm que se lesionar, se machucar feio, para abandonar. E, mesmo assim, tentam retornar para o desafio. Ano que vem a minha intenção é voltar para completar esses mil quilômetros.
Falta de segurança e rotina puxada são obstáculos para as ultramaratonistas
Para participar de ultramaratonas, não basta apenas se inscrever. Em geral, as organizações exigem que o atleta comprove experiência prévia em corridas de longa distância por meio de um currículo esportivo, que funciona como uma espécie de portfólio. Nele, devem constar participações em provas de diferentes quilometragens, demonstrando progressão e preparo antes de pleitear desafios mais longos. Além disso, costuma ser obrigatória a apresentação de atestado médico, exames recentes e outros documentos que atestem boas condições de saúde.
Cledi conta com o apoio de um treinador físico especializado em ultramaratonas, Arthur Moraes Costa. O profissional de educação física explica que, como os atletas não são corredores profissionais, os treinos costumam ser conciliáveis com outras atividades, como o trabalho e o cuidado com a família, por exemplo. A planilha de corrida prevê quilometragens mais leves durante a semana e treinos mais longos, de oito ou até 12 horas, aos fins de semana.
Na hora de montar os treinos para as mulheres, o preparador físico precisa levar em consideração alguns aspectos que não afetam os homens da mesma forma:
— Além de, culturalmente, a gente ter essa questão de que a mulher tem uma jornada dupla ou tripla de trabalho, existe a questão de que, dependendo do horário que ela vai treinar, pode ser perigoso. Muitas vezes, durante a semana, coloco um treino mais curto. Para o homem, ficar 6h ou 8h correndo na rua é tranquilo, mas para a mulher é diferente. Então, nos outros dias, elas complementam o treino.
A gaúcha Vanessa Machado de Araújo, de 46 anos, que vive em Brasília há quase 20 anos, costuma treinar três vezes por semana, sob a supervisão de Costa. Nos dias úteis, as corridas geralmente têm cerca de 12 quilômetros e, aos fins de semana, ela percorre distâncias próximas às de uma meia-maratona. Além disso, ela treina canoa havaiana e pilates, como forma de fortalecimento e cuidado com o corpo.

— Fazia treinos de 30 quilômetros de caminhada porque na Extremo Sul, você também caminha muito. Você não vai conseguir correr os 226 quilômetros diretos na praia. Então me preparei de todas as formas. Aqui perto de casa tem um parque de 750 metros. Eu ia com uma amiga, de madrugada, e ficávamos até de tarde rodando. Teve um dia que demos 65 voltas. Como a praia tem um visual entediante, a gente pensou que o efeito mental de ficar dando voltas naquele parque seria parecido — relata a servidora pública.
Na última edição da Extremo Sul, ela conheceu corredoras mineiras que relataram ter solicitado autorização da prefeitura para correr em um parque fechado, com vigilantes noturnos, durante a madrugada e fora do horário de funcionamento, como forma de garantir mais segurança. Para Vanessa, esse é o maior obstáculo enfrentado pelas mulheres ultramaratonistas.
Como os treinamentos costumam ocorrer à noite – já que muitas mulheres precisam correr antes ou depois do trabalho –, o medo de episódios de assédio ou violência é grande. Além disso, a gaúcha, que é mãe de dois filhos, relata ser necessário planejar a rotina com atenção para garantir que as crianças, os cachorros e a casa fiquem bem cuidados durante os treinos e as provas.
Às vezes vejo um homem com uma bolha dizendo que vai desistir e as mulheres, geralmente, estão com os pés cheios de bolha e não desistem. A gente tem essa resistência física e mental incrível.
VANESSA MACHADO DE ARAÚJO
Servidora pública e ultramaratonista
Também orientada por Costa, Rosa Luisa Gonçalves, 44 anos, divide a rotina entre o trabalho, momentos de lazer, e os treinos de corrida, crossfit e bicicleta. Por medo de treinar na rua sozinha, a contadora, que vive em Porto Alegre, se matriculou em uma academia 24 horas para poder correr na esteira à noite e durante a madrugada com mais segurança.
— Tenho que ter um cuidado muito grande. Quando treino na rua, nunca troco meu trajeto. Faço o mesmo caminho porque sei que quando chegar em determinado ponto, vai ter um segurança que fica em um prédio. Às vezes, tenho que treinar meu treino em dois, porque não vou conseguir fazer tudo de uma vez. Quando passamos por uma rodovia de carro, sempre vemos homens correndo. Mas para nós, mulheres, é difícil — confessa.
Rosa, que se tornou ultramaratonista em 2022, já participou de diferentes provas ao redor do mundo. No início de 2026, deve começar a treinar para a Extremo Sul. Enquanto a prova não chega, pretende disputar outras corridas ao longo do ano, como forma de se desafiar e manter a motivação para os treinos até a competição de novembro, no sul do Estado.

Parte fisiológica também interfere
Além dos fatores culturais e do preparo físico, a dimensão fisiológica também pesa na participação em provas de ultradistância. Homens e mulheres têm corpos, respostas hormonais e ciclos biológicos distintos, o que impacta diretamente o desempenho, a recuperação e a estratégia de prova.
Costa afirma que costuma estimular as atletas a ouvir e respeitar o próprio corpo. No período menstrual, os treinos podem não render da mesma forma que nas outras semanas do mês e, por isso, a planilha deve ser adaptada. A médica do esporte Sohaila Younes explica que, ao contrário das mulheres, o ciclo dos homens é diário, e não sofre tantas alterações:
— A mulher tem um ciclo menstrual de 28 dias. A primeira fase, do primeiro ao décimo quarto dia, vai ser quando a mulher vai treinar melhor, vai ter mais tolerância ao calor, mais força e disposição para treinos de intensidade. Já na segunda fase, ela pode ter um treino um pouco mais lento, piora do sono e uma percepção de esforço diferente. Ou seja, pode estar fazendo o mesmo esforço ao que já está acostumada, mas, mentalmente, acredita que está sendo mais difícil.
Esse é o caso de mulheres em idade fértil. Mas, de acordo com as estatísticas disponibilizadas pelas provas, muitas competidoras têm 40 anos ou mais e podem estar no climatério — fase em que ocorre a diminuição gradual dos hormônios reprodutivos. Isso pode significar menos energia, resistência, perda de massa muscular e de força.
— Nessa fase, é muito importante que as atletas possam ter uma reposição hormonal adequada para manter a força, o desempenho e a quantidade de massa muscular e óssea. É uma reposição hormonal específica para mulheres atletas, para beneficiar essas questões relacionadas ao esporte, incluindo a velocidade e a recuperação entre os treinos — defende.
A alimentação adequada também é um ponto central para a saúde e o desempenho de mulheres corredoras. Quando o gasto calórico aumenta com treinos intensos e de longa duração, mas a ingestão de energia não acompanha essa demanda, o corpo entra em um estado de baixa disponibilidade energética. Isso pode provocar alterações hormonais importantes, afetando diretamente o ciclo menstrual e o funcionamento do organismo como um todo.
Às vezes, tenho que treinar meu treino em dois, porque não vou conseguir fazer tudo de uma vez. Quando passamos por uma rodovia de carro, sempre vemos homens correndo. Mas para nós, mulheres, é difícil.
ROSA LUISA GONÇALVES
Ultramaratonista
Esse desequilíbrio está na base do que se chama de tríade da mulher atleta, que envolve baixa ingestão calórica, alterações hormonais e prejuízo à saúde óssea. A interrupção ou espaçamento excessivo da menstruação é um sinal de alerta, já que pode levar à perda de massa óssea e aumentar o risco de fraturas por estresse, especialmente em corridas de longa distância. Por isso, a especialista recomenda uma ingestão mínima diária em torno de 40 a 50 calorias por quilo de peso corporal e reforça a importância de buscar acompanhamento profissional.
A boa notícia é que existe, sim, uma diferença fisiológica entre os sexos que pode ser positiva. Homens e mulheres têm os dois tipos de fibras musculares: as do tipo um, associadas à resistência e à capacidade de sustentar o esforço por muitas horas, e as do tipo dois, ligadas à velocidade e à explosão.
De forma geral, as mulheres apresentam uma proporção maior de fibras do tipo um, o que favorece atividades prolongadas e ajuda a manter um ritmo constante por longos períodos. Isso faz com que, em esportes como as ultramaratonas, as características naturais delas contribuem para a eficiência, a economia de energia e a resistência ao desgaste.
— As mulheres são muito resistentes nas ultramaratonas. Elas não se entregam por qualquer dorzinha. Às vezes vejo um homem com uma bolha dizendo que vai desistir e as mulheres, geralmente, estão com os pés cheios de bolha e não desistem. A gente tem essa resistência física e mental incrível — conclui Vanessa Machado de Araújo.




