
Tainá Müller sempre buscou usar o audiovisual para contribuir socialmente e ampliar a consciência do público, unindo suas duas formações: jornalista e atriz. Foi assim em Bom Dia, Verônica (2020-2024), série da Netflix que expôs as múltiplas nuances da violência contra a mulher. Ao estrear na direção de um longa-metragem, a porto-alegrense, de 43 anos, pretende seguir com o propósito.
Lançado no fim de novembro, o documentário Apolo acompanha a gravidez do rapper Lorenzo Gabriel, um homem trans, e a construção da sua família ao lado da cantora e atriz Isis Broken, uma mulher trans. Tainá conheceu a história deles por meio de uma reportagem e ficou indignada ao saber que o músico enfrentou dificuldades para ter acesso ao pré-natal em Sergipe, onde o casal morava.
Em plena pandemia, a dupla também passava por problemas financeiros e pedia ajuda nas redes sociais. Tainá fez um Pix, mas percebeu que era pouco, e poderia ajudar de outra forma. Ao descobrir que não havia registro audiovisual sobre a gestação de um homem trans no Brasil, decidiu agir:
— Como assim uma pessoa não consegue ter atendimento médico por sofrer preconceito? Fiquei muito mexida e conectada com esse casal e com essa criança que estava para nascer. Pensei: "Vamos registrar esse processo de gravidez até o nascimento". Era importante, e ninguém estava fazendo — conta a atriz, que divide a direção do filme com Isis Broken.
A partir dali, Apolo tomou forma não apenas como filme, mas como apoio à família. A equipe ajudou a levar o casal para São Paulo, garantindo que Lorenzo tivesse acesso a atendimento especializado. Tainá conta ainda que a produção colaborou para a retomada da relação do cantor com a mãe.
— A chegada de um bebê reorganiza tudo. Escancara que essas pessoas têm pessoas que amam elas, têm afeto, têm cuidado. A gente entendeu o quanto esse documentário acabou se tornando um registro histórico, para outras pessoas que passem por isso ou para famílias que têm pessoas trans.
Apolo teve sua primeira exibição no Festival do Rio, em outubro, e venceu dois prêmios: melhor documentário e melhor trilha sonora. O filme também recebeu menção honrosa e o Prêmio do Júri Popular no 33º Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade, em São Paulo.
Território conhecido
Embora seja mais conhecida pela atuação, a direção no audiovisual não era um território desconhecido para Tainá. Formada em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), ela participou de monitorias, montou vídeos e dirigiu projetos na faculdade.
Também teve passagem pela Casa de Cinema de Porto Alegre, atuando como assistente de direção e de montagem em dois projetos da Globo, e foi repórter da MTV, onde cobriu música e comportamento, até que a atuação tomou conta de sua trajetória.
Fazer personagens e obras que provoquem reflexão, debate e ampliação de consciência é meu grande gol artístico.
TAINÁ MÜLLER
Atriz e cineasta
No cinema, fez parte do elenco de Tropa de Elite 2 (2010) e recebeu prêmios por Cão Sem Dono (2007) e As Mães de Chico Xavier (2011). Na TV, destacou-se na novela Em Família (2014), ao protagonizar o primeiro casamento lésbico da teledramaturgia brasileira, ao lado de Giovanna Antonelli. Já a série Bom Dia, Verônica lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Septimius Awards, em Amsterdã, pelo trabalho na segunda temporada.
— Durante meu tempo como repórter da MTV, eu sempre buscava trazer alguma poesia para as reportagens de música. Mas os 20 anos dedicados inteiramente à carreira de atriz acabaram deixando para trás essa minha raiz no audiovisual. Durante a pandemia, foi justamente quando essa inquietação de contar histórias de forma mais autoral voltou a “bater na minha porta” — explica, sobre o desejo de voltar para trás das câmeras.
Em entrevista a Donna, Tainá Müller fala sobre sua estreia como diretora, como a maternidade aflorou durante o processo do documentário e os reflexos do sucesso de Bom Dia, Verônica.
Confira entrevista com Tainá Müller
O filme acompanha uma gestação muito singular: um pai dando à luz. Como foi trabalhar esse tema?
Me apeguei ao fator humano, ao que é comum a todas as pessoas. Apesar de ser uma mulher cis, já esperei um bebê com medos, incertezas e expectativas. Me conectei profundamente e emocionalmente com essas pessoas, tentando mostrar a verdade delas. Então, para além da questão trans, existe essa história bonita de reorganização familiar e afetiva em torno dessa criança.
Essas pessoas têm pessoas que as amam: mãe, pai, tio, avô, irmãos, uma rede familiar em torno delas que também se reorganiza para a chegada dessa criança. Inclusive, refazendo laços perdidos: no caso do Lorenzo, que refez o laço com a mãe, rompido na época da transição de gênero, mas retomado com a chegada do neto.
O documentário trata de temas como paternidade e maternidade trans. Que discussões você espera que o filme provoque?
As pessoas que têm assistido ao filme têm se sensibilizado com o fato de que o diverso não é tão diferente assim. Muita gente que teve filho, que passou pela expectativa do primeiro bebê, acaba se identificando com muita coisa ali que é igual. Adoro a cena em que os dois discutem como dobrar o paninho para guardar na gaveta. É tão normal, tão comum a qualquer casal esperando um filho.
A discussão sobre amamentação também é muito bonita. Tem a particularidade da transgeneridade, mas ao mesmo tempo é um casal tentando se acertar para criar um filho: um processo pelo qual muitos casais passam.
Acho isso uma característica do gaúcho: a gente peleia, não se entrega. Foi muito tocante ver como o gaúcho se organizou para ajudar uns aos outros (após a enchente). Essa bravura eu também levei para 'Bom dia, Verônica'.
TAINÁ MÜLLER
Atriz e cineasta
Depois de tantos anos à frente das câmeras, em que momento surgiu o desejo de dirigir? O que mais te encantou e te desafiou neste processo?
Na pandemia, comecei uma pós-graduação online em Filosofia na PUC-Rio. Ali surgiu uma vontade autoral, de retomar isso de contar histórias. Tudo casou: achei essa história, fui atrás dos produtores e conseguimos levantar recursos muito rapidamente, porque era uma gravidez, não podíamos esperar. E aí abriu essa nova aba.
Quanto ao que mais me encantou: foi a possibilidade de seguir minha intuição. Durante a montagem e roteirização, estava com a Tati Loma, a montadora, sentindo o ritmo. Nada muito racional. Não esperava que fosse tão intuitivo.
O desafiador foi um fator inédito: nunca estive à frente de um lançamento e finalização de filme. Como atriz, termino a filmagem e não participo da pós-produção. Agora, era como uma maratonista. O processo de finalização de cor, por exemplo, você pode fazer qualquer escolha, e é muita responsabilidade.
Que tipo de aprendizagens o seu filho, Martin (de 8 anos, fruto do seu relacionamento com o diretor Henrique Sauer), te trouxe como mulher, artista e mãe?
O aprendizado diário é voltar ao estado de presença. A criança é presença pura. A vida contemporânea nos tira disso: estamos sempre conectados, pensando no amanhã ou remoendo o passado. A criança nos ancora no presente. Todos os dias fico feliz de ter uma criança em casa que me lembra que a vida acontece agora.
Como a sua experiência como mãe de um menino e seu trabalho em narrativas sobre violência contra mulheres e temas LGBT+ influenciam a forma como você o educa?
Meu filho acaba acompanhando meus processos. Ele viu, por exemplo, o Lorenzo gestante e para ele não existiu estranhamento. Para ver como o preconceito é construído, né? Apresentei o Lorenzo, expliquei que ele é um homem trans. Ele perguntou o que significava e eu expliquei. Nunca foi uma questão. Para ele, é natural: mulheres engravidam e homens trans podem engravidar também, porque ele viu, foi concreto.
Se fala muito em tolerar o diferente, mas não é o máximo. A vida prospera na diversidade. Então, o diferente não deve ser apenas tolerado, mas celebrado. Observar a diversidade, contemplá-la e absorver o que ela tem a ensinar. É essa educação que tento dar.
Ele é curioso, e respondemos tudo com naturalidade, sempre adaptado à idade dele, para que entenda que o mundo é diverso. E o mundo dele, adulto, será ainda mais diverso e fragmentado. Ele precisa estar preparado para celebrar essa diversidade e aprender com ela.
Seu trabalho em Bom Dia, Verônica foi emblemático ao expor as diversas formas de violências contra a mulher. Como você enxerga a importância da série para a cultura e para a sociedade?
Ontem (26 de novembro) foi o Dia Mundial de Combate à Violência Contra a Mulher. Repostei (no Instagram) o material que uma advogada especialista em direitos das mulheres fez só com a série, recortando cenas em que a violência aparece de forma ampla, não só no óbvio do “ele bateu na mulher”. Ela mostra violência psicológica, como a fé às vezes é usada para provocar violência contra a mulher, e assim por diante.
Vieram muitos comentários. Gente dizendo que a série impactou, mudou. Teve comentário de uma mulher que disse que saiu de um relacionamento abusivo de 20 anos por causa da série. Isso, para mim, é a maior gratificação. Minha história vem do jornalismo e o jornalismo tem esse desejo de prestar um serviço à população. Então fazer personagens e obras que provoquem reflexão, debate e ampliação de consciência é meu grande gol artístico.
Em Bom Dia, Verônica, você interpretou uma mulher que luta contra violências profundas. Como você se protege emocionalmente ao viver personagens tão densas?
Eu não tenho uma proteção pensada. Naquele momento, o que mais queria era me deixar disponível física e emocionalmente, me vulnerabilizar, entrar de forma empática no universo da personagem. Vivi a Verônica de forma muito visceral.
Depois de gravar, claro, vem a intensidade: primeira temporada foram seis meses de gravação; eu tinha um bebê de três anos. Foi cansativo, mas eu estava muito ligada ao propósito da série. Para eu levantar da cama para trabalhar, preciso sentir que o trabalho serve para algo além de mim. E a Verônica me dava isso.
Existe algum ritual de autocuidado fundamental para manter o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho?
Eu gosto muito de yoga. Pratico desde que morava em Porto Alegre. É um momento de autocuidado de que não abro mão. Trabalha respiração, autoconsciência. Mas também gosto de fazer nada. Sou inquieta, sempre quis fazer muita coisa. A maturidade tem me trazido esses momentos de simplesmente parar: pegar um sol, olhar para cima. Isso já é bom.
E tem uma coisa engraçada: nesse domingo, por exemplo, eu e meu marido (Henrique Sauer) ficamos fazendo palavras cruzadas. A gente ama. Uma diversão super “terceira idade” que a gente adora. Tenho priorizado o descanso, porque negligenciei isso por anos.
Você é natural de Porto Alegre. Faz tempo que não vem para cá?
Eu fui ao Frapa (Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre) no ano passado. Queria ter ido neste ano também. Foi muito legal ir, porque fazia tempo que não ia, estava gravando muito. Foi muito tocante ir depois das enchentes. Fiquei muito mobilizada. Sentia dor profunda de ver meu lugar devastado pela água, mas ao mesmo tempo senti alegria de ver a resiliência do povo gaúcho.
Quando voltei no Frapa, dava para ver as marcas de onde a água chegou no Centro, mas também muita gente reconstruindo a vida. Muito emocionante. Acho isso uma característica do gaúcho: a gente peleia, não se entrega. Até fiz um vídeo na época, com a música Peleia (do Ultramen), mostrando cenas. Foi muito tocante ver como o gaúcho se organizou para ajudar uns aos outros. Essa bravura eu também levei para a Verônica. Está dentro de mim.
Como você observa os avanços e as barreiras que as mulheres têm enfrentado dentro do audiovisual brasileiro?
Acho que, na frente das câmeras, melhorou mais do que atrás. Bom dia, Verônica foi uma oportunidade de protagonismo que, quando comecei, eu não via. A mulher negra está tendo o espaço merecido, e isso me deixa feliz, tanto na frente quanto atrás das câmeras. Mas, quando vemos os dados, percebemos que ainda temos muito a avançar.
Esses dias falei numa entrevista: só 16% das pessoas na direção são mulheres no Brasil. É pouco. Numa indústria tão potente, que gera mais do que a automobilística, é muito pouco. É um espaço enorme para desbravar.

