
Pintar aquarela com vinho, fazer uma aula de ioga com cachorros filhotes, assistir a um filme ao ar livre ou, até mesmo, decorar um bolo com brilho e chantilly. Atividades como essas, comuns nos clubes de experiências que ganham força em Porto Alegre, oferecem o que a internet, muitas vezes, não consegue: espaço para criar, relaxar e fazer amizades. Pensadas por mulheres e voltadas ao público feminino, as iniciativas buscam proporcionar conexões e fortalecer comunidades fora do ambiente virtual.
Conhecidos como clubes de hobbies ou plataformas de experiências, projetos como a Mesa Criativa, Artesanato Feio e Hunted (confira sugestões na lista abaixo) surgiram nos últimos anos na Capital. A proposta é reunir atividades diferentes, organizadas em formato de encontros ou oficinas. A cada edição, as participantes se inscrevem e contam com o apoio das fundadoras das iniciativas para ofertar o que é necessário – instrução, materiais e estrutura – para a prática.
— É algo muito focado em trazer experiências novas, fora da rotina dessas mulheres. Não é um curso com módulos definidos em que as participantes vão aprender determinados conteúdos e receber um certificado. É mais no sentido de fugir do convencional, se conectar consigo mesma e com outras mulheres — acrescenta Rafaela Pfeifer, fundadora do Mesa Criativa.
A iniciativa surgiu em março deste ano, quando Rafaela viajou para São Paulo e descobriu que essas ações já eram sucesso por lá. A publicitária realiza, atualmente, cerca de cinco encontros por mês, todos exclusivos para mulheres. Alguns contam com a orientação de profissionais convidadas, como a oficina de velas aromáticas. Outros, como a pintura de aquarelas utilizando vinho, são mediados por ela.
Antes de convidar as inscritas a “colocar a mão na massa”, a criadora da iniciativa propõe uma dinâmica para quebrar o gelo e permitir que as participantes se conheçam. Ao longo do encontro, conversas, dúvidas e brincadeiras facilitam a conexão entre as desconhecidas. É nesse ritmo que muitas saem das oficinas com novas amigas, revela Rafaela:
— Temos um grande grupo (no WhatsApp) da Mesa Criativa e, depois dos encontros, convido elas para entrar no grupo e conhecer participantes de edições anteriores. A partir disso, elas criam outras conexões, com base nos interesses em comum. Esses dias reuniram as que gostavam de beach tennis para combinar um jogo juntas. Agora, algumas marcaram de ir comer sushi e conversar.
Emocionada, a jovem confessa que foi nessas novas conexões que encontrou forças para se reerguer após a perda do pai, no ano passado. Para ela, ver amizades se formando durante os encontros do projeto evidencia como se abrir a novas atividades e pessoas pode ser transformador para mulheres.
Para elas, a conexão é importante
A solidão e a falta de conexões significativas se consolidam como um dos desafios sociais urgentes da atualidade, afetando milhões de pessoas no mundo todo. Entre as mulheres, porém, esse peso costuma ser maior. Rafaela Klein, psicóloga especializada na saúde da mulher e em questões de gênero, explica que isso pode ser influenciado por expectativas sociais antigas, rotinas sobrecarregadas e pela dificuldade crescente de construir vínculos fora do âmbito familiar.
— Historicamente, as mulheres foram estimuladas a buscar companhia e apoio no casamento. Hoje não temos aquela vivência de 70 anos atrás, quando mulheres frequentavam espaços públicos somente acompanhadas dos maridos, mas a lógica ainda está presente. A busca por afeto em outras relações ainda é prejudicada. Esses encontros presenciais ajudam a ampliar a rede de contatos dessas mulheres para além da esfera privada. Elas ocupam outros espaços, entram em contato com outras mulheres, compartilham experiências, crescem e se protegem — avalia.
A observação de Rafaela dialoga com um cenário mais amplo, no qual a solidão aparece de forma recorrente na vida de muitas mulheres. A especialista conta que, no consultório, é comum que pacientes relatem dificuldade em fazer amigas, em testar e manter hobbies e, sobretudo, em priorizar momentos de lazer e convívio social.
Um relatório global da Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a solidão afeta uma em cada seis pessoas no mundo, com impactos expressivos na saúde e no bem-estar. Segundo o documento, publicado em junho deste ano, 16,1% das mulheres da população geral — considerando o período entre 2014 e 2023 — relataram sentir-se solitárias, uma prevalência que supera a dos homens, especialmente na adolescência e na terceira idade.
Ainda, de acordo com dados do relatório Estado das Conexões Sociais 2023, feito pela Gallup-Meta Global, 43% das brasileiras afirmaram se sentir pouco ou nada conectadas a outras pessoas.
— As mulheres costumam ter uma jornada dupla ou tripla de trabalho. Além de trabalhar fora, elas cuidam da casa, do casamento, dos filhos e, às vezes, de algum outro familiar idoso ou com alguma condição de saúde delicada. Isso tem mudado, os homens têm participado mais, mas ainda é normal que as mulheres se sintam solitárias nesses contextos. Elas estão rodeadas de pessoas, que precisam do cuidado delas, mas não dá bem para chamar de convívio social. Não é em uma festa, ou no cinema. É fazer comida, promover a higiene, dar remédio. É cuidado, dentro da esfera privada — acrescenta Rafaela.
De acordo com a OMS, a solidão e o isolamento social elevam o risco de problemas sérios de saúde, como acidente vascular cerebral (AVC), doenças cardíacas, diabetes e declínio cognitivo, além de aumentarem a probabilidade de morte precoce. A organização também aponta que pessoas solitárias têm o dobro de chance de desenvolver depressão e podem enfrentar quadros de ansiedade, bem como pensamentos de automutilação ou suicídio.
— Essa busca por conexões e lazer acaba ficando em segundo plano e isso é muito prejudicial. Existem muitos estudos que evidenciam o quanto o apoio, o convívio com outras pessoas na esfera pública e os hobbies são importantes para a saúde física e mental. Não é algo tratado como prioridade, mas deveria ser — defende a psicóloga.
Em busca de novas amigas e de diversão
Projetos como esses, dedicados a experiências compartilhadas, oferecem oportunidades para que mulheres conheçam novas pessoas, fortaleçam laços e experimentem hobbies que dificilmente caberiam na rotina em outros contextos. Esses encontros criam um ambiente propício para diversão, conversas, identificação e troca de experiências – elementos essenciais para o bem-estar feminino, reforça a psicóloga.
— Meu plano secreto, quando monto esses encontros, é ajudar as gurias a sair com novas amigas sem se dar conta ou sem se esforçar para isso — brinca Joana Barboza, idealizadora do Artesanato Feio.
Criado em 2023, o clube de experiências surgiu de algumas inquietações da Joana, que se autodeclara uma grande fã de participar de oficinas e cursos livres e de testar novos hobbies, mesmo sem saber como:
— Nessas aulas, a gente sempre tinha que se apresentar. As mulheres que participavam, sempre começavam dizendo que não eram boas naquilo. Em uma aula de bateria, uma das meninas falou: “meu nome é Fulana e eu não tenho ritmo.” Em outra, de pintura, uma participante disse: “sou a Ciclana e não tenho criatividade.” Sendo que, para mim, as mulheres são os seres mais criativos do mundo. E isso me parecia uma coisa muito específica do gênero feminino, de ter a confiança minada pela busca por perfeição.
Como o nome já sugere, a proposta do Artesanato Feio está longe de buscar a perfeição. Para evitar que as participantes estudem o hobby previamente e passem a semana inteira ruminando sobre como ser boas na tarefa, Joana promove encontros com atividades surpresa. As inscritas só descobrem qual artesanato farão ao chegar ao evento. Desde o surgimento da iniciativa, elas já pintaram, produziram guirlandas, criaram tiaras de Carnaval e decoraram bolos.
— Elas tentam ao máximo possível ficarem presentes no que está acontecendo. E fazer algo manual carrega memória, parece que dilata o tempo. Elas passam aquelas três horas do evento e sentem que estão ali, com as desconhecidas, há muito mais tempo. Elas se divertem, conversam, ajudam as outras que estão na dúvida ou insegura com seus artesanatos. O artesanato é um lubrificante social e aí elas viram amigas. Acho muito legal quando elas saem para tomar um café e me mandam foto, dizendo que se conheceram pelo Artesanato Feio — relata Joana.
Já a Hunted POA, plataforma de experiências, surgiu a partir da percepção de sua criadora, Alessandra Riet, de que os momentos de descontração estavam muito associados a sair para comer ou beber alguma coisa. A iniciativa, que não é exclusiva para mulheres, embora tenha um público majoritariamente feminino, começou com a proposta de oferecer opções de divertimento para adultos.
Entre as atividades já realizadas estão aula de ioga ao ar livre com filhotinhos de cachorro e sessões de cinema ao ar livre.
— Gosto muito de promover essa ideia de que temos que nos divertir na vida adulta. Às vezes, ao final de um evento, as pessoas me falam que se sentiram crianças de novo ou que não sabiam que estavam precisando de diversão. Acho que para as mulheres é legal porque elas podem se reconhecer, lembrar do que elas gostavam e gostam de fazer. Elas conseguem lembrar das verdadeiras essências — avalia.
Iniciativas para conhecer em Porto Alegre
- Mesa Criativa
São encontros de conexão voltados para o público feminino, que unem arte e criatividade. Mais informações estão disponíveis neste link.
- Artesanato Feio
Reúne mulheres em atividades artísticas manuais que são reveladas somente no dia do encontro. As datas e inscrições são divulgadas no perfil do Instagram.
- Hunted POA
Cria experiências imersivas e interativas, com o objetivo de estimular a conexão entre os participantes. As informações sobre a próxima atividade estão disponíveis neste link.
- Clube Mish
Oferece encontros para proporcionar novas amizades, diversão, amor-próprio e mais. Para saber mais, basta acessar a página no Instagram.
- Paper Rats Club
O clube se dedica à criação de colagens criativas em junk journaling (diário de memórias), utilizando adesivos, fotos e outros itens pessoais. Os encontros ocorrem mensalmente. Mais informações neste link.




