
O anúncio da gravidez da ex-BBB Laís Caldas, na semana passada, acendeu um alerta entre mulheres que fazem uso de canetas emagrecedoras. Ao contar que engravidou enquanto realizava tratamento com Mounjaro, mesmo tomando anticoncepcional oral, a influenciadora trouxe à tona uma possível interação medicamentosa que vem gerando preocupação entre usuárias: a redução do efeito dos anticoncepcionais causada pelas injeções emagrecedoras.
A ginecologista Ana Selma Picoloto, professora da Faculdade de Medicina da UFRGS, explica que a interferência é real. Contudo, segundo ela, o impacto clinicamente mais relevante é observado com a tirzepatida, substância encontrada no Mounjaro.
— Embora não existam estudos que mostram estatisticamente um aumento nas taxas de gestação, uma vez que o medicamento é novo, há evidências de que o Mounjaro reduz a absorção da pílula — afirma a médica.
Entendendo o impacto
O medicamento retarda o esvaziamento gástrico, fazendo com que os alimentos ingeridos permaneçam mais tempo no estômago e demorem a chegar ao intestino – o que prolonga a saciedade e leva à diminuição da ingestão calórica, promovendo o emagrecimento.
Ocorre que, além da comida, medicamentos ingeridos por via oral também acabam retidos por mais tempo no estômago. Assim, os hormônios da pílula demoram mais para chegar ao intestino e podem não ser totalmente absorvidos, o que diminui o efeito do contraceptivo.
— Essa redução na absorção do anticoncepcional pode tornar a quantidade de hormônio insuficiente para garantir a contracepção desejada, podendo ocorrer uma gestação — diz a ginecologista Ana Selma Picoloto.

Em linhas gerais, é como se o percentual clássico de eficácia dos anticoncepcionais orais, de cerca de 99,7% com uso perfeito, fosse reduzido para uma proporção menor. Conforme a médica, a questão não está relacionada à composição da pílula escolhida, mas ao modo como ela é administrada, por via oral.
— Como o mecanismo do Mounjaro é o retardo do esvaziamento do estômago, qualquer medicamento tomado por via oral pode ter sua eficácia comprometida — diz.
Segundo a médica, o alerta é especialmente importante em dois momentos:
- Nas primeiras quatro semanas de uso da caneta emagrecedora, quando a ação tende a ser maior
- Na semana que sucede cada aumento de dose, o que também intensifica o efeito da injeção
E as outras canetas?
De acordo com a ginecologista, os estudos disponíveis mostram que outros agonistas do hormônio GLP-1, a exemplo da semaglutida presente no Ozempic, no Wegovy e no Rybelsus, não interferem da mesma forma que o Mounjaro nos anticoncepcionais orais. Embora também retardem o esvaziamento gástrico, o impacto na absorção dos contraceptivos é menor.
Em nota, o laboratório Novo Nordisk, responsável pelo Ozempic, o Wegovy e o Rybelsus, afirmou que a semaglutida, substância base dos medicamentos, "conta com mais de uma década de pesquisa e dados de mais de 50 mil pacientes acompanhados, o que reforça seu robusto perfil de eficácia e segurança". Conforme o laboratório, mulheres em tratamento com semaglutida podem manter o uso de contraceptivos hormonais orais.
Entretanto, a Dra. Ana Selma Picoloto alerta que o contraceptivo oral deve ser sempre acompanhado por um método de barreira, como a camisinha. Isso porque as canetas emagrecedoras, mesmo aquelas que têm a semaglutida como princípio, costumam causar efeitos adversos como vômitos e diarreia, que podem levar à eliminação da pílula antes de sua completa absorção.
Como prevenir a gravidez
A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) orienta que mulheres em uso de Mounjaro não confiem apenas no anticoncepcional oral.
A recomendação preferencial é trocar o contraceptivo por um método que não dependa da absorção pelo estômago. Caso a substituição não seja possível, a pílula deve ser mantida com uso perfeito – todos os dias, no mesmo horário – e o uso de camisinha passa a ser obrigatório.
Entre as alternativas de contracepção consideradas mais seguras para quem utiliza Mounjaro estão:
- Dispositivo Intrauterino (DIU) hormonal ou de cobre
- Implante subdérmico (Implanon)
- Anticoncepcionais injetáveis
- Adesivos ou anel vaginal
— Esses métodos não passam pelo trato gastrointestinal, então, não sofrem interferência da medicação — explica a ginecologista Ana Selma.
A médica salienta que, para quem optar por métodos de longa duração, como o DIU e o Implanon, o preservativo deixa de ser necessário para evitar a gravidez, mas continua indispensável para a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis.

"Bebês Mounjaro"
As canetas devem ser suspensas quando há intenção de engravidar, segundo orienta a ginecologista. É preciso interromper o tratamento pelo menos dois meses antes de iniciar o processo de tentativas, para que haja eliminação completa do medicamento. A recomendação vale tanto para a tirzepatida quanto para a semaglutida.
Quando ocorre uma gravidez durante o tratamento com as injeções, a recomendação é de suspensão imediata. As gestações associadas ao uso das canetas emagrecedoras, que ficaram conhecidas como "bebês Mounjaro", ainda estão envoltas em dúvidas, uma vez que dados sobre possíveis riscos dos emagrecedores ao feto ainda são limitados.
— Não temos estudos conclusivos sobre segurança fetal. Por isso, a recomendação é que essas medicações jamais sejam usadas por gestantes, lactantes ou mulheres que estejam tentando engravidar — alerta Ana Selma, frisando a importância de o tratamento com as canetas ser realizado com acompanhamento especializado.
— É fundamental o trabalho conjunto entre o endocrinologista, que vai avaliar a necessidade da caneta e prescrevê-la quando for preciso, e do ginecologista, que orientará sobre o método contraceptivo mais adequado para cada paciente. Não é somente sobre emagrecimento, mas sobre planejamento reprodutivo e segurança — conclui.




