
Poucos dias depois de completar 90 anos, Zoravia Bettiol recebeu a reportagem de Donna para uma conversa no instituto que leva seu nome no bairro Ipanema, zona sul de Porto Alegre.
O local – que também serve de morada e espaço de trabalho para a artista visual – conserva um jardim ornado por obras autorais que se confundem com as belezas criadas pela própria natureza. Um tipo de compêndio de quem é Zoravia: alguém que faz do amor pela arte e pelo meio ambiente as suas grandes causas.
Ao receber os cumprimentos da equipe pelo aniversário recém celebrado, a artista respondeu com humor e lucidez:
— Nunca um aniversário meu rendeu tanto quanto esse. Não é todo mundo que faz 90 anos, né!?
A observação demonstra consciência e gratidão pelo tempo vivido, mas não entrega a vitalidade da nonagenária – que seria desvendada nos minutos seguintes. Isso porque não é preciso muito tempo de conversa com Zoravia Bettiol para entender que a artista chega aos 90 anos olhando para o futuro: ela traça planos e enumera projetos com o entusiasmo de quem sabe que ainda tem muito a contribuir.
Aos 90 anos, continuo vivendo exclusivamente do meu trabalho. Isso é uma dádiva.
ZORAVIA BETTIOL
Artista visual
Fala do curso de ilustração que pretende ministrar em março e da imersão que gostaria de fazer na Índia para desenvolver uma nova técnica artística, porque "devemos aprender e trabalhar até o fim". Artista múltipla, Zoravia transita com naturalidade entre diferentes expressões, movida por um senso crítico sempre atento ao seu tempo.

Nesta conversa com Donna, ela reflete sobre a questão climática, a condição das mulheres, a desigualdade social e o futuro da arte frente ao avanço da inteligência artificial.
— Eu confio na minha inteligência natural — afirma.
Com doçura e discernimento, a artista também revisita sua trajetória de 70 anos dedicados à arte, reflete sobre o legado de sua obra e revela o que espera das próximas gerações.
Confira a entrevista na íntegra com Zoravia Bettiol
O seu nome, Zoravia, significa "caminho do amanhecer". Aos 90 anos, como a senhora observa o caminho percorrido e o que ainda desponta nesse amanhecer?
Muita coisa ainda desponta. Vivi cada dia intensamente, trabalhando sem nunca mudar de profissão. O que fiz foi transitar entre diferentes projetos e modalidades. Quando queria fazer algo diferente, mudava a técnica: da arte têxtil para a gravura, para as joias, instalações ou performances.
Explorei diversas possibilidades das artes visuais e fiz muitos trabalhos híbridos, misturando as linguagens. Mas isso não é algo que se faz com seis meses de arte, precisa de amadurecimento; isso exige recursos e conhecimento sobre como utilizá-los. Na minha profissão, se não encontramos uma solução, precisamos inventá-la da melhor maneira possível. Eu espero continuar inventando as minhas.
O que a inspira a continuar criando?
A vida, em suas camadas objetivas e subjetivas, sempre foi minha maior inspiração. Criar é um ato de liberdade. Tenho dois aliados essenciais: o inconsciente e a lixeira. Não podemos ter piedade. Se um trabalho é ruim, ele deve alimentar a lixeira, para que possamos evoluir e buscar o melhor. Isso é ter ambição de sempre melhorar.

O tempo a deixou mais livre ou mais exigente consigo mesma?
Felizmente, fiquei mais exigente comigo e com os outros. Mas eu não engano ninguém: digo de cara que sou muito exigente. Acredito que a exigência é propulsora do progresso. Ele nasce da combinação entre exigência, necessidade e curiosidade.
Sua obra traz um senso crítico muito aguçado. Na sua visão, qual deve ser o papel do artista diante das questões sociais de seu tempo?
Cada um de nós pertence a uma época, e é importante que a gente se envolva com as questões pertinentes a ela. Nem todos os artistas pensam assim, mas eu penso. No Brasil, a desigualdade social é uma chaga profunda. Quem, como eu, teve acesso a muito, possui uma obrigação prazerosa de ajudar aqueles que receberam menos.
Cada um pode fazer isso dentro das suas possibilidades e da sua profissão. Eu fiz a minha parte através da arte. Trabalhei por 11 anos com a ONG Cristal Florido, utilizando a arte-educação para promover a inclusão social e fortalecer a autoestima de crianças e adolescentes. Encaro isso como uma obrigação prazerosa porque era algo que me fazia muito bem. Precisamos conhecer os "Brasis" que estão ao nosso lado.

Como alguém que sempre esteve muito ligada à causa ambiental, como observa o momento climático que estamos atravessando?
Fui criada em um ambiente que estimulava o respeito à natureza. Desde pequena, meu pai, que era professor e advogado, ensinava princípios ecológicos apaixonantes. Sou membro da Agapan (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural) desde a década de 1980 e procuro trazer esse viés para o meu trabalho, denunciando problemas da fauna e da flora.
É importante mostrar que tudo está interligado. O desmatamento, a devastação das matas ciliares e a exploração desenfreada dos recursos naturais levam a desastres como as inundações de 2024. Penso que devemos nos inspirar nos povos originários, que utilizam a floresta e a água sem ganância, respeitando o que é essencial para a vida. Eles entendem que a natureza é nossa aliada e deve ser cuidada.
Como mulher, que avanços percebe na sociedade?
A mulher foi oprimida po séculos, em razão da insegurança do homem, e as conquistas têm sido lentas e custosas. Embora, pessoalmente, nunca tenha sido impedida de trabalhar, pois tanto meu pai quanto o Vasco (Vasco Prado, ex-marido) sempre me incentivaram, sei que muitas artistas enfrentaram barreiras imensas.
Hoje, vejo as mulheres ocupando muito mais espaços, mas ainda precisamos de uma divisão real do trabalho doméstico e do cuidado com os filhos. São questões comportamentais que precisam mudar, porque essa responsabilidade não pode ser somente da mulher.
Na minha profissão, se não encontramos uma solução, precisamos inventá-la da melhor maneira possível. Eu espero continuar inventando as minhas.
ZORAVIA BETTIOL
Artista visual
A senhora foi casada com o escultor Vasco Prado por quase 30 anos e se tornou administradora da obra dele. Com essa função, corria o risco de acabar ficando à sombra do seu companheiro, mas nunca abriu mão da própria carreira. O que a motivou a persistir?
Me recusei a fazer parte do grupo de mulheres que abandonam sua profissão para cuidar do marido e dos filhos e acabam frustradas. Depois que os filhos crescem, a mulher percebe que perdeu o trem da própria vida. Administrar o ateliê do Vasco era um trabalho pesado e eu detestava, mas alguém precisava fazer. Não levo jeito para isso, mas ele levava menos ainda, então, assumi essa parte.
Mas nunca poderia abrir mão do meu próprio trabalho. Se não tivesse a minha profissão, hoje seria apenas uma idosa fazendo tricô em frente à TV. Deus me livre. Quero seguir produtiva e fazendo planos.

Quais são os seus planos do momento?
Pretendo ministrar um curso de ilustração em março. Ainda estou vendo como será, porque tenho pavor de cursos rápidos; mas, hoje em dia, as pessoas não têm paciência para muitas aulas. Uma outra coisa que eu gostaria muito, mas acho que será um pouco difícil, é passar uns dois ou três meses na Índia para estudar o modo deles de fazer carimbos para tecidos. Acho genial o que eles fazem, aqueles carimbos enormes, magníficos.
Quer dizer: depois de toda a sua trajetória, a senhora ainda quer aprender mais.
Mas é claro. Acredito que devemos aprender e trabalhar até o fim. A criatividade não se aposenta.
As futuras gerações enfrentarão um desafio tremendo devido à destruição do planeta. Espero que busquem uma concepção de vida mais saudável.
ZORAVIA BETTIOL
Artista visual
Qual é o papel da arte nessa sua disposição para a vida?
A arte é uma potência provocativa, um meio de educação e, no meu caso, uma profissão e uma diversão. Ela é tudo. Infelizmente, vivemos um momento difícil para a arte no Estado, agravado pela pandemia e pela enchente, que forçaram as pessoas a priorizarem suas contas básicas em detrimento da cultura. No entanto, aos 90 anos, continuo vivendo exclusivamente do meu trabalho. Isso é uma dádiva.
O que o amadurecimento modificou na senhora?
Me tornei uma pessoa mais flexível e capaz de compreender o ponto de vista alheio, mesmo mantendo minhas convicções. Vejo com preocupação a polarização atual e o exibicionismo das redes sociais, onde muitas vezes falta pudor e profundidade. As pessoas parecem especialistas em tudo, mas prefiro me espelhar em quem realmente estudou e se aprofundou nos assuntos.
Como vê a entrada da inteligência artificial no meio artístico?
Confio na minha inteligência natural e no meu talento, frutos de uma longa trajetória. A inteligência artificial pode ser útil como ferramenta, mas nada substitui o instinto e o trabalho autêntico do artista. Historicamente, toda inovação técnica causou temor. A fotografia é um bom exemplo disso, mas o tempo mostrou que há espaço para todas as linguagens coexistirem e se influenciarem mutuamente.

O que espera das gerações futuras e do legado da sua obra?
As futuras gerações enfrentarão um desafio tremendo devido à destruição do planeta. Espero que busquem uma concepção de vida mais saudável, menos focada em tecnologia e ambição, e mais voltada para o bem-estar coletivo. Quanto à minha obra, os artistas dão o seu recado; o julgamento sobre ele pertence ao tempo e ao olhar dos outros. Fiz a minha parte em busca do melhor.



