
Pensar em comida é normal, afirmam especialistas. Sentir fome ou imaginar o que preparar para o jantar faz parte da rotina. A preocupação surge quando a vontade de comer é constante, mesmo após as refeições, e os pensamentos sobre alimentação não dão trégua. Essa inquietação mental é conhecida pelo termo em inglês food noise, ou “ruído alimentar”, em português, e exige atenção.
— O food noise é quando a pessoa está sempre com algum pensamento sobre comida na mente. Se já está na hora de comer, se aquele alimento é calórico, se é saudável, o que está com vontade de comer, o que deveria comer, o que é “permitido” ou “proibido”. A pessoa fica sempre ruminando esses pensamentos intrusivos, como se fosse uma preocupação excessiva com a alimentação — explica Bárbara Munari, nutricionista comportamental.
O quadro não necessariamente é um sintoma ou representa o início de um transtorno alimentar. Mas, se não for tratado, pode se tornar um incômodo constante, afetar escolhas, concentração e a percepção de fome e saciedade. Bárbara afirma que, com o tempo, esse padrão pode abrir caminho para episódios de compulsão e, em alguns casos, para o desenvolvimento de um distúrbio.
O ruído alimentar não é uma queixa nova, mas o conceito ganhou força nos últimos anos, impulsionado pelo avanço dos debates sobre transtornos alimentares e pela popularização do tema nas redes sociais. O fenômeno pode surgir por diversos motivos, defende a nutricionista comportamental:
— Está muito ligado ao emocional. Tem a questão das redes sociais, que a pessoa se compara com outras ou tem, às vezes, uma distorção de imagem. Mas o que mais causa essa condição são as dietas restritivas, principalmente para pessoas que sempre viveram de dieta, fazendo de tudo para emagrecer ou ter o corpo perfeito. Quem passou por isso, tem regras já determinadas para a alimentação e sofre muita pressão estética pode estar mais propício ao food noise.
Essa preocupação constante com escolhas alimentares, calorias e horários das refeições pode se tornar intrusiva e desgastante, afetando a qualidade de vida, alerta Ivana Goulart, nutricionista especialista em transtornos alimentares. Segundo um estudo publicado em julho na revista científica Nature, esses pensamentos podem contribuir para ansiedade, culpa, isolamento social e até dificultar as tentativas de perda de peso.
— Todo mundo pensa no que quer comer ou sente fome. É normal. O problema é quando isso toma uma proporção maior e começa a gerar sofrimento, ansiedade, culpa e estresse. Quando a pessoa só consegue pensar nisso, como se fosse um pensamento incontrolável e que não tem pausa — acrescenta Ivana.
Sintomas de "food noise"
- Pensamentos frequentes e indesejados sobre comida, mesmo sem fome
- Preocupação exagerada com calorias, nutrientes ou horários das refeições
- Dificuldade de concentração porque a mente retorna repetidamente ao tema da alimentação
- Sentimentos de ansiedade, culpa ou estresse relacionados ao ato de comer, aos pensamentos ou às escolhas alimentares
Canetas emagrecedoras podem aliviar o quadro
As medicações utilizadas para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, conhecidas popularmente como canetas emagrecedoras, também ajudam a explicar por que o termo food noise ganhou espaço nas conversas recentes. Nas redes sociais, usuárias relatam que o tratamento com essas substâncias reduz o ruído alimentar.
Pesquisadores registraram, por meio de eletrodos, a queda na atividade cerebral associada a desejos intensos logo após uma pessoa com obesidade grave iniciar o tratamento com tirzepatida. O trabalho, publicado em novembro na revista Nature, indica que fármacos que imitam o hormônio GLP-1 podem modular diretamente os circuitos ligados ao impulso de comer, o que contribui para diminuir os pensamentos intrusivos típicos do food noise.
— Tem sido uma coisa bastante interessante de observar na prática. Essas medicações têm uma ação hormonal e ajudam a regular essa questão da fome, saciedade e do centro de prazer no cérebro. Para pacientes com transtornos alimentares também têm sido uma boa ferramenta. Mas não é uma fórmula mágica. É uma ajuda para conseguir deixar os pensamentos mais orientados — pondera Ivana.
Como tratar o "food noise"?
O tratamento envolve um conjunto de ajustes que combinam saúde mental e hábitos cotidianos. Para as especialistas, é essencial que as pessoas que sofrem com a condição façam acompanhamento psicológico e nutricional, para compreender o comportamento alimentar.
Além disso, uma rotina estruturada também favorece esse reequilíbrio: refeições balanceadas em horários consistentes, sono adequado, prática regular de atividade física e hidratação suficiente reduzem oscilações de apetite e criam as condições para que os pensamentos insistentes sobre comida percam intensidade ao longo do dia.





