
Existem artistas que conseguem atravessar gerações sem perder as rédeas nem a essência da própria história. Marisa Monte é uma delas.
Na estrada desde outubro, a carioca encerra a turnê Phonica – Marisa Monte & Orquestra Ao Vivo em Porto Alegre, no dia 6 de dezembro, às 19h30min, no Parque Harmonia (Avenida Loureiro da Silva, 255). Os ingressos estão à venda no site Ticket for Fun. O espetáculo contou com apenas seis apresentações pelo Brasil.
Sob a batuta do maestro André Bachur e acompanhada por sua banda, esta é a primeira turnê que a artista realiza com uma orquestra sinfônica formada por 55 músicos, selecionados especialmente para revisitar seus 40 anos de carreira.
— É uma glória como artista contar com uma mão de obra tão maravilhosa, músicos inspirados e talentosos, sincronizados na mesma intenção emocional e artística — afirma Marisa — O público se soma a essa potência da música e embarca nessa experiência mágica conosco.
Dona de um estilo próprio e de um trabalho que ela mesma define como transgeracional, Marisa possui cerca de 16 discos lançados, entre álbuns ao vivo e parcerias com os Tribalistas. Além da discografia, já venceu o Grammy Latino cinco vezes, incluindo melhor álbum de MPB com O Que Você Quer Saber de Verdade (2014).
Fechar em Porto Alegre, essa cidade que sempre me acolheu com tanto amor, será inesquecível
MARISA MONTE
Cantora e compositora
Em 2021, a cantora surpreendeu os fãs com o anúncio da turnê Portas, baseada no disco homônimo lançado após uma década. À época, Marisa contou que planejava entrar no estúdio em maio de 2020, mas, por conta da pandemia, precisou se reinventar. Quando trouxe o espetáculo para a Capital, em 2022, emocionou a plateia com uma interpretação de Felicidade, do cantor e compositor Lupicínio Rodrigues.

O repertório que será apresentado na Capital terá clássicos como Ainda Bem, Depois e Vilarejo, mas também abre espaço para novidades, caso de Sua Onda, parceria com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, produzida pelo músico argentino Gustavo Santaolalla, vencedor de dois prêmios Oscar.
Lançada há pouco mais de um mês, especialmente para a turnê, a canção fala sobre recomeços e a coragem de atravessar o desconhecido. E, talvez por isso mesmo, representa uma nova fase para a cantora.
— Procuro fazer o meu melhor e manter o espírito de quem está sempre aprendendo. Novas águas são sempre bem-vindas.
Fora dos palcos
Desde os anos 1980, quando despontou na cena musical com a voz inconfundível de Bem Que Se Quis, Marisa segue fiel ao que sempre foi: discreta.
Hoje, aos 58 anos, a cantora diz que busca o silêncio na pausa entre um trabalho e outro para se reconectar consigo mesma. Enxerga nos exercícios físicos uma forma de meditação e conta que, há cinco anos, a natação se tornou uma aliada nessa busca por sossego:
— Considero um luxo ficar uma hora em uma piscina, fluindo na água, num mundo azul, onde o telefone não entra.
É nesse intervalo que Marisa aproveita para cultivar suas relações afetivas, compor, tocar violão e piano, e também fortalecer seu papel como voz ativa em defesa da cultura, da educação e das mulheres.
Reflexo disso foi sua participação na roda de conversa “Mulher, presente”, realizada em março no Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília. O evento reuniu mulheres de diferentes áreas para debater o papel feminino na economia criativa, no trabalho e na democracia.
Antes disso, em 2024, a Universidade de São Paulo condecorou Marisa com o título de Doutora Honoris Causa por sua contribuição às artes. Na ocasião, a cantora afirmou que receber a homenagem era a prova de que a arte tem o poder de impactar vidas, despertar consciências e promover mudanças.
Desde 2022, ela também é embaixadora do USP Diversa, programa social voltado a oferecer bolsas de estudo para estudantes de baixa renda.
Em conversa com Donna, Marisa fala sobre o reencontro com seu repertório no formato sinfônico, a necessidade de discutir os impactos da inteligência artificial no cenário cultural e sobre como suas músicas seguem ganhando novos sentidos para diferentes gerações.
Confira a entrevista com Marisa Monte
O que as mudanças do tempo têm transformado no teu canto e na tua relação com o palco?
Tenho sido amiga do tempo. Observo minha construção, minha história, e sou grata a tudo que a vivência me deu. Hoje tenho um repertório extenso e conhecido, que compartilho com o público a cada show. É tranquilizador não precisar explicar verbalmente aquilo que a minha história já comunica melhor do que eu. É muito bom ter vivência.
Encerrar uma turnê parece ser como um rito de passagem. O que significa fechar esse ciclo em Porto Alegre e que tipo de clima tu imaginas para esse último show?
Essa é uma turnê muito especial – curta, excepcional –, e fechar em Porto Alegre, uma cidade que sempre me acolheu com tanto amor, em um parque que carrega um nome tão musical como Harmonia, será inspirador, emocional e inesquecível.
Nunca me iludi, sempre soube que qualquer construção sólida leva tempo
MARISA MONTE
Cantora e compositora
Tens algo pensado especialmente para os gaúchos?
Todos os shows são muito únicos, e o encontro com os gaúchos certamente não será diferente.
Com quase quatro décadas de carreira, o que mais te chama a atenção na tua própria trajetória?
A grandiosidade de atravessar minha existência conectada ao mundo, à vida e a outras pessoas por meio da arte – da música, das memórias, das histórias, das pessoas, da cultura em comum e do campo imaginário. Isso me honra, me guia, me estimula e me dá forças para seguir.

Portas (2021) foi um álbum profundamente afetado pelo contexto da pandemia, e agora a turnê Phonica te coloca em outro lugar. Tu te reconheces diferente como artista depois desse momento?
A pandemia foi um momento desafiador para todos nós e revelou a importância da arte como suporte, assim como a força da resistência poética em períodos de grandes dificuldades. Hoje, sinto que estamos em outro momento, mas percebo que a comunhão, a sensibilidade, as questões humanas e a criatividade ganharam ainda mais sentido e relevância.
Tu apareceu recentemente numa lista do Spotify entre os 10 artistas da MPB mais ouvidos pela Geração Z, lado a lado com Tribalistas, Djavan e Liniker. Como tu enxergas essa ponte entre gerações e que tipo de relação tu sentes que construiu com fãs tão diversos?
Desde o meu primeiro show, meu trabalho se revelou transgeracional, e sigo assim ao longo dos anos, unindo gerações. Para mim, isso é um atestado do poder da música, algo que me alegra e aquece o coração.
Falando em novas gerações, quem tu tens escutado da nova safra de cantoras?
Estou sempre procurando novidades, não só cantoras, mas também compositoras. Hoje existe uma nova safra de artistas que compõem seus próprios repertórios e expressam o sentimento feminino para além da voz, dominando também o discurso. Destaco, na nova geração, Alice Caymmi, Mari Jasca, Ana Frango Elétrico, Mãeana, entre muitas outras bravas mulheres.
Podemos dizer que a música brasileira vive uma fase de grandes mudanças, especialmente com a inteligência artificial entrando na criação artística. Como tu tens observado esse cenário?
A IA é uma inovação tecnológica muito bem-vinda. Porém, me preocupa o fato de ainda não haver uma regulamentação que proteja o bem-estar social, o meio ambiente, os direitos humanos e os direitos autorais, e que não exista transparência nem responsabilidade ética das empresas desenvolvedoras em relação a todos esses pontos.
Existem hoje projetos no legislativo brasileiro e no mundo inteiro tratando desse assunto, que cresce muito rapidamente, gerando insegurança e a necessidade de uma discussão urgente sobre os impactos dessas novas tecnologias para o futuro da humanidade. As empresas de tecnologia visam lucro acima de tudo e não têm se mostrado suficientemente preocupadas com essas questões.
Tu costumas dar pausas significativas entre um lançamento e outro. Como é a Marisa longe dos palcos? O que tu buscas ou encontras nesses períodos de introspecção?
Busco o silêncio para preencher de música. Busco escutar meu coração, me reconectar comigo e me desconectar das redes. Procuro me alimentar bem física e mentalmente, manter a rotina, cultivar relações afetivas, familiares e de amizade, encontrar meus amigos, compor, tocar violão e piano, aprender coisas novas e estar em meio à natureza sempre que possível.
Em relação à maternidade, o que mudou no teu olhar sobre o mundo?
A maternidade é uma experiência sobrenatural. Para a mulher, gerar outra vida dentro do ventre é um milagre misterioso e inexplicável. Hoje, meus filhos estão crescidos – Mano tem 22 e Helena, 17 –, e é o máximo poder conversar sobre tudo com eles, aprender na troca e ver que têm autonomia, que já administram as próprias vidas, que são pessoas admiráveis, amáveis, de bom coração e caráter, e que serão meus amigos para a vida toda. É um desafio lindo conceber e criar outros seres.
O que te ajuda a manter equilíbrio entre rotina, corpo e mente? Existe algum ritual de cuidado que virou indispensável para ti?
O que mais me conserta é o exercício físico. Tenho praticado natação nos últimos cinco anos, que, além dos benefícios físicos, é extremamente meditativa. É o momento em que consigo processar meus pensamentos, me reorganizar e renovar minhas energias.
Além disso, faço atividades físicas todos os dias, ao longo da vida inteira, e isso realmente me reequilibra e tem um poder curativo. Reconhecer os benefícios me trouxe disciplina e foco desde cedo, e hoje me beneficio desses bons hábitos.
Ao olhar para trás, que aprendizado talvez só pudesse vir com o tempo? Se tu pudesses dar um conselho à Marisa dos 20 anos, qual seria?
Tive a sorte de receber bons conselhos aos 20 anos e a sabedoria de segui-los. Tive grandes mestres que me fizeram ver que eu precisava, acima de tudo, respeitar meu tempo, meu coração, a música e a inteligência do público. Trabalhar muito, acreditar, honrar o dom e as boas oportunidades.
Nunca me iludi: sempre soube que qualquer construção sólida leva tempo, exige muito esforço e que eu não deveria ter pressa, mas sim acreditar no tempo.
*Produção: Rayne Sá



