
Ouvir parece simples, mas exige coragem. É dessa escuta que nasce o próximo projeto de Marcela Ceribelli, uma das vozes mais influentes nas conversas sobre autoconhecimento feminino no Brasil. No dia 12 de novembro, estreia em Porto Alegre o Obvious no Divã, encontro que transforma em presença o que antes existia apenas em áudio e convida o público a desacelerar para escutar. Ingressos estão disponíveis no site da Uhuu.
O lançamento será marcado por uma gravação ao vivo dos três primeiros episódios do novo podcast da Obvious no Teatro Bourbon Country. As conversas, comandadas por Marcela, também contarão com participações de especialistas e personalidades que, nos últimos anos, ajudaram a moldar os novos debates sobre saúde mental, emoções e feminilidade.
— Quando a gente vê os episódios mais ouvidos ao longo desses quase sete anos do podcast Bom Dia, Obvious, mais da metade deles é com psicólogos e psicanalistas. Temos um debate cada vez mais forte sobre produção de conteúdo online, sobre o quanto não estamos com paciência de consumir algo que tenha mais de dois minutos. Como é que conseguimos trazer o valor do presencial e daquilo que fica marcado, e não só mais uma coisa que passa pela timeline? — indaga a comunicadora.
Marcela construiu uma trajetória fazendo perguntas que parecem óbvias, mas que raramente têm respostas simples. Para ela, é um prazer conduzir conversas que ajudam outras mulheres a colocar em palavras o que sentem e pensam. É assim que ela fortalece uma comunidade feminina que se conecta por meio de canais no Instagram, dos podcasts, um clube do livro, newsletters e das duas obras que lançou: Aurora: o despertar da mulher exausta (2023) e Sintomas — e o que mais aprendi quando o amor me decepcionou (2025).
Acho que, de alguma maneira, estamos meio juntas. Sei que temos uma comunidade muito engajada e que confia que estamos fazendo algo pelo bem delas acima de tudo.
MARCELA CERIBELLI
Influenciadora, podcaster e escritora
A influenciadora admite que ainda é cedo para prever os próximos passos do novo podcast. Quanto aos livros, ela brinca que talvez seja hora de escrever ficção. Independentemente do que o futuro reserve, Marcela olha para trás com carinho pela carreira que criou e as transformações que viveu.
Em entrevista a Donna, ela fala sobre vulnerabilidade, presença e o poder de imaginar outras formas de existir.
Confira a entrevista com Marcela Ceribelli
Na divulgação do Obvious no Divã, tu escreveste que as mulheres são as que mais procuram terapia, mas são as que menos param para se ouvir. Essa é uma afirmação bem forte. O que tu achas que isso representa?
Essa frase passa por dois universos importantes. O primeiro deles é o quanto ainda temos poucas referências femininas em áreas muitas vezes dominadas por mulheres. É algo impressionante. Estava conversando com uma dermatologista e ela falou que, se você vai a um congresso de dermatologia, 90% do público são mulheres, mas quem está no palco são dermatologistas homens. Então, ainda existe uma escada para subir e batalhar, para que as mulheres sejam referências e vozes ouvidas em suas áreas.
Mas, em um âmbito mais intangível, estou falando também sobre confiar nas nossas próprias vozes. Quando as pessoas leem meus livros e escutam os podcasts, elas me dizem: “Nossa, você me provou o que eu estava pensando. Não estou louca ou sozinha.” Então, como é que podemos fazer para nos escutar com mais credibilidade? Por mais que falemos e procuremos ajuda, é preciso confiar nessa voz interna. Acho que a psicologia, especialmente a psicanálise, que é sobre fala e escuta, ensina muito isso.
Por isso, Obvious no Divã tem muito a ver com você também se escutar. Talvez muito do que vamos falar nesses palcos já esteja dentro das mulheres, mas estamos dando confiança para que elas se escutem.
Tu tens um trabalho multicanal, com atuação em diferentes ambientes, como podcasts, clube do livro e lançamentos com abordagens variadas. Como tu avalias a importância de manter esse olhar amplo e atencioso para a saúde física e mental das mulheres?
Eu acho que é o básico. Esse olhar mais amplo vem de uma observação minha e de como conseguimos, de alguma maneira, estar no contrafluxo daquilo que não está fazendo bem às mulheres.
É muito bonito pensar que há tantas mulheres junto comigo diariamente. Inclusive, no clube do livro, este mês estamos lendo A Suíça (de Jen Beagin, 2025). Ela transcreve sessões de psicanálise desse psicanalista e conhece uma paciente sem saber que está transcrevendo as consultas dela. E aí, em um dado momento, ela fala que parecia que tinha encontrado uma podcaster que acompanha há anos e, de repente, tem uma intimidade que não dá para explicar.
Achei muito lindo isso estar no livro porque é um pouco isso: as ouvintes que já me acompanharam ter burnout, acompanharam o divórcio, eu solteríssima e também me apaixonando. Acho que, de alguma maneira, estamos meio juntas. Sei que temos uma comunidade muito engajada e que confia que estamos fazendo algo pelo bem delas acima de tudo.
O teu trabalho é feito com muita pesquisa, mas também com base em uma autoanálise. Na tua conversa com a Tati Bernardi, tu falaste sobre mulheres que falam e escrevem sobre si mesmas. Como é essa tarefa de se visitar e compartilhar com outras mulheres?
A verdade é que não sei existir de outra maneira. A forma como sei existir, e que, às vezes, é muito cansativa, é analisando, voltando para o que as coisas significam. Digo para todo mundo que meu talento não é falar, é ouvir. É ter essa escuta ativa de forma que possa traduzir o que esses especialistas estão falando para que qualquer mulher entenda, para que qualquer pessoa ligue no programa e entenda o que está sendo construído ali. Mas tenho muitos estímulos pessoais que acabam sendo experiências também universais das mulheres.
Sou muito Nelson Rodrigues, que ficava mais tempo no trem para ouvir as histórias que estavam sendo contadas. É um exemplo “muito Rio de Janeiro”: você vai ao Leblon e o assunto entre as mulheres é uma separação com filho envolvido. Aí vou na Mangueira, converso com uma mulher de um projeto social e vejo que as mulheres da mesa ao lado estão falando sobre guarda dos filhos durante uma separação. Há algo em comum.
Claro que existem diferentes níveis de privilégio e acesso, mas a mulher brasileira ainda enfrenta algumas batalhas similares. Se uma amiga minha está passando por isso e se as meninas que observo estão vivendo isso, é provável que muitas outras também vivam. Então, ilustrar experiências pessoais como pano de fundo é uma maneira de tornar essas realidades mais palpáveis. Homens fazem isso desde que o mundo é mundo.

Queria te ouvir sobre a dimensão da idade. Tu mencionaste que as ouvintes acompanharam várias fases da tua vida e alguns desses marcos se conectam com faixas etárias específicas. Como tu percebes que o teu conteúdo dialoga com mulheres de diferentes gerações?
Vejo uma questão intergeracional. Uma das coisas mais bonitas é quando vão mãe e filha a um dos eventos. Ou quando há um grupo de mulheres de 50 anos e outro de 20. Hoje, o único recorte que não faço é de idade, justamente porque falo com mulheres do nosso tempo, e elas têm diferentes idades. A diferença está nos interesses e nos momentos que estão vivendo.
Você pode se separar aos 30 ou aos 60. Talvez as dores sejam diferentes, porém similares. Então esse é o único recorte que evito ao máximo, tomando muito cuidado porque estamos em um momento em que a geração virou quase um signo: “Ah, sou geração Z, então sou de tal maneira”. Mas como você vai colocar como experiência coletiva um ano de nascimento?
Isso é inexpressivo para o que faço, especialmente para não cair em ciladas fáceis de etarismo, tanto achar que mulheres mais velhas não vão entender o que estamos falando, o que é muito perigoso, quanto achar que uma menina da geração Z não sabe ainda de tal coisa porque isso só se aprende quando é mais velha.
A verdade é que não sei existir de outra maneira. A forma como sei existir, e que, às vezes, é muito cansativa, é analisando, voltando para o que as coisas significam.
MARCELA CERIBELLI
Influenciadora, podcaster e escritora
Voltando ao teu trabalho de se autoanalisar, qual é a importância de fazer esse mergulho em si mesma para mulheres que não necessariamente fazem disso uma carreira, não têm podcasts e não escrevem livros?
Se você é alfabetizada, você escreve. Isso é algo sobre o qual sou muito repetitiva, porque as pessoas dizem que não escrevem porque não escrevem bem. Mas a língua portuguesa é tão rica em vocabulário e em formas de expressão. A escrita, com o exercício de cuidado consigo, tem a ver com a drenagem mental. Ela é capaz de tirar o excesso. Permite sair da ilha para ver a ilha, como diz José Saramago.
Quando você escreve e depois se lê novamente, sente outra emoção. Estamos em um momento de muita anestesia do sofrimento, de fuga, seja por medicação ou por se entorpecer com um feed que rola sem parar. Então, escrever é ter coragem de encarar de frente o que você está passando.
É um trabalho de mostrar vulnerabilidade. Em Aurora, alguns trechos parecem ser muito íntimos, uma exposição de partes tuas que talvez poucas pessoas conheciam. Para muitas mulheres, vulnerabilidade e força são conceitos opostos. É possível equilibrar esses dois jeitos de ser?
A minha editora discorda. Ela acha que Aurora poderia ser mais pessoal, tanto que Sintomas é, na minha visão, brutalmente pessoal. O próximo talvez seja uma ficção, porque eu não aguento mais falar de mim (risos).
Acho que confundimos liberdade com independência emocional. Os vínculos saudáveis são a própria maneira de curar os vínculos adoecidos ou adoecedores que encontramos ao longo da vida. A ideia de que uma mulher “bem resolvida”, com muitas aspas, não tem momentos difíceis e não precisa pedir ajuda é uma ilusão.
Somos muito mais fortes e potentes quando estamos trocando, quando falamos que também passamos por algo, porque nenhuma de nós está blindada. Não existe conhecimento suficiente para te blindar de experiências nocivas na vida.
Vejo que muitas mulheres percebem, com a tua ajuda e com a ajuda de tantas outras que têm coragem de falar sobre esses assuntos, que ser mulher não é uma tarefa fixa ou um papel a ser cumprido, mas sim um território em movimento. O que tu tens aprendido sobre o significado de ser mulher à medida que tu estudas e conversas com outras mulheres?
Não existe uma experiência coletiva sobre ser mulher; o erro é acreditar em um ideal único. Por isso, muitas mulheres sofrem pressão, retaliação e até desistem dos desejos inconscientes que vêm desse patriarcado internalizado, que dita como devemos agir, o que podemos sonhar, o que devemos querer. Que cada vez mais tudo possa ser uma escolha, e não algo que sentimos que precisamos fazer.
Sem dúvida alguma, é uma dádiva ter contato com todas essas mulheres. É muito claro para qualquer pessoa que chega perto de mim o quanto sou apaixonada pelo meu trabalho e o quanto pesquisar sobre um tema e ir a fundo em algo que pode ajudar outras mulheres é apaixonante para mim. Houve mudanças em mim, mas também amadurecimento. Se pensar que comecei o programa com 28 anos e agora estou com 35, é de se perguntar o que aconteceu nos últimos seis ou sete anos. Existe uma Marcela que mudou e amadureceu muito.
Em um podcast do Bom Dia, Obvious, lembro que tu disseste que te achavas muito otimista. Como tua visão de mundo foi afetada por todas essas pesquisas e conversas?
Estudar é a melhor maneira de ficar otimista. Já foi muito pior; precisamos ser muito gratas às mulheres que vieram antes de nós. Estudar é a melhor forma de trazer esse otimismo porque vemos que, como sociedade, evoluímos muito. Mas talvez tenhamos uma pressa que não cabe na nossa existência. Tenho certeza de que vamos chegar à equidade de gênero. Não sei se vou ver, mas vai chegar. O que posso fazer agora para que as próximas gerações vejam isso é justamente entender que isso é maior do que nós.
É algo muito desse tempo: querer que tudo se resolva aqui e agora. Mas, se você pensa nas igrejas construídas ao longo de 300 anos, quem trabalhou ali sabia que não veria o resultado em vida. E, ainda assim, está lá. Acho que é isso que me mantém otimista. E porque essa sou eu mesma: sofro, mas sou do “bora resolver”. É difícil me ver lamentando. Sou de partir para a ação. O que, às vezes, também pode ser um atropelamento... mas aí a gente fala sobre isso em um próximo episódio (risos).




