
“Benditas sejam as mulheres, pois elas fazem tudo com amor”, dizia Armando Peterlongo, filho do imigrante italiano Manoel Peterlongo, fundador da vinícola que leva o sobrenome da família e criou o primeiro champanhe brasileiro. Pioneira na contratação de mulheres seguindo as Leis Trabalhistas na serra gaúcha, a centenária vinícola de Garibaldi abriu um caminho que hoje se vê com mais clareza: o das lideranças femininas em um setor historicamente dominado por homens.
Quem relembra essa curiosidade é a jornalista Lucinara Masiero, 52 anos, uma das quatro mulheres finalistas na categoria Personalidade do Vinho, do Prêmio Destaques do Setor do Vinho, promovido pela Associação Brasileira de Sommeliers do Rio Grande do Sul (ABS-RS). Com cinco concorrentes na disputa, a categoria tem, pela primeira vez, maioria feminina: além de Lucinara, estão na disputa Fernanda Spinelli, Juliana Toniolo Rossatto e Lucia Porto. O único homem finalista é Julio D’Agostini, fundador da Boccati Vinhos.
— O vinho por muito tempo foi associado ao universo masculino. Hoje vemos mulheres liderando negócios, formações, eventos e narrativas — observa Caroline Dani, presidente da ABS-RS. — Ter quatro delas indicadas na categoria de Personalidade do Vinho é consequência natural da maturidade do setor — acrescenta.
Além do título em questão, a edição 2025 da premiação concede o reconhecimento por Melhor Experiência em Enoturismo, Serviço de Vinho em Restaurante, Paisagem Vitícola, Loja de Vinho, Carta de Vinhos, Adega de Supermercado, Winebar Destaque e Vinícola Destaque.
Os vencedores serão conhecidos na próxima terça-feira (25), às 19h30min, em evento da ABS-RS na Fundação Pão dos Pobres, em Porto Alegre. Na mesma noite, a entidade realiza também a quarta edição de seu Leilão Beneficente, com o vinho exclusivo Chimas Número 4.
Cultura de sensibilidade
Repleto de camadas, o setor vitivinícola, além de técnica, exige sensibilidade; e, para a enóloga e sommelière Juliana Rossatto, 37 anos, é justamente nesse aspecto que as mulheres se destacam. Uma das principais vozes da Denominação de Origem (DO) da região de Altos de Pinto Bandeira, ela ressalta que um olhar atento às nuances que envolvem toda a cultura de produção e consumo do vinho é essencial para que o setor se fortaleça.
— Dada a minha especialização em viticultura, eu percebo que, além de termos nossa bagagem técnico-científica muito bem estruturada, nós temos um olhar de fomento ao território — observa. — Eu acho que o sexto sentido da mulher faz total diferença nessas avaliações — complementa.
A percepção de Juliana ganha ainda mais peso quando vista à luz do comportamento do mercado. Conforme o relatório IWSR Brazil Wine Landscapes 2025, publicado em fevereiro deste ano, as mulheres alcançaram a maioria do mercado consumidor de vinhos no Brasil em 2024 — um crescimento de 6% em relação a 2019. E esse movimento também se reflete em diferentes frentes do setor.
— É visível o avanço feminino, desde a mulher no vinhedo, que é mãe, agricultora, até a enóloga que está na cantina elaborando os vinhos, trabalhando na parte da qualidade, no enoturismo, sommeliers, confrarias femininas. Existem pesquisas mundiais que mostram que a mulher responde muito mais na hora da compra. Ela vem se tornando cada vez mais uma apreciadora de vinhos — destaca Lucinara Masiero.
Ter quatro delas indicadas é consequência natural da maturidade do setor.
CAROLINE DANI
Associação Brasileira de Sommeliers do Rio Grande do Sul (ABS-RS)
Apesar do crescimento e do reconhecimento, os desafios persistem. A engenheira de alimentos e sommelière Fernanda Spinelli, 39, que também preside a subcomissão de métodos de análise da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), lembra que seu início na instituição foi marcado por incertezas. Segundo ela, tanto o gênero quanto a idade fizeram com que ela se sentisse intimidada em alguns momentos.
— Eu sou uma das mulheres mais novas que atuam na OIV e, quando iniciei, foi bem difícil para mim, pois estava cercada por homens bem mais velhos do que eu — relata.
Com o tempo, porém, Fernanda encontrou caminhos para se afirmar. Para ela, os papéis femininos e masculinos no negócio são complementares, e sentir-se mais segura envolveu investir em si, aprendendo, por exemplo, a se maquiar de um modo que lhe conferisse um olhar mais austero e participando de cursos de oratória.
— Acho que é fruto da minha maturidade, não sentir medo de expressar a minha opinião em um ambiente majoritariamente masculino — analisa.
Cenário oposto
— Todas nós já ganhamos; nós quatro somos muito amigas — afirma Lucia Porto, 55 anos, indicada pelo segundo ano consecutivo na categoria Personalidade do Vinho pela ABS-RS. Com bom humor, a jornalista e publicitária gaúcha, sócia da plataforma Brasil de Vinhos, recorda que, no ano passado, quando também disputou o título, o cenário era o oposto: ela era a única mulher entre quatro finalistas homens.
Para Lucia, porém, o Prêmio está longe de ser uma competição, e sim um momento de conquista compartilhada — percepção que nasce de sua própria experiência. Ela observa que, em ambientes majoritariamente femininos, os acontecimentos costumam ganhar um tom mais leve.
— De alguma forma, a gente consegue fazer com que situações que às vezes podem ser adversas mudem — avalia. — E isso pode ser devido a uma maior sensibilidade ou mesmo ao humor — opina.
Acho que é fruto da minha maturidade, não sentir medo de expressar a minha opinião em um ambiente majoritariamente masculino
FERNANDA SPINELLI
Engenheira de alimentos, sommelière internacional e presidente da OIV
De acordo com a comunicadora, embora a forte presença feminina na premiação deste ano possa sugerir uma nova tendência, ela não define, necessariamente, os rumos das próximas edições. Ainda assim, para ela, essa representatividade reflete o cenário atual do setor.
— Esse ano eu visitei cerca de 14 regiões do vinho brasileiro, e, na maioria delas, quem estava à frente da vinícola eram mulheres — recorda.
Sempre presentes nos bastidores
É exatamente esse o cenário presenciado por Lucia que se reflete na trajetória dos Cristofoli, uma família de viticultores com mais de 135 anos de história em Faria Lemos, no interior de Bento Gonçalves.
Fundada por Loreno e Mário Luiz Cristofoli, a vinícola é hoje administrada pela quarta geração da família: os irmãos Bruna e Lorenzo (filhos de Loreno) e a prima Letícia (filha de Mário).
Aos 39 anos, Bruna, formada em Enologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) e responsável pela área comercial da empresa, considera que seu envolvimento no negócio da família aconteceu de forma natural:
— Eu toco a vinícola junto com meu irmão e minha prima, e nós crescemos aqui, junto ao negócio. Os nossos pais sempre nos deram algum trabalhinho para fazer, como limpar as pipas ou mesmo taças — conta. — Então, eu sempre tive essa vontade de opinar aqui dentro em relação ao o que eu via ao meu redor, o que acabou me guiando dentro desse meio muito naturalmente — complementa.
Ainda que se trate de um ramo tradicionalmente masculino, a jovem afirma que sempre se sentiu vantajosa por ser mulher. Além disso, pelo histórico da própria família, Bruna defende que quem faz a vinicultura, em sua gênese, são as mulheres.
— A minha avó materna, quando casou, costumava frequentar o vinhedo junto do meu avô para passar tratamento fitossanitário (procedimento especial para controle das pragas) do mesmo jeito que ele, e até mesmo fazendo as estradas dos vinhedos — comenta. — As mulheres sempre tiveram protagonismo, só que talvez sem tanta voz. Por trás, contudo, foram elas que sempre fizeram tudo girar.
*Produção: Juliana Farinati
