
Existem pessoas que parecem nascer predestinadas, e Heloísa Périssé é um desses casos: veio ao mundo para espalhar risadas por onde passa. Nem mesmo ao interpretar sua primeira vilã em uma novela a atriz deixou o humor completamente de lado. Após 10 anos longe da dramaturgia, em junho retornou como Zulma em Êta Mundo Melhor!, a dona de um abrigo de crianças que vive implicando com os pequenos, mas sempre com aquele tom cômico.
— Está sendo muito interessante essa minha primeira vilã. É uma mudança de paleta. Sempre foi um sonho fazer um trabalho com crianças e tinha vontade de fazer essa personagem, que é meio má, meio boba, mas também é engraçada.
Embora tenha se inspirado em vilãs de clássicos infantis como Matilda e Oliver Twist, a atriz destaca que Zulma também tem suas próprias camadas desafiadoras de interpretar.
— Embora a Zulma tenha aspectos engraçados, ela é uma pessoa muito voltada para si mesma, com questões, na minha opinião, mal resolvidas — reflete. — Acho que isso vem ainda da criança dela. Quem passa a perna na gente durante a vida é justamente a nossa criança mal resolvida.
Aos 59 anos, completados em agosto, a carioca acumula em seu currículo projetos icônicos, como a peça Cócegas – que ficou 10 anos em cartaz ao lado de Ingrid Guimarães –, os humorísticos Escolinha do Professor Raimundo e Zorra Total; a série Sob Nova Direção; a novela Avenida Brasil e, claro, a inesquecível adolescente Tati, do quadro Papo Irado, do Fantástico. Além disso, também deu vida a Dercy Gonçalves na minissérie biográfica Dercy de Verdade.
No entanto, neste ano, a artista ganhou mais um título para agregar à sua lista: o de “mãe da Trepa Trepa”. O hit Trap do Trepa Trepa viralizou em fevereiro, quando Heloísa participou com a filha Luísa Périssé no podcast Pé no Sofá Pod, apresentado por Flávia Alessandra e sua filha, Giulia Costa.
Durante a entrevista, Luísa aproveitou para apresentar uma canção descontraída composta em família. Embora pareça constrangida no vídeo enquanto ouve a performance, Heloísa se divertiu com a situação:
— Foi ótimo, realmente uma explosão. A gente tinha feito junto com a Tontom (caçula de Heloísa). Ela já cantava isso em festas de aniversário, em bares, e as pessoas morriam de rir. Todo mundo dizia: “Luísa, essa música vai pegar”. Quando ela cantou no podcast foi o suficiente para ser um sucesso.
A veia artística é forte na família de Heloísa. Sua primogênita, de 26 anos, não fugiu das origens humorísticas, herdadas tanto da mãe quanto do pai, o ator e comediante Lug de Paula, famoso por interpretar o Seu Boneco na Escolinha do Professor Raimundo. Já Antônia, que adotou o nome artístico de Tontom, decidiu focar na carreira musical.
Filha de Heloísa com o diretor Mauro Farias, com quem a atriz ficou casada de 2002 a 2024, a jovem de 19 anos recentemente embarcou para Berlim, na Alemanha, onde vai estudar música. No currículo, conta com um EP com faixas autorais e algumas apresentações ao vivo.
Orgulho das filhas é o que não falta no coração de Heloísa:
— Elas duas são eu. Cada uma num dia, cada uma de uma forma. Embora tenham pais diferentes, eu acho que elas têm sorte, porque o bom mestre faz o seu discípulo ser melhor. Elas são muito melhores do que eu.
O melhor ângulo
Apesar da carreira consolidada, Heloísa passou por períodos difíceis em sua vida pessoal recentemente. Em 2019, foi diagnosticada com câncer nas glândulas salivares, doença que exigiu uma cirurgia para remoção do tumor. Após isso, passou por sessões de quimioterapia e radioterapia.
Esse capítulo de sua vida foi compartilhado no livro Cheia de Graça: Uma Jornada de Humor, Amor e Cura. Na obra, a artista relata, em depoimentos à jornalista Isa Pessoa, como enfrentou e superou o câncer, ao mesmo tempo que mescla a sua trajetória até se tornar um dos grandes nomes do humor brasileiro e mensagens motivacionais.
— Valeu por 30 anos de terapia. Não imaginei que fosse ser tão forte assim, porque não é uma autobiografia, mas é um olhar para a vida, (sobre) como o humor foi importante neste momento delicado. Existem formas de passar por isso e escolhi olhar pelo melhor ângulo. Recebi muitos feedbacks positivos e era isso que eu queria: que essa minha história pudesse alcançar as pessoas em larga escala.
Em entrevista a Donna, Heloísa Périssé fala mais sobre como o humor se desenhou ao longo da sua trajetória e a importância da fé em sua vida.
Confira a entrevista com Heloísa Perissé
Você interpretou papéis muito marcantes na TV, especialmente em séries e programas humorísticos. Há um formato que você prefira?
Amo a minha profissão. Tanto é que, quando me perguntam o que eu prefiro – cinema, teatro, televisão –, eu digo: tudo. E escrever também, né? Que eu também escrevo. Então, a criação é o que me atrai. Esteja onde eu estiver, podendo criar, eu fico feliz.
Olhando para sua carreira, quando decidiu ser atriz, sempre teve interesse em seguir a linha da comédia? Como o humor se tornou parte da sua vida?
Certas coisas a vida escolhe você, e certas coisas você escolhe. O humor é algo que te escolhe, é como um dom. É como alguém que pinta bem, que desenha bem, alguém que é bom em matemática.
Não posso nem dizer que foi uma escolha, acho que se desenhou ao longo da minha vida. Já era aquela criança engraçada, que imitava as pessoas, porque todas as crianças comediantes são assim. Às vezes, são pessoas muito tímidas, que têm apenas um olhar, e, ao longo da vida, isso se desmonta. Mas sempre fui basicamente isso que sou hoje.
Você acha que o humor feminino ganhou mais espaço nos últimos anos? Como foi estar nesse mercado antes desse crescimento?
A mulher vem conquistando um outro lugar, saindo dessa posição de objeto. Antes era assim: a gostosa era o objeto de desejo e a feia era a engraçada. A mulher deu um tchau a esse lugar e vem ganhando espaço e liberdade, porque o humor também tem uma alma machista. Antes combinava mais um homem falar uma bobagem, fazer um comentário irônico, do que uma mulher. Só que hoje em dia já vemos isso de outra forma. As mulheres comediantes vêm com essa força de transformar.
Quais mulheres comediantes você tem acompanhado?
Tem a que faz o espetáculo King Kong Fran (criação da atriz e palhaça Rafaela Azevedo), acho que ela tem um olhar bastante inteligente; a Luana Zucoloto, a Lara Santana; a minha filha Luísa (risos), e a Castorine, que também é uma excelente comediante.
Qual é sua visão sobre o papel das redes sociais para os artistas? Você se diverte com elas ou as vê apenas como ferramentas de trabalho?
A gente pode se divertir muito com a internet, que também pode ser uma ótima ferramenta de trabalho. Pode encontrar dicas boas e, ao mesmo tempo, compartilhar experiências positivas. Claro que a internet também tem seu lado ruim. Isso é paradoxal: bem e mal quase dividem igualmente os espaços. Mas nós viemos com o poder da escolha. Quando optamos por nos divertir e buscar dicas boas, o resultado pode ser muito bom.
Você fala muito sobre fé, certo? O que ela significa na sua vida?
A fé é tudo para mim. Martin Luther King dizia que ter fé é subir o primeiro degrau de uma escada sem ver o resto. Então, é viver o sobrenatural. É aceitar com resiliência aquilo que se configura na sua vida, crendo que Deus é bom e que ali há um propósito, não só para você, mas para o universo. Somos todos conectados.
Então, aquilo que impacta em mim impacta em todos e vice-versa. É como digo às minhas filhas: “o plantio é aleatório, mas a colheita é certa”. São muitas coisas em nós que ainda não acessamos, e o ser humano faz uma confusão, bota tudo no mesmo saco. Mas estamos evoluindo.
Suas filhas também estão seguindo carreiras artísticas. Como tem sido acompanhar essa jornada delas?
A Luísa não tem jeito, né? Ela é minha filha, o pai dela é o Lug de Paula, o avô era Chico Anysio, a madrinha é Ingrid Guimarães e o tio é Bruno Mazzeo. Cresceu nas coxias do Cócegas. Essa coisa do humor está no sangue. Claro que ela podia ser tudo isso e não ser comediante, podia ser médica, mas, graças a Deus, ela teve bom senso (risos).
E a Tontom foi para o lado da música, sempre foi uma criança muito musical. Acho que minhas filhas fizeram ótimas escolhas. Nunca me meti na vida delas sobre o que quisessem ser, só apoio.
Como você mantém sua saúde, beleza e bem-estar?
Com Monjauro (risos). Mentira. Sempre fui muito ativa e atenta à minha saúde. Amo ter uma rotina de exercício físico: danço, faço ginástica localizada e musculação. Só que hoje entendo que saúde não é só física: ela também alimenta a mente, o corpo e o espírito. Então, procuro manter uma alimentação equilibrada, ler coisas boas que alimentam minha mente de forma positiva e cuidar da parte espiritual, que, para mim, é fundamental, que é a oração.
Ao refletir sobre sua vida e carreira, o que você ainda gostaria de realizar?
Ah, eu gostaria de pegar minhas peças e transformar em filmes. Ano que vem vai sair Amigos em Fuga – Tarde Demais para Frear, que é um longa baseado numa peça minha, com direção do Mauro Farias, meu ex-marido, e com Ary Fontoura, Luís Miranda, Du Moraes, Estela Miranda, Patrícia Travassos e Jonas Bloch.
Gostaria muito de trabalhar com jovens. Quero ter grupos que realizem minhas peças ou até ser patrocinadora de novos projetos e pessoas novas. É isso: abrir caminho para novos talentos da comédia.




