
Falar sobre finanças ainda é um dos grandes tabus entre casais. O romantismo costuma dar lugar a cálculos frios: metade para cada um, proporcional à renda ou tudo nas mãos de quem ganha mais. As fórmulas podem variar, mas a dificuldade em abordar o tema permanece. No entanto, especialistas ressaltam que a saúde financeira é essencial para uma vida a dois mais tranquila e alinhada.
Além de planilhas detalhadas ou anotações na ponta do lápis, conversar sobre dinheiro exige transparência, organização e sintonia de prioridades. Metas desalinhadas, desequilíbrio na divisão das despesas ou até segredos sobre ganhos e gastos podem transformar as finanças em fonte de atrito.
— A vida financeira do casal não é apenas sobre somar rendas e pagar contas. Envolve valores, expectativas, hábitos e decisões que são intertemporais. Uma boa arquitetura financeira reduz conflitos, aumenta a previsibilidade e cria uma base para objetivos de longo prazo, como moradia, filhos, viagens e independência — defende o economista e professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Rafael Disconzi.
Organizar essa esfera pode exigir conversas desconfortáveis entre o casal. Para a psicóloga e terapeuta de casais Daniela Würth, os dois podem atribuir significados e pesos diferentes para o dinheiro, em decorrência dos aprendizados com a família de origem ou de experiências passadas. Entender de onde o outro vem é essencial para colocar as finanças em ordem.
— O dinheiro não é simplesmente um papelzinho que a gente utiliza. A gente vai ver como um lugar de status e de poder, na vida e nas relações. Pode ser um meio para cuidar do vínculo com outras pessoas, trazer afeto, vir como uma questão de investimento em saúde, qualidade de vida. Ou até de risco, incerteza, angústia, quando tem algum conflito já existente ou dívida — analisa Daniela.
Se uma pessoa viveu uma infância marcada pela escassez ou enfrentou uma grande perda financeira na vida adulta, essa bagagem pode impactar a sua relação com o dinheiro. Da mesma forma, acrescenta Daniela, quem cresceu em uma família com muitos recursos tende a encarar as finanças com mais leveza e segurança. Esse alinhamento depende da disposição do casal em compreender a perspectiva do outro e da abertura para questionar crenças que possam atrapalhar.

Em relações heteronormativas, a psicóloga pontua que o gênero também pode influenciar a forma com que as pessoas lidam com o financeiro:
— Se a gente pensar em termos de cultura, as mulheres são mais acostumadas e mais cobradas a ter um olhar de cuidado com pessoas do entorno dela. Elas têm mais cautela na hora de investir, podem emprestar dinheiro para ajudar um familiar ou reservar para as necessidades da família. Costumam ter um nível menor de oportunidades de boa remuneração. Os homens, geralmente, são mais encorajados a competir, têm uma visão mais voltada para aprender a investir e multiplicar o dinheiro, então podem assumir mais riscos. E, também, têm mais acessos a empregos bem remunerados.
Como dividir as finanças?
Em alguns casais, não há divisão: as despesas ficam concentradas em uma única pessoa — seja por uma questão cultural, por diferença de remuneração ou porque a outra parte está desempregada. Especialistas afirmam que, entre aqueles que optam por repartir as contas, há cinco métodos mais comuns.
Na divisão proporcional, também chamado de pro rata, cada indivíduo contribui para as despesas conforme o que ganha. Por exemplo, se um casal tem um ganho de R$ 7 mil e R$ 3 mil e a despesa total da casa é R$ 4 mil, quem ganha mais pagaria 70% (R$ 2,8 mil) e quem ganha menos pagaria 30% (R$ 1,2 mil).
Esse foi o método escolhido pela engenheira de suporte Mariana Castilhos, 24 anos, e pelo auditor Leonardo Almeida, 27. Quando decidiram morar juntos, há quase um ano, conversaram sobre os ganhos e gastos de cada um. Optaram por somar todas as despesas da casa e dividir proporcionalmente aos salários.
— Quando decidimos morar juntos, ficamos pensando: “como vamos fazer isso?”. Porque meio a meio não parecia uma boa ideia. Decidimos fazer essa divisão proporcional porque faz mais sentido. Até para um não tirar uma quantia muito maior do que ganha e ter que gastar todo o salário com questões da casa — defende Mariana, que é a responsável por monitorar a situação financeira dos dois.

Para Disconzi, professor da PUCRS, a divisão proporcional é um dos modelos mais justos para quando há assimetria de rendas:
— Para casais com diferenças significativas de rendas ou com compromissos pessoais distintos, como pensão ou dívidas prévias, pode ser mais adequado. Preserva a autonomia para gastos individuais. Por outro lado, tem uma desvantagem. Pode gerar a sensação de uma contabilidade mais fria. Então, se o tema não vier acompanhado de metas conjuntas, existe um controle mais frequente para reajustar proporções quando as rendas mudam, à medida que se vai evoluindo na carreira.
Mariana e Almeida têm planos de viajar juntos no próximo ano. Para isso, criaram uma conta conjunta onde depositam dinheiro todos os meses para realizar esse sonho. Com frequência, conversam sobre as finanças para avaliar os investimentos no apartamento onde vivem, na zona leste de Porto Alegre, ou para viabilizar a viagem.
— Recentemente, minha condição salarial mudou, a gente discutiu de novo, e reajustou as contas. Ainda nessa questão da proporcionalidade, que funciona bem. Então se eu vou ter um ganho maior naquele mês, ou ela vai receber uma promoção, a gente repensa — acrescenta o auditor.
Outros métodos comuns
A divisão igualitária – cogitada e descartada por Mariana e Almeida – também é comum. Nesse modelo, cada um paga a mesma fração das despesas compartilhadas, independentemente da renda individual. Disconzi pontua que, embora seja mais simples e possa reforçar a percepção de parceria, pode ser injusto quando a renda dos dois é muito desparelha.
Outro cenário possível é o da conta conjunta. O casal concentra em uma única conta as receitas ou parte delas, como salários e rendimentos extras. Dessa conta saem tanto os gastos do dia a dia quanto os investimentos em metas maiores.
— A vantagem desse terceiro modelo é a transparência integral. Os dois têm uma visão consolidada de fluxo de caixa, facilitação no planejamento, no que tange metas, investimentos, seguros, e também reduz a duplicidade, no que tange tarifas, anuidades. A desvantagem é o eventual risco de perda de autonomia. Se não houver uma regra clara sobre gastos específicos, pode gerar algum conflito — alerta o professor.
Ao contrário deste modelo, há quem prefira manter as contas separadas. As despesas comuns são divididas individualmente — por exemplo, uma pessoa paga a conta de água e a outra, a de luz. Esse método pode preservar a autonomia e reduzir atritos causados pelos gastos pessoais. No entanto, o professor da PUCRS alerta que essa separação pode dificultar o alcance de objetivos em conjunto.
O último método é o modelo híbrido:
— Ele combina a conta conjunta para o essencial, como moradia, alimentação e saúde, e contas separadas para gastos pessoais. A contribuição na conta conjunta pode ser proporcional ou igualitária. Os pontos positivos são que equilibram a transparência e a autonomia. O negativo é que demanda desenhos explícitos de regras — pontua Disconzi.
Conversar, calcular e reajustar
Mariana se considera mais “mão fechada”, enquanto Almeida brinca que é consumista e gosta “de se mimar”. Apesar das diferenças, os dois têm objetivos em comum. Para o professor Disconzi, é essencial que os casais alinhem seus perfis, expectativas e planos antes de decidirem o formato de divisão das contas. A terapeuta de casais Daniela Würth reforça que esse alinhamento não significa abrir mão dos sonhos individuais.
— É preciso saber olhar para a pessoa que está na nossa frente, entender as demandas, individualidades e questões que ela vai precisar investir para se realizar como pessoa. Assim como nós também. Então é importante ter o espaço individual para metas, mas também estabelecer metas juntos, como casal, para termos a construção da conexão a longo prazo.
Com diálogo aberto e transparente, o casal pode colocar na ponta do lápis todas as receitas e despesas para avaliar qual modelo de divisão funciona melhor. Esse também é o momento de definir quanto será destinado a sonhos (coletivos e individuais), investimentos, aposentadoria e reserva de emergência, além de estabelecer limites de gastos para diferentes áreas.
Disconzi recomenda que o casal marque reuniões mensais para revisar as finanças, verificar se as regras do acordo estão sendo cumpridas e avaliar se há necessidade de ajustes para o mês seguinte. Dificuldade em alcançar metas nos prazos estabelecidos ou sentimentos de injustiça e ressentimento podem ser sinais de que o método adotado precisa ser revisto.



