
Há não muito tempo, a menopausa era associada à imagem de mulheres idosas, que já eram avós e estavam afastadas da vida ativa. Hoje, muitas atravessam essa fase em plena carreira, com filhos em idade escolar, cuidando da saúde e contribuindo para a sociedade. Essa mudança de percepção pode estar conectada ao esforço de profissionais da saúde, artistas e celebridades para quebrar o tabu em torno do tema.
Para Kátia Olivieri, psicóloga especializada em saúde mental feminina, as gerações atuais jogam luz sobre a temática que, por muito tempo, foi permeada pelo silêncio. Ela cita livros escritos por cientistas, jornalistas ou pessoas leigas que decidiram compartilhar as experiências, além de peças, filmes, séries e podcasts que também buscam abordar essa fase de transição na vida das mulheres.
— Temos visto essas grandes personalidades, como Cláudia Raia e Angélica, por exemplo, compartilhando as vivências e os sintomas que sentem. Aí você vê uma Fernanda Lima falando que teve queda de libido tendo um marido como o Rodrigo Hilbert e você pensa “não estou tão estranha assim”. Se elas, que têm acesso a tudo que há de mais novo em termos de tratamento, estão sentindo que esse período mudou a vida delas, gera uma identificação com o público — avalia.
A menopausa e o climatério no Brasil
Caracterizada pela interrupção definitiva da menstruação e pela queda na produção hormonal, a menopausa marca o fim da fase reprodutiva da mulher, ocorrendo geralmente entre os 45 e 55 anos. O climatério é o período de transição que ocorre antes e depois da menopausa, marcado por alterações hormonais, sintomas físicos e psicológicos. Essa etapa, segundo Letícia Voigt, ginecologista do Centro da Mulher do Hospital Moinhos de Vento, pode durar, em média, sete anos.
Minha avó sempre dizia “se você não fala, o assunto não existe”. E se não existe, não gera demanda por produtos ou serviços. Então precisamos falar sobre isso.
KÁTIA OLIVIERI
Psicóloga especializada em saúde mental feminina
Não há dados precisos sobre quantas mulheres no Brasil vivem a menopausa ou o climatério. Segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 28,1 milhões de brasileiras têm entre 40 e 59 anos – faixa etária em que podem estar passando por essa transição. O órgão estima que, até 2060, 47% das mulheres brasileiras terão mais de 50 anos.
Além disso, a pesquisa Perfil de mulheres brasileiras no climatério: resultados do Estudo Brasileiro da Menopausa, publicada na revista científica Climateric em 2022, aponta que 87,9% das entrevistadas apresentam algum sintoma que impacta a qualidade de vida. O estudo também revelou que 52,1% das participantes fazem algum tipo de tratamento para aliviar esses efeitos.
— Nem toda mulher climatérica vai ter passado pela menopausa e nem toda mulher que já passou pela menopausa vai ter sintomas importantes do climatério. Alguns sinais começam mais cedo, outros mais tarde. Elas podem ter as ondas de calor, chamados de fogachos, ressecamento, mudanças de pele e cabelo, diminuição de libido, depressão e ansiedade, por exemplo — acrescenta Letícia.
Falar sobre climatério é essencial, garantem as especialistas
Com mulheres cada vez mais ativas profissional e socialmente, Kátia e Letícia defendem que falar sobre os impactos físicos, emocionais e hormonais dessa transição torna-se fundamental. A ginecologista pontua que, nos últimos 20 anos, novas análises e estudos surgiram e possibilitaram um debate mais qualificado:
— A menopausa tem se tornado um tema mais frequente em materiais de atualização médica. No ano passado, foi lançado o novo Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério, que mudou um pouco a visão de ginecologistas, endocrinologistas e outros profissionais que atuam com saúde feminina. A Sociedade Brasileira de Cardiologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia fizeram, juntos, um material sobre saúde cardiovascular da mulher, principalmente nesse contexto de climatério. Isso ajuda a ter mais embasamento.
Se, por um lado, o avanço científico amplia o repertório de informações disponíveis para médicos e profissionais da saúde, por outro, persiste o desafio de traduzir esse conhecimento em experiências cotidianas para as mulheres. Entre protocolos e consensos atualizados, permanece a vivência prática de quem atravessa essa transição – muitas vezes carregada de dúvidas e inseguranças.
Segundo as especialistas, essa fase costuma ser marcada por um sentimento de estranheza. As mulheres têm dificuldade de se reconhecerem em meio a tantas mudanças. Por isso, a psicóloga defende que falar sobre a saúde mental durante o climatério também é importante para evitar a solidão e encontrar formas de lidar com a depressão, ansiedade e irritabilidade.
— Essa coragem que essas mulheres começaram a ter para falar disso, somada à velocidade que temos nas redes sociais, era o que precisávamos para diminuir o tabu e gerar identificação. Consequentemente, a própria mídia se sente pressionada a falar mais sobre, as editoras e pesquisadores começam a olhar mais para essa área. Minha avó sempre dizia “se você não fala, o assunto não existe”. E se não existe, não gera demanda por produtos ou serviços. Então precisamos falar sobre isso — conclui Kátia.

