
Em um complexo esportivo no Jardim do Salso, zona norte de Porto Alegre, um grupo de mulheres de diferentes idades se reúne, toda segunda segunda-feira do mês, para passar duas horas literalmente tirando os pés do chão. Intitulado de Treinão das Gurias, o encontro mensal recebe sócias e não sócias da Associação Gaúcha de Montanhismo (AGM) para uma noite de escalada e descontração.
Criado no início de 2024, o Treinão das Gurias surgiu da vontade das associadas de fortalecer vínculos femininos por meio do esporte e de fornecer o primeiro contato de outras mulheres com a escalada. A modalidade ainda é predominantemente masculina: segundo o Censo da Escalada 2023, divulgado pela Associação Brasileira de Escalada Esportiva (ABEE), 67,3% dos praticantes são homens.
Segundo a analista financeira Luciana Moura, de 40 anos, desde que ingressou no esporte e na AGM, em 2019, percebe um crescimento significativo no número de mulheres praticando a escalada. Para a associada, o movimento foi impulsionado pela estreia da modalidade nos Jogos Olímpicos de 2020.
— Quando comecei a escalar, há seis anos, havia poucas meninas. Desde então, vi essa participação feminina crescer exponencialmente — observa. — Hoje, acredito que a procura vem aumentando em virtude de uma maior divulgação e também por ter se tornando um esporte olímpico, desde as Olimpíadas de Tóquio.
A entrada nas Olimpíadas deixou o esporte mais “na vitrine”. E teve uma procura bem maior também.
MAUREM MARCONDES
Doutora em Odontologia Estética e associada da AGM
Embora reconheça esse crescimento, Luciana destaca que os caminhos da escalada feminina foram abertos há muito tempo por pioneiras como a alpinista estadunidense Lynn Hill, e continuam sendo trilhados por atletas como a eslovena e medalhista olímpica Janja Garnbret.
Luciana comenta que iniciativas como o Treinão das Gurias são fundamentais para fortalecer a união entre as mulheres e estimular a troca de experiências.
— Quando escalamos juntas, percebemos que temos desafios semelhantes e, ao mesmo tempo, vemos que somos capazes de muito mais do que pensávamos — elabora.
Diferenças
Hoje, a prática da escalada já não causa tanto estranhamento. Para a cirurgiã-dentista Maurem Marcondes, de 49 anos, associada e colaboradora ativa da AGM, a visibilidade da modalidade despertou o interesse de novas pessoas pela prática.
— Até então, quando me perguntavam: "Ah, o que tu faz de esporte?”, e eu respondia: “Faço escalada”, as pessoas sempre reagiam: "O quê? Escalada?” — relembra. — Então, com certeza, a entrada nas Olimpíadas deixou o esporte mais “na vitrine”. Teve uma procura bem maior também. Tanto na nossa associação, quanto em outros lugares de escalada aqui em Porto Alegre.
Com o crescimento do interesse pelo tema, também surgem dúvidas como: "Escalada e montanhismo são a mesma coisa?" ou "O que é boulder?". A escalada, na verdade, é uma modalidade dentro do montanhismo — um conceito mais amplo que engloba atividades como caminhar, subir e explorar montanhas.
Já quando praticada ao ar livre, em montanhas e paredões rochosos, a escalada ganha caráter recreativo ou de desafio pessoal. Foi assim com Luciana Moura, que no início encontrou dificuldades e chegou a pensar que não conseguiria evoluir. Com tempo e treino, porém, descobriu que era capaz de realizar feitos que antes pareciam inatingíveis, como escalar o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.
— Sempre gostei de atividades outdoor, trilhas e cachoeiras. A escalada em rocha une esporte e natureza. Desde a primeira vez que experimentei (a escalada), foi paixão à primeira vista — reflete.
Quando a gente não está bem, a escalada não sai bem. Quando a gente entende isso, entende também o nosso estado e o nosso jeito de escalar.
MAUREM MARCONDES
Doutora em Odontologia Estética e associada da AGM
Maurem comenta que, na sede da associação, pratica-se principalmente a escalada esportiva indoor na modalidade boulder — que integra, junto com a velocidade (speed) e a dificuldade (lead), as três principais categorias da escalada. A principal diferença entre elas está no tipo de desafio.
O boulder exige força e técnica em movimentos curtos e intensos, realizados em paredes baixas; o lead demanda resistência para avançar em paredes altas com corda; já o speed é uma corrida cronometrada em parede padronizada, vencendo quem alcança o topo primeiro.
— Sobre a questão dos jogos, o esporte ficou um pouco diferente do que são os campeonatos mundiais. Porque, nas Olimpíadas, eles fizeram as três modalidades acontecerem juntas — menciona Maurem. — Então, assim, o que aconteceu nas Olimpíadas, não representa o melhor de uma modalidade.
Gaúcha é a mais jovem brasileira a escalar sem queda
Falando em paixão e contato com a natureza, a união desses dois elementos marcaram a trajetória da gaúcha Amanda Criscuoli na escalada. Aos 18 anos, a atleta tornou-se a mais jovem brasileira a escalar sem quedas vias de graduação 10a — conquista que a consagrou como a primeira mulher a completar essa via —, além de ter vencido rotas de 9b, 9a, 8a, 7a e 6a.
Na escalada, “vias” ou “rotas” são os caminhos pré-definidos em uma parede de rocha; cada uma recebe uma graduação numérica que indica o nível de dificuldade, sendo que quanto maior o número, mais técnica e força exigem do atleta.
A familiaridade de Amanda com esses desafios vem de longa data. Sua trajetória começou ainda na infância, acompanhando os pais — Deivis e Fabiane — em treinos ao ar livre e em ginásios. Em busca de um esporte para praticar em família e em contato com a natureza, eles adotaram a atividade como hobby há mais de 20 anos.
— Quando era criança, fiz muitos esportes. Testei vários, mas acabei me apaixonando mesmo pela escalada. Foi uma coisa muito natural, porque era uma coisa que vivia muito. Estava todo o final de semana escalando — relembra Amanda.
Nas competições, Amanda estreou aos oito anos. Atualmente, a atleta está em Barcelona, na Espanha, treinando para o próximo Campeonato Brasileiro de Escalada, que ocorre nos dias 17 e 19 de novembro, em Curitiba.
Para ela, os benefícios do esporte são inúmeros, tanto físicos quanto mentais:
— A gente tem uma visão muito clara dos níveis de dificuldade, porque nós dispomos de todos os caminhos que temos para subir. Isso proporciona uma visão muito clara de que nível tu consegue escalar e qual é o próximo. A escalada trabalha essa questão de buscar uma constante evolução. Desperta essa coisa de “quero ser melhor”.
Amanda relata que parte desse processo ocorre porque a escalada funciona, muitas vezes, como um espelho, refletindo as fraquezas do atleta. É na rocha ou no paredão que se identificam medos, inseguranças e desafios relacionados à mobilidade.
Quanto a isso, Maurem Marcondes compartilha de uma percepção semelhante.
— Quando vou para a rocha, eu vou para me equilibrar, e é interessante que quando a gente não está bem, a escalada não sai bem — pontua. — Quando a gente entende isso, entende também o nosso estado e o nosso jeito de escalar. Então, é como se o próprio esporte te desse um feedback mental, sabe? Todo o tempo.
Esporte como gesto político
Nacionalmente, o esporte também tem ganhado maior destaque. Em junho deste ano, o Parque Estadual dos Pirineus, localizado entre as serras de Cocalzinho e Pirenópolis, em Goiás, foi palco do Festival Cocalcinhas – o maior festival feminino de escalada do Brasil. Em sua 9ª edição, o evento reuniu 300 participantes, sendo 180 mulheres.
Criado de forma improvisada em 2011 como uma resposta à estrutura tradicionalmente masculina da escalada, o festival hoje conta com uma equipe organizadora formada pelas escaladoras Luisa Resende, Erika Carvalho, Mariana Eloy, Isabela Levi e Jordana Agapito.
— A escalada, como muitos outros esportes de aventura, sempre foi moldada por uma cultura predominantemente masculina, o que muitas vezes gera barreiras de acesso, não apenas físicas, mas também sociais e emocionais — observa Luisa, de 30 anos.
A empresária complementa:
— O Cocalcinhas nasce como uma resposta a essas barreiras, um espaço de visibilidade, onde as mulheres não só se veem representadas, mas também podem construir juntas sua identidade coletiva dentro do esporte.
Esse movimento acolhe e gera um pensamento do tipo: "Se tem uma mulher sendo a melhor escaladora do mundo, eu também posso escalar.
AMANDA CRISCUOLI
Atleta de Escalada Esportiva
Além da prática esportiva, o Cocalcinhas também se apresenta como uma proposta de experiência emocional, social e cultural. Com duração de três dias, o encontro promove rodas de conversa, workshops e atividades artísticas — como apresentações musicais e concursos de fotografia.
Segundo Luisa, os bate-papos têm como objetivo criar um espaço de reflexão sobre temas relevantes, como machismo, racismo e capacitismo no ambiente da montanha.
— Tudo isso fortalece o senso de comunidade. Nossa ideia é expandir e diversificar cada vez mais essas atividades, levando também para fora do evento — comenta a atleta. — Ainda temos uma barreira muito grande, que é a limitação de recursos. Nesse sentido, fundamos o Instituto Rizoma Urbano, uma organização sem fins lucrativos que busca garantir, por meio de captação de recursos via leis de incentivo, editais e outras iniciativas, não só a continuidade do festival, mas também ações fora dele.
Iniciativas semelhantes ocorrem na sede da AGM, onde são promovidos debates sobre questões do universo feminino que se conectam ao esporte, como a maternidade e os ciclos menstruais. Já os workshops e oficinas funcionam como espaços de expressão e compartilhamento de experiências.
Qual é o futuro da escalada feminina?
Para as organizadoras do Cocalcinhas, o futuro da escalada é promissor. Cada vez mais surgem iniciativas semelhantes ao festival, como coletivos regionais e academias comprometidas com a diversidade. Elas acreditam que a tendência é tornar o esporte mais acessível, representativo e plural.
— Queremos ver mais mulheres nas rochas, nas trilhas, nas lideranças, nas decisões. E, mais do que isso, queremos que todas possam escalar com segurança, respeito e liberdade — ressalta Luisa.
— Quando uma mulher vê outra escalando um grau alto, abrindo um boulder, guiando uma via, tomando decisões técnicas, incentivando companheiras, ela se reconhece e se fortalece — completa.
Nessa busca por autonomia social e cultural numa prática esportiva que começa, enfim, a ser redefinida, a resposta para que as mulheres se sintam bem-vindas e representadas na escalada parece simples: é preciso que elas estejam presentes no muro. Pelo menos é isso que defende Maurem Marcondes:
— Eu comecei a escalar há 13 anos e fui super bem-vinda, mas acho que hoje temos muito mais mulheres no meio, e isso torna o engajamento mais fácil.
Luciana e Amanda compartilham uma visão parecida. Para elas, a existência de referências e de iniciativas que incentivem a presença feminina na rocha é essencial para fortalecer essa cultura.
— Esses movimentos e encontros femininos são importantes para reforçar a união entre as mulheres e promover a troca de experiências — compartilha Luciana.
— Nós temos referências muito legais, e isso é incrível. Acho que esse movimento acolhe e gera um pensamento do tipo: “Se tem uma mulher mandando muito e sendo a melhor escaladora do mundo, eu também posso começar a escalar” — conclui Amanda.
*Produção: Juliana Farinati




