A eleição, pela primeira vez na história da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), de uma mulher para o cargo de reitora — posto agora ocupado por Martha Adaime, tendo Tiago Marchesan como vice-reitor — consolidou um fato inédito no Rio Grande do Sul: a forte presença de líderes do sexo feminino no posto supremo das instituições federais gaúchas.
A presença de mulheres nas reitorias nunca foi tão expressiva nas universidades federais: das seis instaladas no Estado, cinco serão comandadas por reitoras. Entre os três institutos federais gaúchos, apenas um — o Instituto Federal Farroupilha (IFFar) — conta com uma mulher na liderança: Nídia Heringer, reeleita em 2024. Em nível nacional, contudo, elas ainda são minoria: dos 109 institutos e universidades federais, apenas 39 têm reitoras, o que corresponde a 35,9%.
Mas, se hoje a maioria é delas em solo gaúcho, até o início da década de 1990 nunca havia existido uma reitora mulher no Estado. A pioneira foi Wrana Panizzi, que comandou a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) entre 1996 e 2004. Logo em seguida, em 1997, Inguelore Scheunemann passou a liderar a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), permanecendo na administração também até 2004.
Aposentada desde o ano passado, Wrana mantém em seu apartamento lembranças de uma época desafiadora, mas cheia de afeto. Na parede, uma manchete emoldurada de Zero Hora recorda aquela que foi a marca da sua gestão: “As 500 formaturas de Wrana”. O número, na verdade, fechou em 521.
Durante seus dois mandatos, a reitora inaugurou o hábito de comparecer a todas as formaturas da UFRGS, costume retomado pela atual reitora, Márcia Barbosa, que reveza a presença com o vice-reitor, Pedro Costa.
— Eu não vou dizer que não me cansava: tinha finais de semana em que eu tinha sete, oito formaturas. Uma vez, deixei de ir a uma, porque tinha uma reunião em Brasília. Me arrependi e nunca mais faltei — conta Wrana.
O motivo para tanto empenho era a consciência da importância daquele momento para os alunos e suas famílias – sinal disso é que, até hoje, mais de duas décadas após o encerramento de seu mandato, a ex-reitora é abordada por antigos formandos e suas mães e avós, que nunca esqueceram seu rosto.
— Eu sempre tive clareza de que muito pouca gente chega a concluir um curso superior no país. Aumentou bastante, mas ainda é uma luta. Então, para as famílias, aquele é o dia mais importante. E, para a universidade, é um dia de celebração do conhecimento e da oportunidade de o conhecimento ser mais democrático — afirma a professora.
Ser pioneira, contudo, também teve suas agruras. Wrana, hoje com 75 anos, lembra de algumas histórias representativas, como o dia de sua primeira reunião no Conselho Universitário (Consun) depois da posse. O órgão é sempre presidido pelo reitor – ou reitora – da instituição.
— O conselho era composto, em sua maioria, por homens. Quando me sentei, a cadeira não havia sido feita para qualquer pessoa: tinha sido feita para um homem. Então, tive dificuldades. Lembro que minhas pernas não alcançavam o chão. Na reunião seguinte, pedi que arranjassem uma almofada para eu ficar um pouquinho mais alta, porque, senão, aparecia só a minha cabeça — recorda a ex-reitora.
Para Wrana, a presença de mulheres em cargos de comando ainda causa espanto.
— Vocês não estariam aqui, fazendo essa reportagem, se não tivessem um certo espanto. Hoje, você encontra as mulheres no campo da política, por exemplo, mas ainda são poucas. E, muitas vezes, criticadas. E, muitas vezes, tendo que fazer força para serem ouvidas — provoca a docente.
Márcia Barbosa, reitora da UFRGS, se dedica há anos a estudos relativos à participação de mulheres na ciência. Recentemente, submeteu um artigo com dados atualizados sobre a ascensão das profissionais ao longo da carreira.
— Em algumas áreas há menos mulheres, como a física teórica e a computação, mas, mesmo naquelas em que há muitas mulheres, à medida que se sobe na carreira, o percentual feminino diminui — destaca Márcia.

Em uma análise dos últimos 25 anos, o crescimento do número de pró-reitoras, por exemplo, foi superior ao de reitoras. Outro ponto que chamou a atenção da pesquisadora foi o crescimento percentual mais acelerado de mulheres no cargo máximo das instituições em dois momentos: no período em torno de 2008, quando houve uma expansão no número de universidades e a criação de institutos federais por meio do programa Reuni, e ao longo do governo Dilma Rousseff.
— Quando se vê uma mulher no poder, pensa-se: “Então dá. Se ela pode, por que eu não posso?”. Por isso é tão importante ter mulheres em posições de liderança: porque elas ajudam as outras que ainda não estão lá, ou mesmo as meninas que querem seguir carreira acadêmica, a pensar “ó, se ela pode, eu posso” — explica a reitora da UFRGS.
Ineditismo

Na UFSM, Martha Adaime atribui sua chegada ao cargo a uma trajetória longa e coletiva. Com carreira consolidada na área da Química e vasta experiência na gestão acadêmica, incluindo o cargo de vice-reitora, tornou-se um nome natural para liderar a instituição. Mesmo com a conquista, porém, não esconde o peso do ineditismo: em 64 anos de história, a universidade jamais havia sido liderada por uma mulher.
— É simbólico, sim. E, nesse sentido, também é uma grande responsabilidade. Porque eu sei que estou abrindo caminhos para outras mulheres que virão — vislumbra a reitora.
Apesar da demora para se alçar uma mulher ao cargo máximo da instituição, a UFSM viu crescer, desde 2013, o índice de pessoas do sexo feminino em postos de alta gestão, como pró-reitorias e coordenações, de 29% para 48%. Para a futura reitora, que inicia o mandato em janeiro, chama a atenção a reação dessas líderes.
— Quando a gente convida mulheres para ocupar cargos de pró-reitoras, pró-reitoras substitutas, coordenadoras, a primeira pergunta que vem é: será que eu tenho capacidade? Por quê? Porque realmente é uma quebra de cultura. Elas nunca estiveram nesses lugares. A quebra desse paradigma é extremamente importante para mudar essa realidade. As mulheres precisam compreender que podem – e devem – ocupar esses espaços de poder — pontua Martha.
Entre ascensões e inclusões

Diferentemente da realidade das outras federais gaúchas, a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) só teve mulheres, desde sua criação, no comando da reitoria. Fundada em 2008, a instituição já esteve sob a liderança de Miriam da Costa Oliveira (2008–2017), Lucia Campos Pellanda (2017–2025) e, desde março, de Jenifer Saffi. Focada na área da saúde, a universidade também tem 71,7% da sua comunidade composta por mulheres.
Mesmo em um contexto de maioria feminina, Jenifer aponta alguns obstáculos à permanência e à ascensão das mulheres ao longo da carreira. Um deles é a maternidade.
— Quando engravidei, minha mãe achava que minha carreira tinha acabado. Eu era jovem, tinha 27 anos e estava no final do doutorado quando meu filho nasceu. Fui muito privilegiada, porque meu filho acabou tendo quatro avós: duas avós e duas tias-avós, além do pai, que foi super parceiro. Quando a gente sente essa parceria, isso nos encoraja também. Mesmo assim, não foi fácil — descreve a reitora da UFCSPA.
Para Jenifer, políticas públicas específicas ainda são fundamentais para que mais mulheres negras, indígenas e de baixa renda tenham acesso a esses espaços.
— A equidade de gênero também não é só isso. A gente precisa avançar em ações afirmativas para poder encorajar essas mulheres que ainda não conseguem chegar. As mulheres não sabem o poder que têm. E, quando a gente se junta, a gente consegue não só se fortalecer pessoalmente, mas fortalecer o próprio grupo — resume a gestora.
Entre ações e avanços

As próprias reitoras têm apostado na união para se fortalecerem. Por iniciativa de Lucia, ex-reitora da UFCSPA, um grupo no WhatsApp intitulado “Andivas” – alusão ao nome da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) – reúne todas as mulheres gestoras de universidades federais no Brasil.
Para além da troca de mensagens, as líderes da região Sul já fizeram dois encontros presenciais, que pretendem manter com uma periodicidade semestral. O Fórum de Reitoras e Vice-Reitoras da Andifes-Sul é coordenado pela reitora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Ursula Silva, que acredita que os espaços universitários ainda são muito masculinizados.
— Entendo que as universidades têm esse papel também, de conscientizar as estudantes de que elas precisam estar em lugares de decisão e de participação. O espaço de liberdade da mulher ainda precisa ser muito trabalhado, e as universidades, com a implementação de políticas de ação afirmativa, têm aumentado a conscientização e a participação das pessoas — avalia Ursula.
A reitora da UFPel enxerga avanços e ressalta o bom exemplo das universidades brasileiras, quando se fala em representatividade feminina nas gestões. No início de julho, por exemplo, a gestora esteve em um encontro de reitores vinculados à Associação de Universidades do Grupo de Montevidéu (AUGM), que reúne instituições da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. A maior delegação de mulheres era a brasileira.
— Para nós, é bastante representativo, na medida em que podemos, com essa força, levar pautas que, muitas vezes, não são vistas. Tenho um grupo de pesquisa desde 2007 chamado Caixa de Pandora, que trabalha com questões do esquecimento das mulheres na ciência, e percebemos o quanto há mulheres que sofrem um apagamento histórico. Temos vários grupos que estudam questões de gênero aqui em Pelotas, e a gente vê o quanto é importante que esses estudos saiam da pesquisa para se tornarem políticas públicas — afirma a reitora.
Uma ação posta em prática na universidade foi o programa Mulheres Líderes, que busca incentivar a presença feminina em grupos de liderança e gestão. Hoje, na instituição, há 27 mulheres em cargos de alta gestão, como pró-reitorias e superintendências, e 25 homens.
Entre incentivos e desafios

Reitora da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Suzane Gonçalves entende que, por lá, a ideia de se ter uma reitora já foi superada após a gestão de Cleuza Maria Sobral Dias, que esteve à frente da instituição de 2013 a 2021. Mas a escolha de mulheres para determinados cargos do alto escalão, quando Suzane planejava sua equipe, foi, por vezes, questionada.
— Veio, em alguns momentos, a pergunta com relação a esses cargos: “Ah, botou porque era mulher?”. Não, botei porque ela tem conhecimento, né? Porque a trajetória profissional daquela mulher mostrou que ela tem conhecimento para assumir essa função na universidade — lembra a reitora.
Outro estranhamento que Suzane enxerga como misoginia diz respeito ao fato de ela ser reitora e mãe de dois filhos pequenos.
— Meus filhos têm 10 e 13 anos hoje. Qual o problema? E se fosse um homem com filhos de 10 e 13 anos, essa pergunta seria feita? A misoginia aparece nessa ideia de que o papel do cuidado familiar é exclusivo das mulheres. Se ocupar o cargo, como vai dar conta de cuidar da casa? São, às vezes, pequenas frases, pequenas situações em que se revela essa questão como se fosse ainda uma barreira — analisa a professora.

Nídia Heringer, reitora do IFFar, destaca que, embora os institutos federais sejam instituições mais recentes, a mudança cultural para maior equidade de gênero não é necessariamente mais fácil ou natural – prova disso é que, em 2008, quando os institutos foram criados, a maioria dos diretores de unidades nomeados antes da realização de eleições era composta por homens.
No IFFar, contudo, o protagonismo feminino é marcante – em 2020, foram três candidatas mulheres à reitoria, sem nenhum homem concorrente, e Nídia foi eleita. Nas últimas eleições, ela concorreu novamente com outra colega mulher e foi reeleita. Entre os diretores, sete das 11 unidades hoje são geridas por mulheres.
— Atribuo essa predominância feminina a um trabalho que já tem uma década de conversa, de respeito, uma presença respaldada também pelos nossos colegas servidores. Isso não pode ser creditado somente à figura da reitora. É uma construção — define Nídia.
Nascida em Seberi, no interior do Estado, Nídia conta que sua trajetória foi marcada por incentivos recebidos ainda durante a graduação.
— No curso de Letras, tive a felicidade de ter professoras pesquisadoras muito ativas. Foram duas das minhas professoras da graduação que perceberam esse meu interesse pela pesquisa e pela caminhada acadêmica, e me incentivaram, no ano em que terminei a graduação, a fazer a prova de mestrado — lembra a reitora.
Esses estímulos e algumas “rebeldias”, como a decisão de ir sozinha a Porto Alegre fazer a prova do mestrado, são alguns dos elementos que a levaram a galgar a carreira de pesquisadora, professora e gestora de instituto federal. Ainda que enxergue desafios para as mulheres nesse setor, como os obstáculos ligados à maternidade, ao trabalho de cuidado e ao etarismo, acredita que programas de promoção de equidade servem de inspiração e ajudam a criar novos referenciais.


