Muito antes de saber o peso da palavra artesã, Maria Helena Costa Duarte já vivia o seu significado. Com apenas oito anos, transformou os sacos que antes carregavam adubo em peças de roupa. Um gesto criativo que, mais do que instinto, carregava a herança de suas origens – a força quilombola, vinda da mãe e a indígena, do pai.
Nascida e criada em meio a fortes raízes culturais, o artesanato sempre esteve presente em sua vida. Porém, passou anos sem colocar as mãos na criação de alguma peça. Aos 54 anos, ela relembra como foi o reencontro com o ofício:
— Eu estava passando por um tempo difícil, desanimada. Falei para o meu marido: "Vou pegar umas palhas e fazer artesanato."
Igualmente a palha do milho crioulo, que nasce em seu sítio, localizado em Morro Redondo, no sul do Estado, e vira boneca em suas mãos, Maria Helena também se transformou. Orgulhosa de todas as suas criações, hoje ela chama de paixão o que, um dia, foi remédio.
No trançar de Maria Helena, cada ponto carrega e faz história. Isso porque todo o artesanato produzido por ela é 100% natural. As matérias-primas utilizadas vêm de suas plantações ou de vizinhos. Fibras da bananeira e da taboa, cipó e palha de milho crioulo são as mais comuns, porém, também trabalha com outras, como a costela de adão.
Sua principal técnica é o ponto africano, que lhe permite dar volume e presença às criações. Também recorre ao trançado simples, em que pode misturar cores e texturas.
De utensílios domésticos a acessórios femininos, a artesã deixa sua criatividade ir além durante a construção das peças. Às vezes, usa como referência algum modelo, em outras, faz conforme o pedido do cliente. Mas todos os produtos carregam o carinho e apreço que Maria Helena tem por cada item.
As vendas são feitas por meio das redes sociais e em feiras locais – nessas, conta com a parceria de seu marido, que a leva e transporta seus artesanatos de moto.
Legado feminino que brota do trigo
Rosalia veio da Itália com uma mala modesta, mas abarrotada de desejos – e sementes de trigo. Semeadas, vingaram em solo brasileiro e são cultivadas, atualmente, por suas três descendentes: a filha Lurdes Trivelin de Toni, a neta Jaqueline Inês de Toni Bissolotti e a bisneta Ângela Bissolotti.
O artesanato entrou na vida de Lourdes a partir de uma necessidade: um sapato para usar na eucaristia. Com oito anos, aprendeu a fazer dressa – nome dado para o trançado feito com a palha de trigo. Assim, produziu a peça com matéria-prima colhida no quintal de casa.
Embora as dificuldades a tenham afastado da dressa, como as pestes na plantação de trigo, isso não a impediu de repassar o conhecimento do artesanato para sua filha Jaqueline, que por sua vez o transmitiu à sua filha Ângela.
A valorização precisa nascer na própria artesã. Quando ela consegue dizer, com orgulho, “meu artesanato é bonito”, isso reverbera. É uma afirmação de existência.
TATIANA LASCHUK
Pesquisadora e especialista em moda sustentável
Hoje, as três mulheres comandam o Mãos de Palha, empreendimento de Pinto Bandeira que serve de palco para criar, produzir e vender as peças artesanais feitas por elas.
Mais do que um negócio, Ângela vê a iniciativa como uma forma de preservar as origens e resistir ao preconceito – sentimento que leva muitos descendentes de artesãs a renegar essa arte.
— Eles têm a ideia de que quem está no Interior e quem faz atividades manuais, principalmente as mulheres, são ignorantes, sem conhecimento. Esse saber ancestral se perde muito, porque as pessoas têm vergonha das origens — revela.
Manter vivo o conhecimento
O Mãos de Palha é coordenado pelo trio feminino, que participa da maioria dos processos, mas também conta com o apoio dos pais de Ângela – o pai planta trigo e, ao lado da mãe, é responsável pela colheita e pelo armazenamento.
O material com que as artesãs trabalham são as hastes do trigo. Após a colheita, elas são deixadas para secar naturalmente até atingirem o ponto ideal para a manipulação.
Depois disso, é feita uma torção manual na linha firme do corpo do material, que se dobra com mais facilidade. É nesse processo que a "capa" – uma camada externa mais rígida – se solta e chega à fibra. Essa parte interna, clara e flexível, é o insumo principal com que as artesãs trabalham.
O impacto ambiental dessas artesãs é mínimo. E o mais impressionante é que elas fazem isso sem que ninguém precise ensinar. Está na cultura delas, transmitido por gerações.
RENATA CORNELLI
Engenheira ambiental
Dessas fibras nascem as dressas – tranças feitas com paciência e destreza. Elas podem ser finas ou largas, longas ou curtas, e, quando unidas por costuras manuais, tornam-se em peças artesanais.
O caminho até o produto final é permeado por tentativas e aprimoramentos. Lurdes é quem detém o conhecimento. Exigente, não aceita qualquer dressa. Atuando majoritariamente na parte de vendas, Ângela decidiu entrar na arte da trança – ainda em busca da excelência que só as mãos da matriarca alcançam.
No último ano, conta, dando risada, que ouviu da avó o que considera o maior elogio já recebido:
— Agora a tua dressa dá para vender.
Além desse processo, Lurdes, Jaqueline e Ângela também promovem oficinas para mulheres interessadas em semear a dressa e manter vivo o conhecimento ancestral.
Nos encontros, elas abordam a importância da fibra natural, a história da família e o passo a passo do trançado. No entanto, Ângela destaca que o mais rico nessa experiência é a troca que as mulheres têm umas com as outras.
Sustentabilidade presente
Diferente da lógica industrial – que produz em grande escala e, muitas vezes, sem preocupação com impacto ambiental –, as artesãs operam em outro ritmo. O tempo delas é circular, orgânico e guiado pela matéria-prima usada nas criações. O respeito pela natureza é nítido nas falas de Maria Helena e Ângela e, a partir desse sentimento, a sustentabilidade se faz presente nos produtos.
— Sou aquele tipo de pessoa que entra no mato e peço desculpas até se tiver que tirar um um galho que está caindo — destaca Maria Helena.
A engenheira ambiental Renata Cornelli explica que a diferença entre a produção em massa e a artesanal está no volume: enquanto a primeira produz sem freios, a segunda extrai da natureza apenas o necessário para uma determinada produção.
Há uma marginalização desse processo, que é tão rico e importante. E isso é essencial para nós, como seres humanos, porque o artesanato é a nossa marca na trajetória da vida.
LETÍCIA DE CÁSSIA COSTA DE OLIVEIRA
Museóloga e pesquisadora
O uso de agrotóxicos nas plantações também é levado em consideração, segundo a especialista. No entanto, a sustentabilidade se percebe na forma de descarte de resíduos – que, na verdade, quase não existem nas produções artesanais, visto que se encontra um destino para as “sobras”.
— O processo produtivo envolve o consumo de água, energia etc. Isso feito em grande quantidade, acaba reduzindo a disponibilidade de recursos naturais, ou consumindo mais recursos naturais e consequentemente gerando mais sobras — conta Renata.
A fibra da bananeira – uma das matérias-primas utilizadas por Maria Helena – é um exemplo de como o processo do artesanato pode ser sustentável. A colheita desse insumo é feita de forma consciente, a partir de plantas que já produziram seus cachos, ou que já têm “filhos”, como a artesã prefere chamar — porque, caso contrário, a planta morre.
Além disso, as folhas da bananeira são aproveitadas como embalagens naturais para pamonhas, bolos, peixes, ou até mesmo como adubo, alimentando o solo.
Renata afirma que o olhar cuidadoso das artesãs sobre os resíduos é fruto de uma sabedoria transmitida hereditariamente. Elas reutilizam materiais, reduzem impactos e respeitam os ciclos naturais, mesmo sem identificar essas ações como práticas sustentáveis.
— O impacto ambiental dessas artesãs é mínimo. E o mais impressionante é que elas fazem isso sem que ninguém precise ensinar. Está na cultura delas, transmitido por gerações — destaca.
Projeto de valorização
Desenvolvido ao longo de um ano com recursos da Lei Paulo Gustavo, o projeto Artesanato de Fibra RS – idealizado por Tatiana Laschuk – foi criado com o intuito de dar visibilidade e fortalecer o trabalho com fibras vegetais realizado por artesãs gaúchas.
A iniciativa percorreu três fases principais: pesquisa de campo, oficinas de criação e uma exposição que, agora, ocupa a Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. Trançar a Vida: Entre Saberes, Fibras Vegetais e Tempo fica em cartaz até o dia 14 de setembro e pode ser visitada de quinta a domingo, das 14h30min às 19h30min. No local, peças produzidas pelas artesãs estão à venda, e o valor dos produtos são repassados inteiramente, sem intermediários.
A primeira fase do projeto envolveu uma imersão na realidade de artesãs de diferentes origens – indígenas, quilombolas, descendentes de imigrantes – em várias regiões do Estado. A etapa seguinte foi a realização de oficinas em cidades mapeadas com base em um levantamento prévio: Caxias do Sul, São Leopoldo, Viamão, Três Coroas e Canguçu.
— Ao longo do tempo, o trabalho manual feito por mulheres foi invisibilizado, desvalorizado ou encarado como mera extensão do cuidado doméstico. Criar um ambiente só delas é devolver a essas mulheres o direito de se expressarem com liberdade e reconhecimento — ressalta Tatiana.
Os encontros reuniram mais de 70 mulheres, metade delas sem experiência prévia com fibras vegetais. As atividades incluíram dinâmicas de autoconhecimento, experimentação de materiais, orientações sobre precificação, design e gestão. Algumas participantes reinventaram objetos antigos com novos significados. Outras criaram peças autorais pela primeira vez.
— Uma delas disse: “agora eu sei que posso criar”. Essa tomada de consciência foi um dos maiores ganhos do projeto — afirma a pesquisadora.
Para além do artesanato, as oficinas também proporcionaram transformação. Segundo Tatiana, as artesãs puderam reconhecer o valor e a grandiosidade do trabalho que desenvolvem, o que incide na própria produção, na autoestima destas mulheres e em como a sociedade vê esta arte:
— A valorização precisa nascer na própria artesã. Quando ela consegue dizer, com orgulho, “meu artesanato é bonito”, isso reverbera. Não é só uma frase, é uma afirmação de existência. O mercado nota, o consumidor percebe. E, mais do que tudo, ela se coloca no mundo de outra forma: como alguém que conhece a força do que faz e a potência de quem é.
Estão previstas para as próximas fases do projeto: rodadas de negócios com lojistas e varejistas, aproximando as artesãs do universo comercial e profissionalizando o acesso ao público consumidor, e o lançamento de um livro, o qual terá audiodescrição e tradução para o guarani.
Para além da rentabilidade
No debate sobre patrimônio cultural e identidades regionais, o artesanato ainda é, muitas vezes, reduzido a uma simples atividade de geração de renda. Mas, para a museóloga e pesquisadora Letícia de Cássia Costa de Oliveira, essa visão ignora a complexidade histórica, simbólica e política das práticas manuais no Brasil.
— Hoje, o artesanato é quase sempre enquadrado como atividade econômica. Mas ele é, antes de tudo, uma expressão cultural, muitas vezes ancestral, que carrega marcas de gênero, território, memória e pertencimento — afirma.
A institucionalização do artesanato no RS ganhou forma com as leis estaduais 13.516 e 13.518, de 2010, que criaram ações de valorização e o Programa Gaúcho de Artesanato. No entanto, essas legislações têm foco restrito na geração de renda, segundo Letícia.
Já o plano nacional, a Lei 13.180/2015, que reconhece a profissão de artesão, é vista por ela como mais sensível ao valor cultural e patrimonial do fazer artesanal. Já em 2018, a Portaria nº 1007-SEI instituiu o Programa do Artesanato Brasileiro.
— Lá (Brasil), o artesanato é visto como patrimônio. Aqui (RS), como produto — resume a museóloga.
Conforme dados publicados pelo governo federal, com base no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab), até o início de julho, eram 237.593 artesãos cadastrados. No Rio Grande do Sul, são 11.116 profissionais.
Na visão de Letícia, as leis pouco abrangentes corroboram para a imagem que a grande maioria das pessoas tem sobre o produto artesanal:
— Há uma marginalização desse processo que é tão rico e importante. E isso é essencial para nós, como seres humanos, porque o artesanato é a nossa marca na trajetória da vida. É o que deixamos no mundo.



