
O presente é, com o perdão do trocadilho, um presente para Marina Lima. Prestes a completar 70 anos, a cantora sente que envelhecer nada mais é do que aprender com o passado para viver o aqui e o agora. E é olhando para os 45 anos de carreira que ela procura sempre se reinventar, sem perder a essência.
— Quero desfrutar dessa experiência de amadurecer e envelhecer. Com o tempo, a gente se sente mais segura e merecedora de nossas escolhas e menos preocupada com o julgamento alheio — afirma a compositora.
É sobre isso que ela pretende cantar no bar Opinião neste sábado (26), às 20h, com a turnê Rota 69 – um título alusivo à rodovia estadunidense imortalizada como símbolo de liberdade e também à idade da artista.
A carioca chega à Capital para reencontrar um público que a acompanha há décadas e, também, uma nova geração de fãs, que se embala com clássicos como Fullgás, À Francesa, Preciso Dizer que Te Amo, Acontecimentos, Virgem, entre outros. Os ingressos esgotaram cinco dias antes do show.
— Tenho muitas memórias boas. Eu adoro Porto Alegre e os gaúchos. É um público inteligente e fiel ao meu trabalho. Além disso, para mim, é uma alegria cantar e tocar no Opinião. Estou animada para esse show.
Mesmo em um cenário em que os singles dominam o mercado, Marina ainda aposta nos álbuns completos como forma de expressão. E é justamente nisso que pretende focar depois de uma pausa na turnê.
— Estou cheia de ideias. Em setembro, quando completar 70 anos, vou parar de fazer shows por um mês para gravar um disco novo, que deve ser lançado no próximo ano. Já lancei 23 álbuns, e uma obra construída com meu irmão Cicero e outros parceiros.
Eu adoro Porto Alegre e os gaúchos. É um público inteligente e fiel ao meu trabalho.
MARINA LIMA
Cantora e compositora
Antonio Cicero, aliás, segue presente no repertório e no coração da cantora. Companheiro de composição da irmã, o filósofo morreu em outubro de 2024, aos 79 anos. Entre suas contribuições mais conhecidas na música brasileira estão Fullgás e À Francesa, escritas em parceria com Marina; O Lado Quente do Ser, interpretada por Maria Bethânia; e O Último Romântico, composta com Sergio Souza e Lulu Santos.
— As pessoas querem mais do que ouvir sucessos. Mesmo quando canto músicas conhecidas, também incluo as menos populares, mas que falam de sentimentos e questões que continuam atuais.
Sempre na ativa
Mesmo com uma rotina intensa, Marina mantém os cuidados com o corpo e, principalmente, com a voz. Todos os dias, dedica 30 minutos à ginástica e outros 30 ao violão e ao aquecimento vocal, demonstrando sua preocupação em envelhecer com saúde e seguir sempre em atividade.
Essa dedicação se intensificou especialmente após os problemas vocais enfrentados no passado: um erro médico durante uma cirurgia nas fendas vocais desencadeou um quadro de depressão.
— Entrei em crise com a minha identidade há uns 30 anos. Preferi parar de cantar por um tempo, até conseguir superar isso. E a vida tem um lado muito sábio: se você tem condições de enfrentar uma dificuldade, você vence. Então, faz uns dois anos que a minha voz voltou zerada. Não foi milagre, mas um trabalho de formiguinha – principalmente psicológico e emocional — relembrou Marina, em entrevista ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, no início do mês.
Em entrevista a Zero Hora, Marina falou mais sobre seu legado no pop rock brasileiro, os planos para o futuro e o prazer de voltar aos palcos e sentir novamente a conexão com os fãs.
Confira a entrevista com Marina Lima
Como tem sido a turnê Rota 69? O que mais tem lhe surpreendido nos shows até agora?
A tour tem sido muito boa. Por onde passamos os shows estavam lotados e meu público cresceu de novo. Fico feliz de ver a mistura de várias gerações na plateia, com todos cantando minhas canções. Mas, o que mais me surpreendeu com o projeto da Rota 69 foi voltar a gostar de fazer shows.
Como o palco mudou para você ao longo das décadas? O que ainda lhe emociona ao subir nele?
Sempre fui mais feliz dentro dos estúdios, fazendo discos. Não gostava de fazer shows. Agora, estou adorando fazer a tour Rota 69. Me vejo feliz e conectada com o público. Hoje, no palco, me sinto devolvendo para o público todo o amor que recebo dos fãs há 45 anos. Sinto prazer em cantar em um palco.
Você sempre foi uma artista à frente do seu tempo. Ainda se sente uma mulher provocadora hoje?
Meu tempo é hoje. Agora. Sempre fui assim. Já vivi os meus 20, 30, 40, 50, 60... e agora caminho para completar 70 anos e me vejo fazendo coisas que realmente importam para mim. Não tenho tempo para bobagens. Também me sinto ainda mais livre para falar sobre questões que acredito.
Como você vê a evolução da mulher na música brasileira? Quais cantoras têm chamado a sua atenção recentemente?
Vejo a evolução da mulher na música brasileira com muito orgulho. Quando comecei, não existia muitas mulheres no comando de nada e fico feliz em ver que isso mudou um pouco. Gosto de ouvir o novo e da troca com a nova geração de cantoras.
Fiz um projeto chamado Vozes, em que cantei com a Ana Frango Elétrico no Rio. Fui conhecer o trabalho dela e gostei muito. Também cantei Eu Não Sei Dançar, com a Agnes Nunes, na abertura da exposição Fullgás - artes visuais e anos 1980 no Brasil, em São Paulo, e adorei o jeito que ela canta.
Como é revisitar, hoje, as canções escritas com o Cicero?
Nossa praia era falar de sentimentos. Independentemente se eu cantar À Francesa ou Uma Noite e Meia, também coloco outras canções nossas que não são hits, mas que são igualmente importantes, pois falam de coisas que interessam às pessoas que gostam da vida. Então, elas estão sempre presentes no meu repertório.
Fico feliz de ver a mistura de várias gerações na plateia, com todos cantando minhas canções. Mas, o que mais me surpreendeu agora foi voltar a gostar de fazer shows.
MARINA LIMA
Cantora e compositora
Existe alguma música favorita que seu irmão tenha escrito para você?
Gosto de muitas, mas Fullgás tem um lugar especial no meu coração. Recentemente foi lançado um livro de poesias de Cicero (pela Companhia das Letras) que leva esse nome. Me enche de orgulho e de saudades dele.
Em um momento em que tantas cinebiografias de artistas brasileiros estão sendo lançadas, que tipo de filme você gostaria que fosse feito sobre a sua vida? E quem você imagina lhe interpretando nas telas?
A atriz Luiza Mariani vai me interpretar no cinema. O projeto é dela, e eu a adoro, ela é chique e talentosa. A direção será da Joana Mariani, que é prima da Luiza. O filme ainda está na fase de roteiro. Cinema é um processo demorado, mas, uma hora, esse projeto sai do papel e a gente vai poder conferir nas telas.
Em 2021, você disse, em uma entrevista para Zero Hora, que é "importante para uma mulher deixar a sua história e o seu legado". Hoje, como você enxerga o seu legado na música brasileira?
Sempre busquei ser livre e contemporânea com a minha obra. O que me interessa é tentar descrever o meu tempo. E o meu tempo é de pausas, acelerações e freadas bruscas. A verdade é que sou muito curiosa com as coisas que a vida me mostra ou propõe.
Só comecei a dominar mesmo a minha vida depois dos 60 anos. E agora eu quero ainda mais. Quero descobrir o que há de libertador na idade em que me encontro. Quero seguir fazendo shows, cuidando da minha saúde e trocando com meus amigos e meu amor.
Qual conselho a Marina de hoje diria para a Marina dos anos 1980?
Keep walking. (Continue andando, em tradução literal)





