
Entre uma piada e outra, Júlia Rabello, Maria Clara Gueiros e Priscila Castello Branco encontraram uma conexão que transparece no palco. É o que elas pretendem mostrar em Agora É Que São Elas, peça escrita por Fábio Porchat, que desembarca em Porto Alegre nos dias 16 e 17 de julho, às 21h, no Teatro do Bourbon Country, com direito a sessão extra no segundo dia, às 18h30min. Os ingressos estão disponíveis em uhuu.com e na bilheteria do teatro.
Com textos inéditos e outros adaptados de 20 anos atrás, as histórias inspiradas no cotidiano trazem as atrizes interpretando cerca de 20 personagens, revezando em cena para dar vida a figuras em situações que poderiam muito bem fazer parte da "comédia da vida real".
— São personagens com os quais as pessoas se identificam muito. Se não se identificam, conhecem alguém assim — define Priscila, que também esteve envolvida na origem da montagem, em uma conversa com Porchat sobre a saudade de fazer teatro:
— Eu falei: “Vamos escrever uma peça, fazer alguma coisa”. No dia seguinte, ele apareceu com um monte de esquetes. Li e disse: “Isso é maravilhoso!”. E os textos haviam sido escritos há muito tempo.
Para as colegas de cena, também não foi difícil aceitar o convite do Porchat para fazer parte do projeto.
— Aceitei "às cegas". Nem sabia direito o que era, mas já sabia que era bom. O humor do Porchat tem muito a ver comigo, com o que eu gosto e com o que me identifico. Então, foi muito fácil topar — relembra Maria Clara.
O reencontro com esse material também foi especial para Júlia, que conheceu alguns dos esquetes ainda nos anos 2000, quando produziu a primeira peça de Porchat ao lado de Paulo Gustavo.
— Quando ele me convidou, lembrei de alguns textos e falei: “Poxa, eu vou amar contracenar com elas!”. A gente cresce muito quando tem parceiros legais em cena. Estava tudo redondinho. Eu sabia que ia ser uma coisa muito legal.
Vivemos um momento em que as mulheres estão assumindo seus papéis com mais força
JÚLIA RABELLO
Atriz
Agora É Que São Elas estreou em março de 2024, em Curitiba. Desde então, o trio já passou por diferentes cidades, ganhando, inclusive, o prêmio de melhor elenco na Festa Internacional de Teatro de Angra (Fita), em dezembro passado.
— Falamos a mesma língua do humor. Cada uma tem seu estilo, mas nos complementamos muito bem. Fora de cena, somos amigas, e essa amizade vai para o palco. Não tem competição, tem ajuda mútua, generosidade. Estamos sempre tentando melhorar a cena da outra, pedindo conselho — detalha Maria Clara.
Embora esteja há mais de um ano na estrada, o trio diz que não deixa o espetáculo cair na rotina, sempre buscando se reinventar a cada sessão. O texto de Fábio, segundo as atrizes, também está sempre em evolução.
— A troca constante ajuda a manter o frescor. O Fábio também é muito exigente: toda vez que assiste à peça, sai cheio de anotações. A comédia tem esse retorno imediato. Quando a plateia ri, é quase como um diálogo. Você fala e o público responde com risada. É muito gostoso — diz Júlia.
"Universo feminino do Porchat"
Mas, ao contrário do que parece, Agora É Que São Elas não é uma peça exclusivamente sobre assuntos femininos. Tópico que é considerado controverso para o elenco. Júlia, inclusive, brinca que “é uma peça do universo feminino… do Porchat”, pois, afinal, foi ele quem escreveu.
— É interessante como uma comédia feita por dois homens, há 20 anos, ganha outra camada quando interpretada por três mulheres hoje. Vivemos um momento em que as mulheres estão assumindo seus papéis com mais força. Em Agora É Que São Elas, somos nós fazendo comédia, com nossas vivências e nossa escuta. Mas os temas não são femininos — destaca Julia.
E é na comédia, que as três acreditam que seja possível acessar o público, mesmo quando os temas são mais delicados.
— O humor permite exagero. A gente pega uma situação real, cotidiana, e eleva à décima potência. O público se reconhece nisso e diz: “Nossa, isso acontece mesmo.” O riso coloca uma lupa nos nossos absurdos diários. Você abre o chakra do espectador (risos) — brinca Maria Clara.
Priscila aproveita para dar uma “amostrinha” do que elas interpretam no palco sobre situações constrangedoras que são fáceis de se identificar:
— Uma das minhas cenas preferidas é O Anjo do Constrangimento. É sobre aqueles foras que a gente dá, tipo perguntar se a pessoa está grávida e ela não está. Aí aparece o anjo e diz: “Vamos embora, porque não tem mais salvação” (risos). É o tipo de coisa que todo mundo já viveu ou presenciou.
Maria Clara acrescenta:
— Esse humor de identificação é irresistível. A pessoa se vê, ou vê alguém próximo. É um convite à risada.
Em entrevista a Zero Hora, as atrizes falam, sempre com muitas risadas e deboches entre si, sobre a peça, às afinidade em cena e nos bastidores, e o desafio de manter a comédia fresca após mais de um ano em turnê.
Confira a entrevista com elenco de Agora É Que São Elas
Vocês já estiveram em Porto Alegre antes? Como foi a experiência?
Maria Clara: Já estive aí duas vezes e sempre foi inacreditável. Teatro enorme, lotado, muita emoção. Porto Alegre não é uma cidade que frequento com regularidade, então as experiências que tive foram com teatro e com casas cheias. Fico super feliz de voltar.
Júlia: Faz tempo que não vou a Porto Alegre. Fui uma vez com uma peça do Jô Soares, e foi uma delícia. A plateia era animada, curtiu muito. Tenho as melhores lembranças da cidade, do público, da comida... Estou ansiosa para voltar.
Priscila: Já fiz show de stand-up aí e, confesso, tinha um certo medo de ir para Estados mais frios. Achava que o público ia ser mais mais contido, mas o gaúcho é muito receptivo, dá risada, abraça, é simpático. Gaúcho gosta de emendar festa, então foi uma alegria. Estou na expectativa.
Alguns dos esquetes da peça foram escritos há mais de 20 anos. Como foi adaptar esses textos antigos?
Priscila: Três deles são da época em que o Fábio escreveu com o Paulo Gustavo. As outras seis são novas, criadas por ele agora e bem baseadas nas nossas personalidades também.
Maria Clara: É verdade. Teve “encomenda”. O Fábio sabia o que queria explorar em cada uma. Em uma cena específica, ele falou: “Quero você fazendo isso porque sei como você faz.”
Priscila: O mais curioso é como os esquetes antigos ainda funcionam. Algumas referências mudaram, como celebridades, tecnologias, mas o comportamento humano, os costumes, continuam iguais. Mudamos pouquíssimas coisas.
O humor permite exagero. A gente pega uma situação real, cotidiana, e eleva à décima potência. O riso coloca uma lupa nos nossos absurdos diários
MARIA CLARA GUEIROS
Atriz
Vocês se tornaram bem amigas durante esse projeto, né?
Maria Clara: A gente tem uma ligação muito bacana, de respeito, de troca. Não tem competição, ninguém querendo aparecer mais que a outra. E isso, para mim, é um prazer. Em alguns elencos, estar em cena com certos atores pode virar uma disputa. Aqui, não. Aqui é generosidade.
Júlia: É raro encontrar esse tipo de ambiente. Acho que conseguimos construir um espaço de trabalho muito legal e convivemos bastante. Já passamos por perdas pessoais, por momentos difíceis. A gente tem uma escuta muito boa, uma vontade real de cuidar a outra.
Priscila: A gente se conheceu trabalhando e criou esse canal de diálogo aberto. Se alguém se incomoda com algo, a gente fala. Desde questões de cena até assuntos pessoais. E isso reflete completamente no trabalho.
Maria Clara: É muito bom comprovar que esse clichê (sobre rivalidade feminina) não se sustenta. Existe, sim, um outro tipo de relação possível e a gente vive isso.
Vocês ficaram famosas em formatos diferentes da comédia. A Maria Clara pela TV, a Júlia pela internet e a Priscila pelo stand-up. Como foi reunir essas experiências no palco?
Júlia: Acho que isso tem a ver com o momento em que o público conheceu a gente, né? Mas todas nós já fazíamos teatro há muito tempo. O teatro é onde tudo começa, é a casa do ator. É onde a gente abre a porta e fala: “Fique à vontade" (risos). Fiquei mais conhecida pela internet, mas minha formação e prática são muito de teatro, inclusive com drama, não só comédia.
Priscila: E tem também uma questão geracional. Eu fico ouvindo elas e aprendendo muito. Às vezes, elas falam coisas que nem percebem, mas eu levo para casa, fico pensando. A experiência que elas têm de mercado, de carreira, é algo que admiro muito. A arte está sempre mudando, e a gente vai se reinventando.
Maria Clara: Eu faço teatro desde 1987 e só fui ficar conhecida 17 anos depois pela televisão. Sou muito grata por isso, claro. Mas se me perguntarem rápido se sou atriz de teatro, cinema ou televisão, eu respondo: teatro. É onde me reconheço.
Priscila: Eu também comecei estudando teatro. O stand-up surgiu mais tarde. Mas, como hoje a gente precisa se autoproduzir muito, a internet e o stand-up se tornaram caminhos mais baratos. Acabei tendo mais reconhecimento nessa área, mas o teatro sempre foi minha base.
Maria Clara: O mais importante é que somos três boas comediantes. O humor tem sua própria linguagem, exige uma escuta apurada. Não adianta dizer “espera dois segundos e entra”. Tem que ter esse timing dentro da gente, desde a primeira leitura. E nós três temos isso, modéstia à parte (risos).
A experiência que elas têm de mercado, de carreira, é algo que admiro muito. A arte está sempre mudando, e a gente vai se reinventando
PRISCILA CASTELLO BRANCO
Atriz
O que vocês mais admiram uma na outra?
Júlia: Tem algo que me inspira muito estando com elas, que é esse lugar da brincadeira. Elas me despertam a vontade de brincar, de falar bobagem. E isso é um baita elogio, porque me sinto voltando para quinta série. É como se a criança em mim voltasse a brincar. Isso é lindo. Elas me fazem muito bem. Falam muito sobre a nossa química, e eu acho que vem disso.
Maria Clara: Admiro muito o talento das duas, e é uma alegria ver gente boa em cena. A Priscila tem uma vitalidade incrível, uma ironia no olhar e uma força física marcante nos personagens que interpreta. Já a Júlia tem uma intelectualidade única, mesmo quando está fazendo algo tosco em cena, ela traz uma teoria, um embasamento por trás. Ela sabe como fazer a piada funcionar.
Priscila: Essa conexão é real, não é pose. Admiro muito a generosidade das duas. Elas são atentas e escutam de verdade. Se precisam dar uma sugestão, fazem com cuidado e carinho. São parceiras mesmo, dividem a cena, o palco, tudo. Elas são boas pessoas.
Maria Clara: Ah, essa parte corta, vai... (risos)
Júlia: O deboche é uma grande característica nossa também. (risos)
Priscila: E espero que a gente fique muitos anos juntas.
Júlia: Vivas, inclusive, né? (risos)




