
Depois de anos em que a estética da perfeição ditou comportamentos, rotinas e até emoções nas redes sociais, o visual impecável começa a dar sinais de desgaste. O que antes funcionava como desejo coletivo passa a soar repetitivo e, aos poucos, perde força.
Em 2025, esse movimento se consolidou com estéticas altamente controladas e aspiracionais, inspiradas no universo online e na ideia de uma vida organizada. Conceitos como clean girl, naturalmakeup, vanillagirl dominaram o imaginário digital, exaltando uma imagem polida, minimalista e eficiente.
Figuras como Bella Hadid, fora das passarelas, popularizaram esse ideal. O legado visual da campanha da Victoria's Secret reforçava a noção de que autocuidado, beleza e sucesso seguiam o mesmo roteiro.
Neste ano, no entanto, o movimento começa a se inverter. O excesso de controle, a repetição visual e a pressão por uma vida "perfeita" abrem espaço para uma estética mais solta, contraditória e emocional.
Segundo a pesquisadora de tendências Paula Visoná, essa virada reflete um cansaço coletivo diante da performance contínua de perfeição. Ela também aponta uma busca por narrativas mais humanas.
— O desgaste da estética clean girl não pode ser lido apenas como uma mudança visual, mas como parte de um movimento maior, em que moda, comportamento e saúde mental se cruzam — avalia.
Ela destaca que as tendências emergentes como o maximalismo, o mix de estampas e o retorno do boho apontam para uma valorização do excesso e da individualidade.
Essa percepção também aparece entre influenciadores que dialogam diretamente com o universo da moda e das tendências.
Laura Daniela, 23 anos, que acumula mais de 2 milhões de seguidores nas redes sociais, afirma gostar da estética clean girl, mas concorda com a análise da pesquisadora, reconhecendo limitações importantes no modelo.
— Acho que essa estética (clean girl) foi criada para excluir. O novo "chique" é ter a pele boa o suficiente para não usar maquiagem, ser magra o suficiente para usar roupas coladas. Você precisa ter tempo para fazer pilates, estar sempre com roupa de academia nova e bonita, além de que comer saudável não é barato.
Para ela, a dificuldade de identificação de parte do público ajuda a explicar por que a tendência começou a perder fôlego — especialmente em um cenário em que novas estéticas ganham espaço por serem mais expressivas e menos normativas.
— Acho que exatamente por não englobar mais gente é que a trend clean girl está passando. Ninguém gosta de se sentir excluído.
Tendências e o contexto social
Para Laura, a internet e as tendências não são apenas fantasia. Isso evidencia as diferentes realidades sociais e ressalta o motivo de a estética clean girl estar enfraquecendo:
— Não representa tanto (a estética clean girl). Temos noção de que muita gente não consegue adaptar (a estética) no dia a dia. Quando um objeto da moda custa R$ 500, não é todo mundo que vai conseguir usar.
Contexto social
A mudança no comportamento estético também está ligada a um contexto mais amplo de instabilidade, segundo Paula. A especialista ressalta que momentos de incerteza social, econômica e ambiental costumam provocar deslocamentos na forma como as pessoas se expressam visualmente.
Na avaliação da pesquisadora, as tendências não se espalham apenas por afinidade racional. Elas circulam também por identificação emocional. Imagens, estilos e narrativas passam a funcionar como respostas subjetivas a um cenário percebido como complexo ou instável.
Nesses períodos, cresce o desejo por referências menos padronizadas e mais próximas da experiência individual.
— Quando a gente tem momentos de incerteza existem essas expressões, seja na moda, seja na arte, no cinema, que são uma referência mais próxima ao tempo. Muita gente chama isso de uma questão mais nacionalista, mas não é sobre isso. É sobre tentar encontrar dentro da gente as nossas próprias referências. É um processo individual que se torna coletivo.
A volta do "brega", do maximalismo e mais
Esse deslocamento ajuda a explicar o espaço que novas estéticas vêm ganhando em 2026. Em oposição ao minimalismo controlado da clean girl, propostas mais maximalistas, exageradas e até consideradas "bregas" começam a aparecer com mais força — seja nas passarelas, nas redes sociais ou mesmo no cotidiano.
Para Paula, esse movimento não é aleatório. Ao se afastar da neutralidade e da contenção, essas estéticas oferecem mais espaço para identidade, mistura e expressão pessoal. O erro, o excesso e a contradição deixam de ser vistos como falhas e passam a funcionar como linguagem.
Um exemplo de resposta a esse momento mais padronizado foi o desfile da Dendezeiro, no São Paulo Fashion Week (SPFW) em outubro de 2025. Com o desfile que encerra a trilogia Brasiliano, a marca apresentou uma coleção que aborda a Lei da Vadiagem — já revogada, mas ainda evocada como instrumento de perseguição a corpos negros e a manifestações culturais populares.
O tema também se reflete no mural de referências da estação, que incorpora expressões como o funk. Silhuetas de streetwear, volumes marcados e sobreposições reforçam o exagero e a aposta no maximalismo, além de evidenciar a busca por representação cultural.
Esse tipo de resposta estética costuma surgir justamente quando um padrão dominante se esgota. O que antes era visto como excesso, agora, passa a representar liberdade.
Brasil como referência estética
No Brasil, esse movimento se manifesta de forma particular. Segundo a pesquisadora, há uma retomada de referências locais e culturais, traduzidas pela moda comercial de maneira mais acessível e adaptada ao mercado. Elementos ligados à natureza, às cores e às texturas ganham espaço não de forma literal, mas reinterpretados em paletas, materiais e silhuetas.
Esse tipo de linguagem reforça um desejo coletivo por pertencimento — não a um padrão global, mas a narrativas mais próximas da própria experiência cultural.
Ciclo das tendências e o futuro
Essa busca por diferenciação também aparece na forma como influenciadores observam o ciclo das tendências. Para Laura Daniela, o excesso de repetição é um dos fatores que fazem determinados estilos perderem apelo ao longo do tempo:
— Tudo que é demais, que todo mundo está fazendo, acaba matando um pouco da nossa personalidade.
Ela observa que, quando uma estética passa a dominar de forma homogênea, o interesse tende a migrar justamente para o que foge do esperado.
Ela lembra que tendências antes consideradas estranhas ou duvidosas começam a ganhar espaço. Exemplos incluem a volta da sapatilha, da estética bailarina e até de peças que valorizam mais o corpo, como a calça skinny.
— Quando chega num ponto em que todo mundo faz exatamente a mesma coisa, acaba cansando, e o diferente passa a atrair mais — diz.
Apesar do desgaste, Laura avalia que a estética clean girl não desaparece por completo. Para ela, o movimento deixou aprendizados que permanecem no cotidiano, como o cuidado com a pele, a atenção à saúde e a valorização de rotinas mais equilibradas.
— A era clean girl veio nos ensinar a cuidar mais da gente: da pele, fazer penteados, comer melhor, fazer exercício. Isso ficou na vida das pessoas. Mas está em declínio, com certeza.
Já para a pesquisadora, o movimento observado pode ser compreendido a partir do conceito de "retrotopia", do filósofo Zygmunt Bauman, termo que circula em análises geopolíticas e que, neste caso, ajuda a pensar o futuro da moda.
A aproximação de tendências com os anos 1980 — assim como outras ondas de moda que retornam — reflete esse apego ao que já foi, em um movimento de busca por referências familiares diante das incertezas do presente.
— É a nostalgia a partir de uma idealização do passado. O passado era melhor. O momento atual é muito complexo, lidamos com problemas muito difíceis, como crise climática e migratória. Assim, voltamos para o passado e idealizamos ele — diz a pesquisadora.
*Sob supervisão da jornalista Leticia Costa


