
No último ano, o Rio Grande do Sul foi o quinto Estado brasileiro com mais buscas por brechós. O levantamento foi divulgado no fim de agosto pela empresa Descarbonize Soluções, responsável por estudos com foco em meio ambiente e sustentabilidade.
No ranking, os gaúchos ficam atrás de Santa Catarina (1°), Paraná (2°), São Paulo (3°) e Distrito Federal (4°). Em seguida, aparecem os Estados de Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Espírito Santo. No total, as pesquisas online por brechós ultrapassaram a marca de dois milhões de buscas.
A pesquisa contemplou buscas mensais sobre o assunto, no período de julho de 2024 a julho de 2025. Somente em julho deste ano, foram mais de 14 mil buscas pelo termo "brechó" no Google Trends, considerando a localização do Rio Grande do Sul, de acordo com o levantamento.
Também no Estado, o termo "brechó em Porto Alegre”, por sua vez, registrou cerca de 5,4 mil buscas no último mês, mostrando o interesse dos usuários em encontrar pontos que comercializem roupas usadas na Capital.
— Todas as regiões se destacam, em menor ou maior grau, pelo interesse em brechós. A combinação de alguns fatores, como a forte presença de pólos urbanos que concentram tendências de moda e comportamento, além de um consumidor que já se mostra bastante receptivo a alternativas ligadas à economia circular, pode ser uma explicação para esse destaque da região Sul — afirma Milena Andrade, gerente de marketing da Descarbonize Soluções.

Na avaliação do economista-chefe da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL POA), Oscar Frank, a procura por brechós também pode ter relação com o poder de compra dos gaúchos, que diminuiu.
— As pessoas têm tido um pouco de dificuldade em termos de administração do orçamento por uma série de questões econômicas. Acredito que as pessoas procuram por brechós para justamente ter uma alternativa para conseguir algo que elas desejam a um preço mais vantajoso — destaca.
Mais acessibilidade e exclusividade
O aumento nas buscas também é percebido no setor dos brechós. Segundo Natália Guasso, organizadora do Brick dos Desapegos, em Porto Alegre, essa procura já existe há um bom tempo. Mas, para ela, não se trata apenas de valores mais acessíveis, mas também de consciência e exclusividade.
— Desde que Brick começou, há 14 anos, o público só cresce e aumentou ainda mais depois da pandemia. As feiras estão crescendo porque a demanda também está aumentando — ressalta a organizadora.
Segundo Natália, o que realmente tem impactado é o tamanho das feiras, impulsionado pelo número cada vez maior de brechós que participam dos eventos itinerantes. Ela acrescenta que o aumento também é um reflexo das redes sociais, que vêm propagando de forma crescente a ideia de adquirir peças de segunda mão.
— Muitas (pessoas) da minha rede, que hoje são mais de cem empreendedoras, estão abrindo lojas físicas. É o combo feira, Instagram e loja, que gera resultados e que com certeza é um mercado em expansão, ainda mais com a consciência do momento ambiental e político que vivemos — diz Natália.

Gil Bolsan, responsável pelo Peça Rara Cidade Baixa, também de Porto Alegre, observa que o aumento por brechós, principalmente nos últimos dois anos, tem sido uma fortaleza para o setor.
— Acredito que isso vem de alguns fatores, como a consciência sustentável. As pessoas estão cada vez mais atentas ao impacto ambiental da moda e querem consumir de forma mais responsável. Outra questão é a economia: os brechós oferecem esse acesso a peças de qualidade, de marcas renomadas, mas com preços acessíveis — pontua.
Ainda segundo ele, o fato de a equipe organizar lançamentos temáticos, festivais de marcas e ações de sustentabilidade contribuem para a proximidade com o público:
— O grande motor desse crescimento é a combinação de consciência, economia e exclusividade. Hoje, consumir brechó não é só uma questão de preço, mas um estilo de vida.
Tendência nas redes sociais
As redes sociais também têm contribuído para essa discussão, seja pelo contexto ambiental e político, seja pela influência de criadores de conteúdo que incentivam a prática de comprar em brechós. É o caso de Vanessa Bernardes, 30 anos, moradora de Porto Alegre. Formada em História, ela estuda Moda e atua como criadora de conteúdo digital — no Instagram, reúne mais de 220 mil seguidores.
Seu nicho é moda e estilo e, nesse segmento, ela compartilha sua relação com os brechós, um hobby que começou ainda na faculdade, em 2020. Natural de Bagé, na Fronteira Oeste, ela se mudou para o sul do Estado para cursar História na Universidade Federal do Rio Grande (Furg).
— Cresci em uma cidade do Interior (Bagé), em que não tinha esse costume de comprar roupas usadas em brechó, por toda a questão do preconceito com roupas usadas. Tive que educar meu olhar para enxergar as possibilidades que um brechó pode dar. No início, por necessidade e, depois, por valores, por acreditar que as roupas possuem uma sobrevida e precisam ter uma sobrevida — conta.

Ela também lembra de seu garimpo mais especial da época: uma camisa social, 100% algodão, que custou R$ 2. A peça também se tornou parte do seu conteúdo para as redes sociais.
— Era a roupa que tinha para a época, para começar o meu trabalho. — afirma. — Usei muito aquela peça. Usava tanto por baixo do suéter quanto como saída de praia. Usei de tantas maneiras que comecei a abrir o olhar para minhas roupas. Consegui multiplicar ela e fazer com que meu guarda-roupa ficasse mais enxuto.
Roupa nova x roupa usada
Assim como costuma acontecer com criadores de conteúdo, Vanessa também passou a ser procurada por marcas grandes em busca de parcerias nas redes sociais. Hoje, ela trabalha com duas redes de fast fashion, mas admite que, em determinado momento, chegou a pensar que seria difícil conciliar o incentivo ao consumo de roupas usadas com a divulgação de peças novas.
— São lados muito opostos, mas acredito que a minha comunicação é assertiva, porque, independentemente de estar consumindo roupa usada ou nova, você tem que ter consciência do que se tem e de quem você é. Isso é uma comunicação que gera mais reflexão do que gatilhos e compras imediatas. Sempre tratei isso com muita verdade — explica.
A influenciadora costuma dar dicas sobre a qualidade das peças — e a verdadeira utilidade delas, como a durabilidade, composição, aviamentos e acabamentos — e se condiz com o estilo da pessoa.
— Vale o mesmo para uma peça usada. Não deixa de ser consumo. É muito mais fácil convencer a pessoa a comprar em brechós sem dizer que deve parar de comprar roupas novas. Isso faz parte do sistema, a gente é induzido a todo momento ao novo. Agora, se ela puder comprar uma roupa usada e, de alguma forma, mitigar o impacto da roupa nova, já é um grande passo dentro da nossa tentativa de minimizar os impactos do planeta — explica.
A influenciadora, que hoje diz ter um guarda-roupa versátil, aproveita a onda de brechós para adquirir peças mais específicas e que conversem com seu estilo, o que, segundo ela, fica mais fácil quando se tem “o olhar treinado” para a prática.
Importância da educação ambiental
Para Tatiana Laschuk, pesquisadora e especialista em moda sustentável, o aumento na procura por brechós é positivo, sobretudo por ajudar a reduzir o preconceito em relação às roupas usadas.
— Antigamente havia um certo preconceito, uma forma estereotipada de falar sobre brechós, com justificativas a uma suposta “energia carregada”. Qual energia está carregando aquela roupa? Por outro lado, quando pensamos em uma peça produzida dentro do sistema fast fashion, também não sabemos quem fez aquela roupa nem quais condições. Esse é um ponto importante: as pessoas estão comprando moda sem maiores preocupações — avalia.
A especialista também destaca a velocidade com que as tendências têm surgido no mercado da moda:
— As pessoas que compram em redes de fast fashion, por exemplo, compram ou pelo preço ou por acompanhar as tendências. Hoje, porém, a gente tem uma influência que, de certa forma, é negativa, das plataformas, como o Tik Tok. O que a gente menos precisa é de tendências mais passageiras do que já estava sendo antes.
Tatiana ressalta a importância dos brechós na promoção da circulação de peças, sem demandar novos recursos que possam comprometer a capacidade das gerações futuras. Por fim, enfatiza a necessidade de investir em educação ambiental:
— É importante essa questão da educação na base mesmo. O consumidor que está na escola agora já vai vir mais crítico, acredito eu. O problema são os consumidores da minha geração, que não teve nenhuma educação ambiental.



