
Foi aos 39 anos que a dentista Taline Silva Marchetti tomou uma decisão importante sobre seu futuro: congelar óvulos. Agora com 40 anos, ela tem certeza de que quer ser mãe, mas não sabe quando o momento ideal chegará.
No passado, quando estava em um relacionamento sério e chegou a cogitar engravidar, a dentista acabou priorizando a carreira. Queria cursar especializações, investir na abertura do consultório próprio e conquistar independência financeira. Só que os anos se passaram, a relação chegou ao fim e, hoje, Taline não sabe quando a sonhada gravidez irá se concretizar.
Ela entende, contudo, que a fertilidade feminina nem sempre acompanha os planos das mulheres. Enquanto outras áreas da vida podem levar anos para se consolidar, a reserva ovariana não dispõe desse tempo todo: a quantidade e a qualidade dos óvulos diminuem progressivamente, e as chances de uma gravidez natural recuam.
— Chegando perto dos 40, comecei a me dar conta de que o meu sonho de ser mãe ainda não tinha uma data, porque não tenho um parceiro. Então, quando chegasse a hora, poderia ser tarde demais e os meus óvulos já não apresentariam a mesma qualidade — diz Taline sobre tomada de decisão.
A história da gaúcha acompanha uma mudança na forma como se pensa o planejamento reprodutivo hoje.
Entrevistas
Simone Mattiello, especialista em reprodução humana do Instituto de Fertilidade Nilo Frantz, explica que a principal preocupação das mulheres foi, durante muito tempo, a contracepção — ou seja, como evitar uma gravidez indesejada. Agora, com as gestações tardias se tornando uma tendência, elas precisam pensar também em como aumentar as chances de engravidar quando o momento escolhido chegar.
— A maternidade não está no centro da vida da mulher moderna. Isso é ótimo, reflete o avanço da sociedade, mas há limitações biológicas que precisam ser consideradas. Portanto, o planejamento reprodutivo atual exige a consciência de que, caso a maternidade seja postergada para idades mais avançadas, pode ser preciso adotar medidas prévias que preservem a fertilidade — diz a ginecologista.
Congelamento surge como alternativa
Manter um estilo de vida saudável, praticar atividades físicas, não fumar e prevenir infecções sexualmente transmissíveis são formas de otimizar o tempo de fertilidade. Mas o principal recurso para a preservação da capacidade reprodutiva é o congelamento de óvulos, procedimento que vem crescendo no país.
Dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio) mostram que, em 2020, 7.872 ciclos de criopreservação foram realizados no território nacional. Já em 2025, o número saltou para 18.631, um aumento de mais de 136%.
O procedimento permite preservar os óvulos com as características que eles tinham no momento em que foram coletados. Em outras palavras, o método trava o envelhecimento dos gametas, aumentando as chances para quem deseja engravidar mais tarde.
Comportamento
Isabel Cristina Amaral de Almeida, coordenadora técnica do Centro de Fertilidade e Reprodução Assistida do Hospital Moinhos de Vento, explica que o procedimento é seguro para as mulheres. Não há risco de entrar na menopausa mais cedo ou de esgotar a reserva de óvulos após a coleta — mitos que são comumente associados ao congelamento. Entretanto, a técnica envolve diferentes etapas e o resultado final varia de mulher para mulher.
Primeiro, é feito um processo de estimulação ovariana por meio da aplicação de hormônios. O objetivo é fazer com que vários folículos amadureçam no mesmo ciclo, em vez de apenas um, como ocorre naturalmente a cada ovulação.

Quando maduros, esses óvulos são coletados em procedimento feito com sedação. Depois, são congelados em nitrogênio líquido, a 196ºC negativos.
— A quantidade de óvulos coletados depende da reserva ovariana de cada mulher, e algumas podem precisar fazer mais de um ciclo de estimulação. Mas o procedimento é extremamente seguro e apresenta taxas globais de complicação inferiores a 1%, associadas a pequenos sangramentos, infecções locais ou reações à sedação. Complicações mais sérias são raríssimas, com taxas de 0,17% — diz a ginecologista.
"Como congelar o tempo"
O material pode permanecer guardado por tempo indeterminado. Se a mulher decidir utilizá-los, os óvulos são descongelados, fertilizados em laboratório com espermatozoides e, depois, os embriões são transferidos ao útero. Entretanto, nada impede que uma mulher que fez o congelamento tente engravidar naturalmente.

A ideia é manter uma "reserva de segurança" caso não seja possível ter uma gestação natural no futuro. Isso traz mais tranquilidade para mulheres como a advogada Adriana Cigolini, 37 anos, que realizou o congelamento há poucas semanas, como uma forma de "autocuidado" com os próprios sonhos:
— Para mim, é como congelar o tempo. Eu sonho em ser mãe, mas isso não significa que queira a maternidade de qualquer jeito, em um momento que não é o ideal. Agora, sei que os meus óvulos vão ter 37 anos para sempre, não importa quanto tempo fiquem congelados. Isso me trouxe liberdade.
Fitness
Adriana vem amadurecendo a ideia há algum tempo. A maternidade é uma certeza, mas não está nos planos imediatos. A advogada está solteira e não quer engravidar sem a estrutura familiar que considera ideal:
— Não pretendo realizar uma "produção independente", pois o meu objetivo é constituir uma família. Como não estou em uma relação no momento, guardar os óvulos aumenta minhas possibilidades para quando eu casar e decidir ter filhos. Me senti mais segura e aliviei a preocupação com o relógio biológico, que começou a aparecer por volta dos 35 anos — conta.
Esta idade é considerada um divisor de águas para a saúde reprodutiva feminina, pois é a partir dos 35 anos que a reserva ovariana diminui e os óvulos perdem qualidade de forma mais acelerada. Por isso, em um cenário ideal, o congelamento deveria ser realizado entre os 30 e os 35 anos.
— A regra é: quanto mais jovens forem os óvulos, mais qualidade eles terão e maiores serão as chances de sucesso da futura fertilização. Mas nunca é tarde para congelar. Um óvulo de 36, 38 ou 40 anos sempre será melhor que um óvulo de 45 — explica a ginecologista Simone Mattiello.
Liberdade para decidir
Mas o que fazer quando a maternidade ainda não é uma certeza? É o caso da editora de livros Luiza Lewkowicz, 36 anos, que ainda não tem clareza sobre querer ou não ser mãe. Casada há quase uma década, ela e o marido conversam sobre ter filhos, mas nunca chegaram a uma definição.
Quando completou 36 anos, Luiza percebeu que poderia continuar sem resposta por algum tempo. Escolheu congelar seus óvulos para tomar essa decisão de forma tranquila. Se decidir não ter filhos, pode apenas descartá-los — opção garantida a todas que congelam.
— Era isso ou deixar nas mãos do destino. Como sou pragmática, busquei orientação e optei por fazer essa reserva. Mas ter congelado óvulos não significa que decidi ter filhos, só que fiz uma escolha para ter a tranquilidade de decidir depois — explica a editora.
Para isso, ela recorreu à sua reserva financeira e decidiu investi-la no planejamento reprodutivo, consciente de que nem todas as mulheres têm a mesma possibilidade:
— Sei que a minha decisão vem de um lugar de privilégio. Não tenho casa própria, não tenho carro, mas eu tinha economias guardadas e decidi investir nesse processo. Infelizmente, é um procedimento caro e ainda restrito a quem tem recursos — reflete.
Saúde e Bem-Estar
Custo elevado é barreira
Um ciclo de congelamento de óvulos custa entre R$ 20 mil e R$ 30 mil. A estimativa inclui exames, remédios, equipe médica, coleta dos óvulos e trabalho de laboratório. Depois, há uma taxa periódica de armazenamento — geralmente, de R$ 1.000 a R$ 2.000 ao ano, a depender da clínica.
O custo elevado é a principal barreira no acesso ao congelamento de óvulos, que não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). Alguns hospitais, como o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), oferecem o procedimento de forma gratuita para pacientes em tratamento de câncer, que correm o risco de ter a fertilidade comprometida em razão das quimioterapias e radioterapias.
A técnica, no entanto, não é disponibilizada de maneira universal nem mesmo nos casos oncológicos, pois não há política pública instituída. Assim, depende de projetos específicos de instituições de saúde.

Doação é alternativa
Uma alternativa para reduzir os custos do congelamento é a doação compartilhada. O procedimento, que é regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina, permite que, ao realizar a coleta dos óvulos, a paciente congele uma parte para si e doe outra parte para mulheres que planejam realizar fertilização in vitro, mas não têm reserva ovariana disponível.
Nesta modalidade, os custos são compartilhados e o procedimento acaba saindo mais barato para a ovodoadora — em algumas clínicas, pode até sair de graça, dependendo da quantidade de óvulos doados e das políticas do estabelecimento. Mas a doação precisa ser voluntária — sem envolver repasses financeiros — e totalmente anônima. Ou seja, não há contato entre doadora e receptora.
O limite legal para doar óvulos é de 37 anos, mas as clínicas adeptas da modalidade podem estabelecer regras próprias. A maioria aceita doação de pacientes com, no máximo, 35 anos.
Para Luiza, a alternativa deveria ser mais difundida. A editora lamenta só ter ouvido falar da doação compartilhada quando já estava com 36 anos e já não se encaixava nos requisitos dos estabelecimentos.
— Falta interesse no Brasil em democratizar essas informações e tratar a saúde reprodutiva das mulheres sem tabus — opina.
Informação para planejar
Simone Mattiello reforça que é imprescindível que as mulheres tenham acesso a informações sobre a diminuição da fertilidade associada à idade, para que possam se planejar.
— O momento limite para que a mulher avalie a sua reserva ovariana e defina o seu planejamento reprodutivo é idealmente aos 30 anos. Defendemos que, nessa faixa etária, as pacientes sejam orientadas pelos seus médicos para que possam pensar sobre isso com tempo, seja para congelar ou antecipar uma gestação — diz a ginecologista.
A avaliação da reserva ovariana é feita por meio do exame anti-mülleriano, que consegue estimar a quantidade de óvulos que a mulher ainda tem. Um estoque elevado favorece as chances de engravidar, mas o sucesso da gestação depende, ainda, da qualidade dos óvulos — algo que não é possível medir por nenhum exame e que está totalmente relacionado à idade.
Se a reserva é baixa, a tendência é que não seja possível coletar muitos óvulos. É o caso da jornalista Natália Flores, 37 anos. Ela fez o congelamento há cerca de um ano, também para decidir sobre a maternidade com mais tempo.

Como etapa do tratamento, Natália realizou o exame anti-mülleriano e descobriu que sua reserva ovariana é baixa. Foi um baque.
— Tive uma pequena crise quando recebi o resultado, mesmo sendo uma pessoa que não sabe se quer ter filhos. A questão da fertilidade é um marcador ainda muito importante para a mulher, socialmente falando, e parece que ver a reserva ovariana baixa mostra que você realmente está envelhecendo — reflete.
Natália conseguiu congelar dois óvulos. A quantidade é modesta, mas deixou a jornalista mais tranquila:
— Tenho medo de me arrepender no futuro, tanto se tiver quanto se não tiver filhos. Reflito sobre como será envelhecer sem filhos e, ao mesmo tempo, valorizo muito meu estilo de vida atual, que precisaria ser adaptado na maternidade. Não é uma questão que eu esteja pronta para definir agora, então, o congelamento me trouxe a segurança e o alívio emocional de ter tempo para decidir — conta.
Alinhamento de expectativas
A ginecologista Isabel Cristina alerta para a importância de compreender o congelamento de óvulos como uma alternativa, não uma garantia absoluta. Isso porque o procedimento depende de uma fertilização posterior, que pode ou não ter sucesso.
— É fundamental alinhar expectativas. O congelamento amplia substancialmente as chances, especialmente se compararmos com as chances de gestação natural, mas não oferece certeza de gravidez.
Para Taline, entender que o procedimento não garante o sucesso da gestação foi uma etapa importante do processo. A dentista conseguiu congelar 19 óvulos — número expressivo —, mas sabe que a reserva não significa que será fácil engravidar.
— Foi uma das melhores decisões da minha vida. Eu estava muito angustiada por causa disso. Ter congelado me tirou a pressão de ficar pensando que preciso encontrar alguém e engravidar logo.






























