Na tela do cinema, Fernanda Montenegro e Ary Fontoura aparecem planejando roubar barras de ouro do cofre de um banco. Para isso, contam com ajuda de Vladimir Brichta e Bruna Marquezine. Em frente à telona, bebês no colo de suas mães estão de olho neles.
Os pequenos respondem quando a atriz de 96 anos conta o plano. "Gugu, dada, nãnã", balbucia uma das crianças. Enquanto isso, aparece Lázaro Ramos tentando resolver uma série de furtos a velhinhos. Outro bebê protesta e começa a choramingar. A mãe levanta e embala o filho, que logo se rende ao soninho.
Em uma sessão de cinema comum, esse cenário renderia reclamações de quem assiste ao filme. Mas é exatamente o que espera quem vai numa exibição do CineMaterna, iniciativa que existe desde agosto de 2008 e tem sessões em todo o país.
Ali, mulheres com bebês encontram acolhimento e podem retomar a vida cultural. Em silêncio, compartilham com as outras mães os desafios de voltar a sair de casa, o que nem sempre (ou quase nunca) é fácil com bebê pequeno.
Para receber essas mulheres, o cinema precisa ser adaptado. As voluntárias do CineMaterna, chamadas de pinks, chegam uma hora antes da sessão.
Elas preparam o trocador: disponibilizam fraldas de todos os tamanhos, lenço umedecido, pomada para assadura e uma lanterninha para ajudar a mãe no processo. Garantem que o ar-condicionado esteja na temperatura ideal para receber as famílias — não tão gelado quanto normalmente. O volume do filme também fica mais baixo para não assustar o pequeno público e há pouca iluminação.
Com tudo pronto dentro do cinema, as pinks vão até a entrada, onde recebem as mães e os bebês e distribuem cortesias.
Em Porto Alegre, há sessões no cinema do Shopping Iguatemi, onde há 10 entradas francas, e no BarraShoppingSul, onde cinco ingressos são distribuídos.
Kelly Bialy Vely é voluntária há 10 anos e atua como coordenadora da equipe em Porto Alegre. Ela era uma das pinks que estava recebendo as famílias na sessão do dia 1º de abril, no Barra, quando o filme Velhos Bandidos foi exibido. Conta que conheceu o projeto quando foi convidada pela mãe de uma amiga da filha, que hoje tem 14 anos.
— Acho muito importante nós, como mães, termos esse momento e estarmos junto do nosso bebê ao mesmo tempo — conta Kelly, que ainda é mãe de outras duas meninas, de um e dois anos.
Em Porto Alegre, as sessões do CineMaterna chegaram em novembro de 2009, pouco mais de um ano depois da criação da associação, em São Paulo. A ideia surgiu em fevereiro de 2008, quando um grupo de mães compartilhou que sentia falta de ir ao cinema em um fórum sobre parto humanizado e maternidade ativa na internet. Dez mulheres se organizaram e foram a uma sessão. A partir daí, foram seis meses até elas resolverem formalizar a iniciativa e criar a Associação CineMaterna.
— Nossa proposta é viabilizar uma atividade de entretenimento voltada para o público adulto, mas com toda infraestrutura necessária para acolher os bebês, possibilitando que a mãe possa ter um momento de lazer só seu, exercitar o olhar para si mesma e também conversar, desabafar e, quem sabe, estabelecer vínculos com outras mulheres que estão vivenciando a mesma fase, o mesmo momento de vida — explica a presidente do CineMaterna no país, Mirian Rodrigues.
Porto Alegre tem seis voluntárias, que ajudam as famílias nas duas sessões mensais que acontecem na cidade (veja abaixo como se voluntariar). A próxima vai ser no Barra Shopping, no dia 6 de maio. No Rio Grande do Sul, há também exibições do CineMaterna em Caxias do Sul, na Serra, que acontecem no GNC Villagio Caxias.
Quem tem ou já teve um bebê sabe que, nos primeiros meses, é comum se dedicar quase exclusivamente à maternidade, o que pode levar a um certo afastamento do mundo ao redor. Mirian reforça que a proposta é justamente resgatar essa mulher, que atravessa um período de vulnerabilidade durante o puerpério.
— A primeira vez que participei de uma sessão como voluntária uma mãe me pediu para acompanhá-la ao banheiro. Chegando lá, ela pediu que eu segurasse o bebê enquanto ela utilizava o espaço. Ali eu percebi o peso e a responsabilidade de ser uma "pink", pois mesmo sem me conhecer, mesmo sem saber o meu nome, ela confiou a mim o seu bem mais precioso, "apenas" por eu ser parte da equipe do CineMaterna. Em que outro contexto isso aconteceria? — questiona Mirian.

O filme exibido é sempre escolhido por enquete: a votação abre cerca de duas semanas antes da sessão, no site da associação. Para dar sua opinião, é preciso estar cadastrado. O foco é sempre a mãe, e não o bebê. Isso não quer dizer não possa ser exibido um desenho animado. É o caso da última sessão que aconteceu no Iguatemi, quando Super Mario Galaxy: O Filme foi o longa apresentado. A exibição começa às 14h, ponto que costuma gerar reclamação, já que dificulta para mães que já voltaram a trabalhar depois da licença-maternidade.
— Temos um acordo com as redes de cinema para que as sessões ocorram durante a semana, no primeiro horário do dia, devido a questões operacionais dos complexos. As redes explicam que à noite, em feriados e nos finais de semana, os cinemas estão cheios e não conseguem oferecer a devida atenção que uma sessão CineMaterna exige — conta Mirian.
Fernanda da Silva Ennes foi com seu primeiro filho, Daniel, de três meses e meio, na sessão do dia 1º, no Barra, que a reportagem de Zero Hora acompanhou. Com ela, estavam sua mãe e seu irmão mais novo. Quase retornando ao trabalho com a proximidade do fim da licença-maternidade, soube da iniciativa pelo Instagram e resolveu aproveitar esse momento com o filho:
— Sempre fui muito ao cinema. Me chamou atenção a ideia de poder vir com ele. A gente se sente bem à vontade, mesmo ele tendo chorado um pouquinho. E eu consegui prestar atenção no filme. A gente volta um pouco para a vida.

A experiência das mães
Além de Daniel, Otávio era outro dos seis bebês que participaram daquela sessão. Otávio é meu filho, de oito meses. Já tínhamos ido em sessões do CineMaterna durante a minha licença-maternidade, quando ele era mais novo. Com três, quatro meses, o garoto aproveitava o colinho de mamãe e o escurinho do cinema para fazer o que mais gostava: dormir. Agora, ele anda mais curioso e desperto, não se entrega tão fácil à soneca, especialmente em um ambiente novo e cheio de novidades a serem exploradas.
Quando chegamos, deixamos o carrinho na entrada do cinema, em um local indicado pelas pinks. Escolhemos nosso lugar e, depois de olhar para todos os lados, Otávio resolveu que devia aproveitar a tarde com a mãe (o que não é comum desde que voltei a trabalhar) para fazer outra de suas atividades favoritas, mamar, o que aconteceu várias vezes ao longo da uma hora e meia de filme.
Enquanto o filme rolava, ele analisava o ambiente e conversava muito. Eu não me importei nem tentei fazer ele parar. Sabia que era permitido. Outros bebês, menores, também resmungavam. Com ele batendo papo no meu colo, usei aquela técnica que nós, mães, desenvolvemos: a de prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo.
Várias mamadas, balbucios e uma troca de fraldas depois, Otávio foi ficando com sono. Levantei e o embalei, até que ele se entregou. Assisti a última meia-hora de filme com ele no colo. E, mais uma vez, me senti feliz e acolhida.

CineMaterna em Porto Alegre
- Onde: Shopping Iguatemi (João Wallig, 1800), BarraShopping Sul (Diário de Notícias, 300)
- Quando: a próxima sessão será no dia 6 de maio, no BarraShoppingSul
Tire suas dúvidas
Como faço ir ao CineMaterna?
Basta ir ao cinema no dia e horário da sessão. Não é necessário comprar o ingresso antecipadamente. Dependendo do horário que chegar, é possível que ganhe cortesia. Para consultar a programação, acesse o site do CineMaterna e filtre pela região e mês desejados.
Como faço para ser voluntária do projeto?
Em Porto Alegre, atualmente há seis voluntárias, mas o ideal seria ter mais. Para se candidatar ao voluntariado, basta acessar a página do CineMaterma, na opção "entre na equipe" e preencher as informações solicitadas no formulário.
Tenho um filho mais velho e um bebê. Posso frequentar as sessões com os dois?
Os filmes das sessões CineMaterna são voltados para adultos. Por isso, é importante que as famílias estejam atentas à classificação indicativa do filme que será exibido quando levarem criança maior.
Posso ir com o carrinho ou bebê-conforto ao cinema?
Sim. Os carrinhos de bebê podem ser estacionados em áreas designadas, garantindo a segurança de todos na sala e sem obstruir corredores ou escadas. Em sessões menos lotadas, é possível acomodar o bebê-conforto no assento ao seu lado.




