
A sensação de estar "atrasada na própria vida", mesmo quando não há exatamente um compromisso a cumprir, é o ponto de partida de Vertigem: A coragem de encarar o vazio e escutar seu corpo, primeiro livro da influenciadora e apresentadora do podcast Gostosas também Choram, Lela Brandão.
Criadora de conteúdo há mais de uma década, a paulista de 32 anos reúne na obra um conjunto de percepções sobre a vida mediada por telas e a relação cada vez mais instável com o tempo. O livro foi lançado em junho pela editora Sextante.
Lela conta que começou na internet escrevendo em blogs, em um formato mais íntimo, e depois acompanhou a transição para as redes sociais em imagem e vídeo. Nesse percurso, construiu uma audiência engajada em discussões sobre temas que permeiam a vida de quase todo mundo.
— Já passei por muitas fases, em algumas eu mostrava minha vida inteira, gravava vlogs de rotina em casa, mostrava minha família, em outras fui pro extremo oposto, super low profile. Já testei de tudo, e isso me permitiu encontrar o limite do que funciona pra mim — conta ela.
Da "ferida aberta" à reflexão
Se no podcast Lela parece estar em uma conversa com amigas, a construção do livro seguiu um caminho diferente. Apesar de, inicialmente, ter dúvidas sobre o que queria dizer, Lela afirma que as questões abordadas em Vertigem já estavam entendidas e elaboradas internamente:
— Não gosto muito de trazer reflexões muito frescas, que eu chamo de "ferida aberta", para o público. Acho que seria irresponsável da minha parte, porque quando você está passando pelas coisas, você não sabe o caminho que deve seguir. É só com o tempo e um certo distanciamento que você consegue ter mais clareza e falar sobre isso com mais propriedade — explica.
Entrevistas
No livro, essas elaborações aparecem em textos que partem da experiência pessoal da influenciadora, mas se conectam a questões mais amplas.
— Escrevendo o livro, eu aprendi que o leitor não sabe o que foi deixado de fora. Muito do que compõe quem eu sou (minhas relações, minha vida social, minha casa), não está no meu trabalho, e é maravilhoso poder seguir assim, no limite do que me sinto confortável em compartilhar. E também o que eu acho que faz sentido e agrega às pessoas que consomem.

Ao longo da obra, Lela também aborda temas recorrentes no debate contemporâneo, como ansiedade, produtividade e hiperconexão, sem a intenção de oferecer respostas definitivas ao leitor. Entre as reflexões, ela cita a chamada "dopamina fajuta", e admite já ter sido capturada por esse ciclo de comodidade.
— É muito tentador não precisar lidar com a própria vida e ficar rolando o feed, né? Bateu um tédio, é só pegar o celular que resolve. Mas eu tenho estado bastante consciente e me acostumei bastante a não interromper o mundo real com o digital. Uso em doses moderadas — conta.
Na semana de 15 e 21 de junho, Vertigem figurou entre os livros mais vendidos do Brasil na lista da Nielsen/Publish News. Na Amazon Brasil, ele segue em primeiro lugar na sua categoria.
Comportamento
Muitas versões de Lela
Paralelamente à produção de conteúdo, Lela desenvolveu outros projetos. Entre eles, uma marca de roupas que leva seu nome e que surge como extensão de sua visão estética e de estilo.
Com peças de linhas simples e foco em conforto, a marca Lela Brandão Co dialoga com a mesma ideia de desaceleração presente em seus trabalhos na internet, ainda que em outro registro. Para ela essas versões não são tão separadas quanto parecem.
— O que elas têm em comum é que todas são eu. Apenas versões diferentes de mim. Eu sou uma comunicadora, tudo que eu faço gira em torno pela minha obsessão pela comunicação. Foi muito desafiador e divertido encontrar minha voz escrita. Acho que chego nela no fim do livro — revela.
Já como apresentadora do Gostosas também Choram, o podcast surge como um espaço de elaboração distinto das redes sociais:
— Não sinto que sou menos honesta, só que lapido a comunicação para caber no formato que cada rede pede. No podcast, eu criei o formato que eu queria para comportar uma comunicação que eu sinto que tem mais a ver com quem eu sou no mundo real. Não tem grandes malabarismos, produções, nem vinheta tem. Sou eu, sozinha, no meu quarto, falando por uma hora — explica a autora.
A diferença, segundo ela, está menos na verdade e mais na profundidade com que os conteúdos chegam ao público.
— Com certeza os assuntos chegam em outra profundidade para quem consome, em contraponto às redes sociais. Mas não é mais verdadeiro, é só outro formato.
No centro de todas essas reflexões, o livro propõe uma pergunta: o que ainda é concreto e "absolutamente real" no meio de tanta mediação digital?
— É uma pergunta difícil, né? Acho que tudo o que passa pelo corpo. Experiências que o corpo consegue entender e fazer parte. No fim, nosso corpo é tudo o que a gente é, e quem a gente é também é tudo que a gente tem, né? Nesses momentos: meu corpo, meus cachorros, análise, pessoas que amo e café são essenciais.
*Sob orientação e supervisão da jornalista Juliana Lisboa

















