
Não é de hoje que Fabiula Nascimento empresta corpo e contradição a mulheres complexas. Com uma coleção de papéis marcantes em novelas, filmes e séries, a atriz agora dá vida a Helena, peça-chave do novo thriller do Globoplay, Dias Perfeitos. E migra do drama para a comédia com Bia, personagem de Uma Mulher Sem Filtro, longa que chegou aos cinemas nesta semana.
Apesar disso, Fabiula não está "na correria". Aos 47 anos e mãe de dois meninos gêmeos de três, a atriz diz viver um momento no qual a bússola aponta para o que é essencial: tempo de qualidade com a família — o que inclui também o marido, o ator Emilio Dantas, com quem está junto há quase uma década.
Em conversa com Donna, ela explica a decisão de desacelerar a vida profissional para acompanhar de forma presente o crescimento dos filhos, critica as culpas impostas às mulheres e reflete sobre como a maternidade afetou a sua relação com o próprio corpo.
A artista também detalha a preparação intensa para viver Helena, sua personagem em Dias Perfeitos, e comenta os debates que a produção acende — de relações de poder a violência de gênero.
— É uma obra que faz pensar sobre várias coisas, mas que de algum modo é também entretenimento, porque estamos falando de um thriller. Só que é uma história que sabemos que pode acontecer. Não deixa de ser um roteiro, mas não deixa de ser real — diz Fabiula.
História escrita à força
Adaptação de Claudia Jouvin para o livro homônimo de Raphael Montes, com direção geral de Joana Jabace, a série acompanha Téo (Jaffar Bambirra), um estudante de Medicina que se encanta por Clarice (Julia Dalavia), filha da personagem de Fabiula. Helena, uma mulher elitista, preconceituosa e de ética questionável, enxerga no jovem o "pretendente perfeito" — rico e com um sobrenome de peso.
Porém, Téo se revela uma pessoa fria, manipuladora e incapaz de ter relações saudáveis. Quando, por fim, o jovem sequestra Clarice, Helena vê desmoronar suas convicções baseadas em preconceitos.
— É uma história de amor escrita à força — define Fabiula. — Helena tem um papel mais secundário no livro, mas na série ela ajuda a contar essa história. E ela leva essa surpresa: "Como assim um menino de boa classe social fez isso com a minha filha?" — explica.
Na entrevista que você confere abaixo, a artista dá mais detalhes sobre o trabalho, sem deixar de lado a vida pessoal.

Confira entrevista com Fabiula Nascimento
Helena é uma mulher controversa e cheia de camadas, que encara uma situação visceral com a filha. Como foi entrar na pele dessa personagem?
A Helena segue a ferro e fogo aquela ideia de que "os pais sempre sabem o que é bom para os filhos". Então, tudo que ela deseja para a filha, ela acha que é o melhor. Mas ela é preconceituosa, racista, machista. Tem aquela coisa: "Não me venha com namoradinho negro, não me venha com amiguinha de tal jeito". Então, ela jamais imagina que um menino branco, médico, de classe social alta, poderia fazer o que faz com a filha dela.
É aí que vem a humanidade completa. Ela vira uma vítima de si mesma, vítima dos próprios preconceitos. É dureza, viu? Foi um processo bem interessante, com muita preparação, longas leituras e a colaboração de um set muito acolhedor. A gente foi construindo essa Helena com várias mãos.
Na série, você interpreta a mãe de uma jovem adulta. A sua experiência com a maternidade influenciou de alguma forma a construção da relação de Helena e Clarice?
Eu já tive tantos filhos na ficção, que o impacto foi mais físico mesmo. Quando eu fui rodar a série, meus bebês estavam com um ano e meio. Eles ainda mamavam e o meu peito enchia de leite o tempo inteiro. Então, havia um desconforto físico daquele peito cheio e eu ali, em cena. Havia uma sensação meio esquisita de corpo, sabe? Um desconforto, mas também um sentimento de ser mãe realmente.
Eu acho que desabrochei sendo essa mulher que estava ali com o seu trabalho, dois meninos em casa e um peito enchendo, enquanto encarnava uma mãe com uma filha que está passando por violência.
Aproveitando o gancho, como tem sido voltar para essa rotina dos sets? Não somente com Dias Perfeitos, mas também as outras produções que você fez.
Eu diminui bastante o ritmo e não sinto falta de acelerar, porque acho que as coisas têm seu devido tempo. Tive o privilégio de poder ficar com os meus filhos e fui voltando aos poucos, quando eles estavam com um ano e cinco meses. Eu pego um trabalho aqui, outro ali, e assim vou seguindo. Sempre trabalhando e realizando, mas dando aquela selecionada maior. Eu e o Emilio estamos nesse equilíbrio porque gostamos de estar com os nossos filhos. Eu dou preferência para trabalhos um pouco mais enxutos quanto ao tempo de duração.
Novelas não estão no radar, então?
Não é porque eu não gosto, é porque para mim, hoje, seria muito insano voltar a fazer novela. A gente sabe que o ritmo é uma loucura, e eu não estou querendo viver isso agora. Tenho duas crianças de três anos, uma fase em que as mudanças são praticamente diárias, e eu não quero perder nada, sabe? O tempo com eles é a minha prioridade. Não me vejo nesse momento encarando uma jornada 6x1, como é a das novelas. Se essa escala mudar, quem sabe a gente conversa.
Essa pressão para que as mulheres sejam as melhores mães e as melhores profissionais, com entrega total em todas as áreas, te afeta de alguma forma?
O patriarcado gosta de espezinhar a gente, encher a nossa vida de lacunas para nos fazer sentir culpadas. Eu não sinto culpa. Eu tenho responsabilidade pelos meus filhos e sou a melhor mãe que posso ser. Do mesmo modo, sou a melhor profissional que posso ser. E assim eu vou seguindo.
Não acho certo o que fazem com as mulheres. Se uma mãe decide ficar em casa com o filho, não pode, porque aí não vai trabalhar. "Ah, mas cadê o seu sonho?". Se ela decide trabalhar, também está errado, porque "mãe tem que ficar em casa". Quer dizer, nós nunca estamos certas. Eu desejo muito que as mulheres vivam as suas maternidades no melhor que elas podem, fazendo o que dá para fazer, porque a sociedade não está preocupada com a gente.
A maternidade mudou algo na sua relação com seu corpo?
Meu corpo me diz que eu nunca mais vou ser a mesma. Parir um ser humano é um negócio incrível, e eu nunca mais serei a Fabiula de antes. Mas não sou uma pessoa que vive do passado. Tenho 47 anos e me sinto linda, estou feliz comigo. Tenho um parceiro que me ama e que me elogia, faço exercícios para ter saúde, tenho ótimos médicos e me sinto muito bem. Os meus filhos são lindos, saudáveis, perfeitos. O que mais posso querer?
Estou envelhecendo e estou feliz, porque o contrário disso seria morrer jovem. Acredito muito que a beleza vai se transformando, e eu vejo beleza em todas as minhas fases.
Isso tem muito a ver com a maturidade, né? A gente vai aprendendo onde vale a pena gastar a nossa energia.
Absolutamente. É pensar no que é prioridade para a gente e tentar ver as coisas por outra ótica também, né? Por exemplo, tem um monte de personagens que eu nunca pude fazer e que agora estão vindo aí, porque agora eu sou essa mulher de 47 anos. É uma nova fase que está se abrindo para mim. Eu acho que é isso que a gente tem que pensar.
Logo após o nascimento dos seus filhos, você deu uma entrevista na qual falou que o amor de vocês estava sendo construído. Que não era um processo imediato, de parir e já ter todo aquele sentimento estabelecido. Como está esse amor-construção agora?
Nossa Senhora, imenso. É um negócio que não tem explicação. Você ver dois seres humanos existindo do zero, crescendo, dando os seus primeiros passos, superando as dificuldades nas suas realizações, aprendendo a se comunicar com você... é de uma beleza tão grande. Primeiro, eles são aqueles bichinhos que você olha e fala: "Não posso deixar morrer". E daqui a pouco estão te olhando no olho, daqui a pouco já sabem quem você é e daqui a pouco vocês estão conversando por horas. É um processo maravilhoso.
Os meus filhos são crianças engraçadas, divertidas, com muita imaginação. Eles brincam com tudo, gostam de conversar, e a gente escuta tudo o que eles têm para contar. São seres humanos incríveis, que trouxeram para a gente um equilíbrio. Mesmo no caos absoluto, tudo dá certo e tudo se encaixa. Eu sinto um amor absurdo por eles.
O que vem mais por aí além de Dias Perfeitos? Já tem algum outro projeto em andamento?
Tem um que ainda é meio sigiloso, não posso falar. Mas tem o filme Uma Mulher Sem Filtro, que acabou de estrear nos cinemas, e tem o filme do D.P.A - Detetives do Prédio Azul, que sai em dezembro. Também há um projeto para teatro se desenrolando e mais alguns trabalhos que logo todos vão ficar sabendo.
E na vida pessoal, quais os planos?
Quero ter saúde. Quero ver meus filhos crescerem. Quero fazer bons trabalhos. Quero comer comida gostosa. Quero ter tempo pra ler as minhas coisas. Quero continuar estudando. Enfim, eu quero viver bem e feliz. Se eu pudesse pedir uma coisa, seria para que tudo continue do jeito que está. Não posso reclamar de nada. Com saúde, minha filha, ninguém me segura (risos).

