
Muito além da digestão, o intestino influencia o humor, a disposição e a qualidade de vida — impacto que tende a ser mais significativo entre as mulheres. Ainda assim, sinais de que algo não vai bem costumam passar despercebidos: inchaço no fim do dia, gases frequentes ou dificuldade para ir ao banheiro acabam naturalizados na rotina.
Segundo o estudo SIM Brasil – Saúde Gastrointestinal da Mulher, conduzido por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), 66% das 3.029 brasileiras ouvidas relataram algum tipo de incômodo gastrointestinal. Na prática, isso significa que duas em cada três convivem com sintomas como distensão abdominal, flatulência e constipação.
Esse cenário pode estar ligado a fatores como estresse, alimentação irregular, oscilações hormonais, privação de sono e uso de medicamentos. O impacto aparece no funcionamento do intestino e no equilíbrio da microbiota intestinal.
O que é a microbiota intestinal
A microbiota intestinal é essencial para o funcionamento do intestino e sua comunicação com outros sistemas do corpo. Formada por micro-organismos como bactérias, vírus e fungos, atua na regulação de processos que vão da digestão à imunidade, passando pelo metabolismo e do bem-estar.
O equilíbrio entre micro-organismos benéficos e prejudiciais é fundamental. Quando esse balanço se rompe, as funções intestinais podem ser comprometidas, afirma a gastroenterologista Bibiana Possobon Burmann, do Hospital São Lucas da PUCRS e professora da Escola de Medicina da instituição.
— O desequilíbrio aumenta a permeabilidade das células do intestino e intensifica o recrutamento de células inflamatórias. É por isso que falamos em um quadro de inflamação. É uma inflamação microscópica, que não é visível a olho nu. Isso acontece porque os elementos que normalmente nos protegem e mantêm sob controle os micro-organismos patogênicos deixam de agir de forma adequada quando estão desregulados — explica Bibiana.
A coloproctologista Karine Sabrina Bonamigo, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), adiciona que, nesses casos, sintomas como inchaço, gases, alterações no ritmo intestinal e desconforto abdominal são comuns e tendem a se tornar mais frequentes à medida que a desregulação persiste.
— Como "donos da casa", nosso papel é manter o ambiente saudável. Precisamos garantir que as colônias benéficas predominem, enquanto as patogênicas ficam controladas. Com o microbioma equilibrado, teoricamente, todas as funções do intestino também se mantêm equilibradas — relata.
Diversos fatores podem influenciar a microbiota intestinal ao longo da vida, independentemente do sexo.
Alimentação
Dietas pobres em fibras, com alto consumo de ultraprocessados, açúcares e gorduras saturadas tendem a impactar a diversidade de micro-organismos intestinais.
Uso de medicamentos
Antibióticos, embora essenciais em muitas situações, podem alterar significativamente a composição da microbiota ao eliminar bactérias benéficas junto com as patogênicas. Outros medicamentos de uso contínuo, como anti-inflamatórios, laxantes e protetores gástricos, também podem interferir nesse equilíbrio.
Estresse crônico
Situações prolongadas de estresse ativam respostas hormonais e neurológicas que afetam o eixo intestino-cérebro, alterando tanto o funcionamento intestinal quanto o ambiente onde os micro-organismos se desenvolvem.
Qualidade do sono
Dormir mal ou manter horários irregulares desorganiza ritmos biológicos ligados à digestão, ao metabolismo e à imunidade, impactando indiretamente a microbiota.
Estilo de vida
Sedentarismo, consumo excessivo de álcool, tabagismo e baixa exposição a hábitos saudáveis, como atividade física regular, influenciam negativamente a saúde intestinal ao longo do tempo.
Por que o intestino importa tanto
O órgão vai muito além da digestão – atua como um dos principais centros de regulação do organismo e desempenha funções essenciais, explica a nutricionista Gabriela Port, mestre e doutora em Medicina (Hepatologia) pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).
É nesse sistema que se forma grande parte da imunidade, com papel essencial na defesa contra infecções e processos inflamatórios. O intestino também participa da produção de substâncias como a serotonina, neurotransmissor associado ao humor e ao bem-estar.
A conexão entre o intestino e o sistema nervoso – conhecida como eixo cérebro-intestino – ajuda a explicar por que desequilíbrios digestivos podem gerar impactos além do físico, contribuindo para sintomas como irritabilidade, cansaço, dificuldade de concentração e alterações emocionais.
— Essas alterações também comprometem a resposta inflamatória, e hoje sabemos que doenças modernas, como obesidade, síndrome metabólica e diabetes, estão relacionadas à inflamação crônica — detalha a especialista.
Além desses aspectos, o impacto se estende ao metabolismo, à absorção de nutrientes e à energia ao longo do dia.
Por que os sintomas pesam ainda mais para as mulheres
A coloproctologista Karine Sabrina Bonamigo aponta fatores fisiológicos que aumentam a sensibilidade a sintomas gastrointestinais e a alterações na microbiota, especialmente em fases como gravidez e menopausa.
- Oscilações hormonais: ao longo do ciclo menstrual, variações nos níveis de hormônios sexuais, sobretudo da progesterona, influenciam o intestino. O aumento dessa substância tende a desacelerar o trânsito intestinal, o que faz com que as mulheres apresentem evacuações menos frequentes e mais irregulares do que os homens
- Aspectos anatômicos: o cólon feminino costuma ser mais longo e sofre maior influência da anatomia pélvica, combinação que pode retardar o trânsito intestinal e favorecer sintomas como distensão abdominal e constipação
Além dos fatores biológicos, somam-se elementos sociais e comportamentais que tornam o intestino feminino ainda mais sensível. A nutricionista Gabriela Port destaca:
- Sobrecarga de tarefas: interfere diretamente no eixo intestino-cérebro, agravando sintomas digestivos. Ao mesmo tempo, queixas intestinais persistentes podem intensificar alterações emocionais, criando um ciclo difícil de romper
- Tabus: questões como evacuação, gases, constipação ou diarreia ainda causam constrangimentos, principalmente entre as mulheres, o que dificulta tanto o relato dos sintomas quanto a busca por orientação adequada
— Esses fatores acabam influenciando o comportamento ao longo da vida e, em muitos casos, o manejo da constipação deixa de ser apenas uma questão de ajuste alimentar e passa a exigir uma abordagem mais psicológica, ligada à forma como essa mulher se relaciona com o próprio corpo — afirma Gabriela.
Para a gastroenterologista Bibiana, é a soma desses elementos que ajuda a explicar por que o equilíbrio tende a ser ainda mais determinante para a saúde feminina. Essa relação também contribui para entender por que distúrbios como a síndrome do intestino irritável são mais frequentes entre mulheres.
Como cuidar do intestino e quando procurar ajuda

Cuidar do intestino envolve atenção à rotina diária e uma abordagem integrada. Alimentação variada, rica em fibras e com boa ingestão de água, atividade física regular, sono adequado e respeito ao corpo são pilares para uma vida saudável e um bom funcionamento intestinal. Manejar o estresse também faz diferença, já que o organismo responde diretamente a fatores emocionais.
As especialistas alertam que desconfortos não devem ser normalizados. Sintomas persistentes, alterações prolongadas do hábito intestinal, dor abdominal recorrente, distensão intensa, sangramento ou impacto na qualidade de vida indicam a necessidade de buscar avaliação médica.
— É importante observar sintomas que não estão diretamente associados ao funcionamento do intestino. Queixas mais sistêmicas, como cansaço frequente, alterações de humor, queda da imunidade, problemas de pele e até o mau hálito podem estar relacionadas a desequilíbrios intestinais — elenca Gabriela Port.
O que define um bom funcionamento
Não existe um ritmo intestinal "ideal" universal, mas evacuar de três vezes por semana a até três vezes por dia, sem esforço excessivo, dor ou sensação de evacuação incompleta, é considerado dentro da normalidade.
As fezes devem ter consistência macia, formato regular e coloração habitual, sem presença de sangue, muco excessivo ou episódios frequentes de diarreia ou constipação.
*Sob supervisão da jornalista Lou Cardoso



