Treinar com liberdade, vestir o lookinho que quiser, e ter o próprio ritmo respeitado. Para muitas mulheres, essa realidade ainda é distante em academias tradicionais. Mas iniciativas exclusivas para o público feminino estão ganhando espaço com a promessa de oferecerem um lugar seguro para movimentar o corpo.
Em Porto Alegre, três locais mostram que a iniciativa tem conquistado muitas adeptas, que relatam o impacto positivo na autoestima e na saúde mental, além de reforçar o senso de pertencimento.
Na academia: treino adaptado à vida real delas

A MyPlanFem nasceu do desejo da proprietária, Roberta Rosa, de criar o lugar onde ela mesma gostaria de treinar, mas nunca encontrou. Com uma metodologia voltada para os ciclos do corpo feminino, a academia recebe mulheres com rotinas diversas, e oferece um espaço preparado para isso.
— Já treinei em muitas academias e nunca me senti acolhida. Aqui, a ideia é que a aluna se sinta bem em qualquer fase da vida: menstruada, grávida, no pós-parto ou na menopausa. Tem aluna que traz o filho para a aula. A gente entende. É um ambiente em que todo mundo se ajuda — explica Roberta.
Aluna da academia, a publicitária Priscila Vieira conta que após um período de sedentarismo, buscava retomar os cuidados com o corpo, mas queria um lugar onde se sentisse especial.
— Eu queria um espaço que tivesse um direcionamento de treino pensando em mim, na minha rotina, no meu dia a dia. Principalmente a gente que está com mais de 40 anos, e tem uma rotina de trabalho, de filho, de casa, tudo ao mesmo tempo. Então é muito legal estar em um ambiente em que a gente se sente compreendida — afirma a publicitária.
No ringue: socos que aliviam a mente

A Ellas Muay Thai, comandada por Luana Rodrigues, nasceu com os objetivos: oferecer liberdade, segurança e uma comunidade que conectasse mulheres por meio da luta.
— Em uma academia convencional, com homem junto, na maioria das vezes, a gente não consegue viver, ser plenamente, fazer o exercício. Tem que cuidar se está com uma roupa que marca um pouquinho, os olhares, as conversas… E aqui não. A minha intenção, desde o início, foi criar realmente esse lugar seguro para as mulheres virem treinar — destaca Luana.
A administradora e aluna da Ellas, Michele Meregalli, treina no espaço há quatro anos. Segundo ela, foi no esporte que encontrou o apoio emocional necessário para enfrentar um momento difícil da vida:
— Eu não gostava de academia, nem das atividades convencionais que tinham por aí. Precisava buscar uma atividade que não me desse só saúde física, mas também saúde mental. E aqui, o objetivo, o foco, não é o Muay Thai em si, mas transformar a vida das mulheres.
No compasso da dança: autoestima e movimento na terceira idade

No grupo de dança da escola As Batucas, as aulas são comandadas por professoras e frequentadas, majoritariamente, por mulheres acima dos 50 anos. A professora Luiza Alves destaca como o ambiente ajuda na quebra de barreiras.
— Trabalhar com um público 100% feminino, e a maioria mulheres mais velhas, é muito especial porque, se a gente pensar de forma geral, tem um preconceito com pessoas mais velhas dançando e com mulheres também. Muitas delas já vêm dizendo: nossa, eu já tenho muitos anos, nunca dancei na vida, eu nunca vou aprender a dançar — afirma a professora.
A enfermeira aposentada Márcia Inês Pietroni conta que sempre gostou de dançar, mas a autocrítica constantemente a sabotava:
— Já estou na terceira idade. Então, a dança dá um molejo, dá uma alegria. Para mim, assim, a dança está sendo muito boa. E a Luiza faz alongamento, então a gente também faz essa questão corporal. E tem outra coisa: ajuda a memória.
Seja na musculação, na luta ou na dança, esses espaços mostram que mulheres precisam de locais seguros e acolhedores. Ambientes exclusivos, com rotinas adaptadas, ajudam a romper com o medo, o julgamento e a invisibilidade.



