
O mobiliário deixou de ser apenas um elemento funcional dos ambientes para assumir um papel cada vez mais relevante na construção da identidade dos espaços. Em sintonia com transformações no comportamento do consumidor e na valorização da autoria, peças assinadas passaram a ocupar lugar de destaque em projetos arquitetônicos e de interiores, expressando conceitos, estilos de vida e visões de mundo. Nesse cenário, o design de mobiliário ganha força não apenas como manifestação cultural, mas também como segmento de crescente relevância econômica.
O reconhecimento internacional acompanha esse movimento. Em 2026, o Brasil alcançou a marca de 112 projetos premiados no iF Design Award, uma das mais prestigiadas premiações do setor. O resultado reforça a presença do design brasileiro no cenário global e evidencia a valorização da produção nacional.
A Casa de Alessa, localizada na Avenida Carlos Gomes, 437, no bairro Mont’Serrat, em Porto Alegre, traduz esse movimento. Em cerca de 2 mil metros quadrados, reúne um dos maiores acervos de design exclusivamente brasileiro do Rio Grande do Sul. Com peças assinadas por nomes históricos, como Ricardo Fasanello e Michel Arnoult, e por criadores contemporâneos, entre eles Arthur Casas, Guilherme Wentz, Roberta Banqueri e Guto Índio da Costa, o espaço se destaca pela curadoria dedicada à produção nacional.
Mais do que oferecer móveis e objetos de decoração, a Casa de Alessa busca valorizar a diversidade e a riqueza do design brasileiro. A proposta vai além da estética: consiste em aproximar o público das histórias, dos processos criativos e da identidade presentes em cada peça. Ao conectar designers, marcas e consumidores, o espaço cria oportunidades de negócios e amplia o reconhecimento da produção autoral brasileira.
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Móvel como linguagem e identidade
Para o designer Guto Indio da Costa, criar é, antes de tudo, buscar o novo e o singular, sem perder a conexão com o tempo em que se vive. Em um mundo marcado pelo excesso de informações e estímulos, ele defende que o design deve ir além da função decorativa, conciliando contemporaneidade e atemporalidade.
— Design, de fato, é patrimônio cultural. Ele se mistura a muitos aspectos da sociedade, impulsiona a indústria, movimenta a economia. Talvez essa seja a maior beleza da profissão: poder transitar por todos esses universos — afirma.
Essa capacidade de traduzir identidades também está presente no design brasileiro. Na Casa de Alessa, peças reconhecidas nacional e internacionalmente ajudam a contar essa história por meio de diferentes linguagens, materiais e referências culturais.
Para Costa, a diversidade que caracteriza o Brasil é um dos fatores que explicam riqueza da produção nacional.
— Temos muitas culturas. São microculturas dentro da nossa cultura nacional, e acredito que isso reflete diretamente no design brasileiro — observa.
A designer Roberta Banqueri, que também integra a curadoria da Casa de Alessa, compartilha dessa visão.
— Acredito que as peças nascem justamente dessa pluralidade que somos. Elas carregam vivências, repertórios, viagens e anseios. São muitos os elementos que orientam o meu processo criativo.
Peças que atravessam o tempo
Da criação de Sérgio Rodrigues, que rompeu com o formalismo europeu, às formas orgânicas de Oscar Niemeyer, o design brasileiro construiu uma identidade própria que segue se reinventando ao longo das décadas. Mais do que expressar uma estética, essas criações carregam valores culturais, referências de época e uma preocupação constante com durabilidade e permanência.
Os móveis revelam muito sobre o contexto em que foram concebidos. Ao mesmo tempo, quando conseguem atravessar gerações sem perder a relevância, tornam-se marcas do seu tempo. O reconhecimento por meio de premiações contribui para consolidar esse legado.
Na Casa de Alessa, algumas dessas peças premiadas fazem parte do acervo. O sofá Pedras, da designer brasileira Roberta Banqueri, vencedor do A' Design Award, é um dos destaques. Com formas orgânicas e configuração modular, a peça está disponível para comercialização no espaço. Guto Indio da Costa também acumula reconhecimentos. A poltrona Ava foi premiada pelo Museu da Casa Brasileira, reforçando a projeção nacional e internacional do mobiliário brasileiro e a capacidade do design do país de transformar objetos em expressão cultural.
Transformação do ambiente
A escolha do mobiliário e dos objetos que compõem um ambiente vai além da decoração. Com uma curadoria cuidadosa, os espaços passam a refletir valores, histórias e modos de viver, contribuindo para a construção de identidade e para a criação de experiências mais significativas.
Nesse contexto, a estética deixa de ser apenas uma questão visual. Ela influencia a forma como as pessoas percebem e vivenciam os ambientes, tornando-se capaz de despertar sensações, pertencimento e bem-estar.
Pra Claudete Tavares, sócia-fundadora da Casa de Alessa, essa escolha se tornou ainda mais importante em uma época marcada pelo excesso de estímulos e informações.
— Acho que hoje, a sobrecarga de informação que recebemos é muito grande. Nesse sentido, escolher os objetos da nossa casa se torna muito mais relevante. Costuma dizer aqui que a beleza traz paz. Chegar na sua casa, se sentir bem naquele espaço, isso traz tranquilidade — afirma.
Ao reunir peças, histórias, referências culturais e diferentes expressões do design brasileiro, a Casa de Alessa se consolida como um espaço dedicado à valorização da produção nacional. Mais do que apresentar móveis e objetos, a proposta é aproximar as pessoas de experiências que unem estética, identidade e bem-estar.
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