
Ser jovem, nos dias de hoje, não é algo que eu inveje. Eles custam a se tornar independentes, não parecem ligar muito para sexo e contam nos dedos os amigos com quem interagem de forma presencial.
Leem menos que seus pais — ou leem nada — e o aquecimento global é uma ameaça apavorante: como estarão os humores do mundo daqui a uma década? Ainda haverá mundo? Mas eles falam inglês que é uma beleza.
Minha geração, entre os 20 e 30 anos, já estava trabalhando, se casando e fazendo filhos. A gente teve inglês no colégio (muito básico) e, eventualmente, fez algum curso por fora, para complementar, mas não tínhamos acesso a pessoas estrangeiras através de redes sociais, nem filmes em casa para assistir sem legendas, nem tantas músicas acessadas por telefone, ou seja, nada perto da quantidade de estímulos ininterruptos que se tem hoje.
Liquidação não era sale, entrega em domicílio não era delivery, encontro de fim de tarde não era happy hour. E poucos tinham o privilégio de morar fora do país, oportunidade real de praticar outro idioma.
Nós, babyboomers (!), tivemos que correr atrás, porque é inegável que saber inglês amplia a erudição e torna as viagens mais proveitosas — bendita interação cultural. Mas não confere caráter: quem gagueja ao dizer “yes” pode ter mais valor que um poliglota sem ética. Apenas ganha-se em comunicabilidade e absorção de conhecimento.
Adoraria ser fluente. Sempre tentei avançar para além do “the book is on the table”, e até consegui, através de aulas particulares e de um rápido curso de inglês que fiz em Londres, aos 52 anos. Ainda assim, segue uma luta. Não consigo destravar 100%.
É obrigatório? Claro que não.
Saber ler, escrever e falar corretamente seu idioma nativo já é um feito e tanto, então que ninguém arraste correntes, está aí o Google Translator para nos socorrer nas horas difíceis.
Ainda assim, que humilhação.
Esta semana recebi um presente gentilíssimo de uma colega escritora. Ela queria que eu conhecesse uma autora norte-americana pouco conhecida, que foi um expoente do feminismo nos anos 1930 e cujo texto eu certamente apreciaria.
Surpresa: o livro chegou em minha casa na edição de origem, em inglês. Eu até leio alguns textos gringos com relativo sucesso, mas de temática simples, conteúdo digerível para uma leitora pouco adestrada no idioma de Shakespeare. Porém, dessa vez, é livro para gente grande e nem fui perguntada antes se era capaz da leitura. Foi dado como certo que eu era. Oh, dor.
Habitante deste mundo de sales, deliveries e happy hours, tão enganadores das nossas reais capacidades, só me resta dar um ghosting e mergulhar em um dry martini, que para isso, ao menos, eu tenho vocabulário.






