
Lá estava eu no bar, falando pelos cotovelos sobre meus planos de viajar por todos os continentes nos próximos 10 anos, antes que os joelhos se esfacelem e minha conta bancária também, quando alguém, na ponta da mesa, aguardando eu pausar para respirar, decretou: “o nome disso é fuga”. Oh.
Normalmente, saio em defesa das viagens usando o argumento oposto: é encontro, gente. Com nossa alma peregrina, com a beleza do planeta, com... Mas, dessa vez, calei. Dei razão ao meu juiz: na mosca, meritíssimo. Estou sempre com a mochila preparada, atenta às sirenes da polícia.
Desde a infância, não falta quem deseje nos prender. Sorte a nossa ter tido responsáveis que nos alimentaram, vestiram, educaram, mas quando nos demos conta, estávamos tirando carteira de trabalho e colocando um anel de noivado em um dedo desconhecido. Evolução natural da espécie, mas com um efeito sintomático: foi quando as mocinhas começaram a sonhar em ser aeromoças e os rapazes em ser pilotos de Fórmula 1 – na Inglaterra.
Houve um tempo em que chamavam de louco aquele que fugia do script e ia para a beira da estrada pedir carona. Hoje, louco é quem não sai do lugar. Amyr Klink sabe o que diz: “O maior risco da vida é ficar parado”.
Estacionamos em casamentos e empregos estáveis. Somos parados pela família e pelo juízo. Normal, mas há quanto tempo você não sai da sua cidade? Já era para ter dado uma fugidinha até os Lençóis Maranhenses. Ou Lisboa, quem sabe.
Fugir do quê? Vá anotando: de uma dor de cotovelo que parece incurável. Da rejeição por parte daqueles que julgam seu estilo de vida. De pai e mãe, óbvio. Da mediocridade das rotinas, que mesmo satisfatórias, estabelecem horário fixo para tudo. Das queixas, sempre as mesmas. Fuga do frio, quando em outro local há praia. Fuga do calor, quando em outro lugar neva.
Fuga da solidão, que deixa de assombrar quando a gente se distrai dela. Fuga da finitude: ninguém imagina que vai sofrer um infarto enquanto faz o Caminho de Santiago de Compostela, mas em frente à tevê, vendo as notícias, quantas vezes seu coração dispara? Fuga das discussões sobre qual time será rebaixado – que importância tem isso diante de um pôr-do-sol na Toscana?
O sofrimento faz parte da vida, então investir em fugas ocasionais é salutar, a gente recupera o fôlego e volta para o embate. É bem verdade que uns vão e não voltam, mas os probleminhas acabam indo atrás e se alojam com os fujões, que farão o que? Virão nos visitar.
Só sendo meio apatetado, inconsciente da própria prisão, para não fazer a mala de vez em quando (nos casos em que há condições de fazê-la, óbvio). Eu fujo mesmo. Eu escapo. Meto o pé. Adoro dar trabalho para a polícia.




