
Costumo observar os dentes das pessoas. Na verdade, o sorriso. Ou a falta dele. Muitos anos atrás, eu me correspondia com um carioca. Ele mandava fotos com o semblante sério, a boca fechada, o que contrastava com o bom humor que transmitia em suas mensagens. Um dia, perguntei, meio brincando: você é banguela?
Em resposta, ele mandou um vídeo com um sorrisão, revelando a arcada completa. Era tudo implante, e daí? Permanecemos amigos e, até hoje, reclamo por ele esconder, bobamente, a sua espontaneidade.
Julgo mais importante cuidar dos dentes do que entupir o rosto de toxinas para parecer mais jovem. Sou do tempo em que o sorriso aberto e os olhos brilhando eram suficientes para garantir boa aparência.
Aos 11 anos, coloquei aparelho fixo nos dentes, cheio de ferros e fios. Horroroso, desconfortável, mas eficiente. Aos 13, fiquei livre daquele treco. Com os dentes perfeitamente alinhados, toquei minha vida, certa de que nunca mais precisaria pensar no assunto, até que fiz 60 e me descobri insatisfeita. Os dentes haviam se movimentado, óbvio, e o alinhamento ficou comprometido. Um incisivo ficou alavancado, outro se recolheu, e quando dei por mim, estava trocando o sorriso espontâneo pelo sorriso enigmático, feito uma Monalisa que esconde um crime perfeito.
Faz tempo que deixei de considerar charmosas as pessoas secretas. Providenciei um aparelho invisível ortodôntico e, em seis meses, voltei a escancarar os segredos que não tenho. Para consertar o resto, reconheço, só com toxinas, o que ainda não me atrevi.
Tantas voltas para chegar aos dentes da minha mãe. Como toda pessoa que cuida da saúde bucal, ela ia ao dentista de seis em seis meses, mas seus dentes pareciam as casas de Amsterdam: um se escorava no outro. Brancos, fortes, saudáveis, mas acavalados.
Ela nunca usou aparelho, nem na adolescência, nem quando adulta. Mas sorria como se fosse uma estrela de Hollywood. Sorria como se tivesse ganhado na Mega Sena. Sorria porque sentia um amor sincero pela vida, e nenhum constrangimento estético a inibiria de demonstrá-lo. Adivinhe o que aconteceu.
Ela faleceu aos 88 anos sem nunca ter escutado um único comentário jocoso sobre esse aspecto físico. Sou capaz de apostar que os inúmeros amigos, familiares e conhecidos que conviveram com ela devem estar agora se perguntando: ué, mas eram dentes perfeitos! Ninguém percebia a condição torta de seus dentes porque algo muito mais importante saltava aos olhos: era uma mulher que colocava a alegria acima de sua vaidade.
Ao receber as condolências, escutei de quase todos: que sorriso adorável tinha a sua mãe. Tinha mesmo. Adorável como é a autenticidade – que, hoje em dia, se esconde por trás de tantos sorrisos de mentira.



