
Nem leões banguelas rugindo para o domador, nem os equilibristas que quase escorregavam enquanto caminhavam pela corda estendida no alto, nem mesmo um elefante avançando sobre a plateia numa cidade da Alemanha, cena que me aterrorizou na infância, pois não era armação.
Nada me apavorava tanto quanto a possibilidade de aparecer na minha frente uma mulher barbada. Eu nem era tão fã de circo, só ia quando não havia jeito de recusar o convite. Mas mulher barbada eu não suportaria, e como nunca levei esse assunto à terapia, tento diagnosticar aqui mesmo: seria um medo oculto de me transformar em um homem?
A crônica poderia seguir esse raciocínio para denunciar a animalidade de alguns exemplares da espécie que cometem feminicídios e outras barbáries, mas não irei por aí. Este singelo texto ambiciona apenas arrancar seu sorriso ao término da leitura.
Voltando. Existe uma doença chamada hirsutismo, que faz crescer pelos grossos e escuros no rosto e demais partes da anatomia feminina, caso de uma famosa mulher barbada americana chamada Jane Barnell, que viajou com circos ao longo da vida e inclusive destacou-se no cinema, lá nos idos de 1932.
No Brasil, imagino que os donos de circo fossem mais práticos: colocavam um aplique no queixo da moça da bilheteria e a empurravam para o picadeiro, que criança engole qualquer coisa. Deus me privou de ver essa bizarrice.
Até o bigode da Frida me dava certa repulsa, mesmo sabendo que a intenção dela era desafiar os padrões de beleza europeus e afirmar a singularidade de sua identidade mexicana. Um ato político, apenas. Aderisse quem quisesse.
Nunca quis, mas preciso confessar (preciso nada, é mera falta de assunto) que tenho observado, em frente ao espelho, os desaforos da passagem do tempo e isso me faz refletir. As marcas de expressão entre o nariz e a boca chamadas de bigode chinês. O excesso de pele no contorno da face conhecido como bochecha de buldogue. Sem falar no popular pescoço de galinha.
Nada animador. Para eliminá-los, só com liftings e demais procedimentos invasivos. Quem prefere fugir de anestesia, como eu, apela para a autenticidade, que sempre cai bem (e cai mesmo).
Até que assisti a um vídeo em que a IA providenciava uma barba para o Halland, nosso algoz na Copa, que nasceu loiro com olhos azuis, o que foi insuficiente para torná-lo belo. Pois não é que ele daria um caldo se adotasse o visual de lenhador?
Então lembrei de todos os homens que não têm queixo ou têm queixo demais, que não têm lábios ou têm lábios demais, além de bigodes chineses e bochechas de buldogue, e que basta dispensarem a gilete e o barbeador para se tornarem uns coroas charmosos. E me deu uma vontade súbita de entrar para o circo.



