
Gostaria de estar longe, de férias, sendo surpreendida por novidades, mas não estando, me resta trabalhar inspirada por quem está. Uma grande amiga acaba de mandar um whatsapp de dentro de um museu de Zagreb, capital da Croácia. A visita rendeu assunto e cá estou eu, abrindo a nossa correspondência.
Trata-se do Museu das Relações Rompidas (Museum of Broken Relantionships), que nasceu durante a partilha de bens de um casal que se divorciava. Durante o doloroso quem-fica-com-o-quê, eles tiveram a ideia de criar um local para onde qualquer pessoa pudesse enviar algo que fosse simbólico da relação que findou. Uma espécie de arquivo mundial de romances falidos. A ideia vingou e ambos o administram juntos até hoje, mesmo separados há 20 anos.
Logo imaginei um casarão repleto de cartas e bilhetes de amor, que é o que costumamos guardar depois do adeus, mas o lugar é bem mais instigante. Alterna objetos que aludem a explosões de ódio (discos de vinil que foram quebrados ao meio, bichos de pelúcia com os olhos arrancados, cacos de cálices e espelhos) até coisas que remetem a dores mais profundas, como um vestido de noiva sem uso, alianças abandonadas por seus antigos donos e até um paraquedas que nunca abriu. A viuvez também separa.
Cada objeto vem acompanhado de uma breve sinopse: onde, quando, por quê. Mas nem todos reverenciam a dor, também há espaço para o riso, exemplo de um livro chamado Posso fazer você emagrecer, presente de um noivo que virou ex-noivo assim que o pacote foi desembrulhado.
E mais: uma bicicleta que alguém não teve coragem de buscar (ou alguém se recusou a devolver), pedaços de pele com explicações bizarras e até uma pedra extraída de um rim, evidência do quanto um fulano atazanou uma pobre criatura.
Museus temáticos são depositários de esquisitices à prova de tédio e inspiram reflexões inesperadas. Ano passado, visitei a exposição Dans le Flou, em Paris, composta apenas de fotos e pinturas fora de foco, e essa embriaguez estética me acordou para o quanto andamos obcecados por perfeição, filtros, procedimentos e artifícios que eliminam o que é verdadeiro e natural.
Saí de lá valorizando a essência, mais que a excelência, tudo por causa de uma coleção de obras singulares.
Desse museu da Croácia, de forma remota, “saí” valorizando alguns tesouros que ainda guardo no fundo das gavetas, restos de amores passados cuja única função é recordar que eles existiram, não importa que tenham terminado. Não são lápides nem cinzas, e sim palavras manuscritas, declarações, tentativas de poemas, rimas desajeitadas (ora cômicas, ora comoventes). Enfim, estilhaços sentimentais que constituem o acervo de todos os corações que não bateram em vão.





