
O teatro sempre se apresentou como uma arte de valor, mas nunca foi tão necessário como agora. É o último reservatório da atenção plena. Silenciamos por uma hora, sem olhar para o celular, sem interromper enquanto os outros falam, frente a frente com a vitalidade da existência e aptos a receber de volta uma bala de canhão.
Nunca escrevi “bala de canhão” em um texto, e lá se vão quatro décadas de literatura, mas é que ando atordoada, com as pernas frouxas, qualquer emoção me derruba. Está nada fácil resistir ao mundo do jeito que ele se apresenta hoje.
Escrevo inspirada pela peça O Motociclista no Globo da Morte, uma combinação de acertos entre Leonardo Netto (texto), Du Moscovis (ator) e Rodrigo Portella (direção). Em tempos difíceis de se colocar um espetáculo em pé, só mesmo tendo uma boa história para contar, de um jeito envolvente e por um ator/atriz que convença a plateia de que é outra pessoa. E como fiquei convencida de estar diante do perplexo Antônio, que viveu o que viveu no Bar do Zeca. Por favor, não perca. O “motociclista” está em turnê pelo país e deve ficar um longo período em cartaz.
O texto é tão rico, com tantas nuances reveladoras sobre o ser humano, que poderia render uma tese, um ensaio, mas tentarei resumir neste restinho de página: trata-se de um combate entre culturas. Por cerca de uma hora, assistimos a luta entre quem tem embasamento civilizatório, através da leitura e da ética, e quem não tem. Mas quem não tem, não está vazio, ao contrário. Está impregnado de machismo, de ignorância e de brutalidade, a única via de ascensão que dispõe.
A violência é uma cultura também, que tentamos combater promovendo a paz e a sabedoria. O problema é quando, no limite da exaustão, adotamos o método dela para enfrentá-la. Nossa espinha dorsal, solidamente construída com valores dignos, desaba.
“Nada mais humano do que ser desumano”, reflete o contador dessa história, magnificamente interpretado por Moscovis, que nos faz ver, ouvir, sentir, se horrorizar e ser vingados por tudo o que ele narra diante da plateia, sentado em uma cadeira. Horrorizamo-nos, por sermos pessoas decentes, e ao mesmo tempo nos sentimos vingados porque somos selvagens corteses, que não extravasam a própria animalidade, mas que secretamente se regozijam quando alguém que é boa gente se perde de si mesmo e vai às últimas consequências, caindo no abismo em nosso lugar.
É perturbador viver em uma sociedade doente, que testa, todos os dias, a nossa sanidade. Adoro as saborosas comédias brasileiras, que nos fazem refletir sobre a vida sem sentir dor, mas congratulo a coragem de autores que chamam a nossa dor para conversar bem de perto.



