
Neste domingo, faz de conta que tenho uma varinha mágica, ou que sou uma santa fazedora de milagres (me dando o direito à blasfêmia a fim de te presentear, mãe).
Para começar, seja qual for o clima lá fora, que não sintas frio, que te desenroles do cobertor que vive sobre tuas pernas e sintas vontade de dançar. Que o sol ilumine tuas memórias e inspire sorrisos, e que ao findarem os abraços e cumprimentos pelo teu dia, sejas contemplada por uma longa noite de descanso, sem nenhum despertar aflito: nada de se perguntar, no meio da madrugada, "onde estou?". Que te sintas no quarto em que dormiste por décadas, aninhada em teus próprios lençóis, cercada dos móveis que nunca trocaste, porque antigamente as coisas duravam.
Que eu tire da cartola respostas criativas às tuas perguntas singelas, para que elas te esclareçam e te acalmem. Que eu coloque em teu colo um punhado de certezas para combater a subjetividade do tempo, sem deixar nenhum "até quando?" pairando no ar. Que confies no "até sempre".
Este domingo é dia de ter os netos em volta, e nós, tua filha e teu filho, a quem tanto te dedicaste por toda a vida. Não te deixarei duvidar de que cada segundo valeu a pena. Mas, como não se deve esperar toda a satisfação de uma única fonte, deixo de lado a família, por um instante, para extrair da caixa de recordações teus pequenos prazeres particulares: as caminhadas no parque e à beira-mar, os livros que tanta companhia te fizeram e a música de Chico Buarque.
Que eu tire da cartola respostas criativas às tuas perguntas singelas.
MARTHA MEDEIROS
Em contrapartida, evitarei que percebas a traição do corpo e da mente, que te pegou desprevenida. Não é dia para enfrentar o inevitável. Toma, come esse pedacinho de chocolate. Não, não vai te fazer mal. Trouxemos até um golinho de vinho, mas disfarce, nada de chorar de emoção, vá que as cuidadoras desconfiem.
Que neste domingo teus olhos percam o embaçamento e brilhem como se estivessem nas noites de Natal na casa da tia Vera. Que a hesitação desapareça e te mantenhas atenta e esperta como em uma mesa de carteado. Que teu celular, que foi desligado à medida que desligaste também, traga de volta as conversas divertidas com a Alzirinha, a Ruth, a Marylena, a Vera Suzana (as "gurias"). E, já que sempre fomos boas de estrada e volante, tenta imaginar nós duas, agora, dentro de um carro, percorrendo os quase 500 quilômetros que nos separam de Sant'Ana do Livramento, onde tua história e afetos se fundem e atravessam a fronteira do Uruguai.
Através do truque do texto, o único que conheço, te entrego esse pacote de ilusões com um laço de fitas e o desejo de que não percas, de vez, a consciência da mãe formidável, sorridente e comprometida que nunca deixasses de ser.
Feliz dia à minha. Feliz dia à de vocês.



