
Acabo de assistir a dois filmes com temática semelhante.
Na Netflix, 53 Domingos, divertida comédia espanhola sobre três irmãos que precisam se reunir para discutir as questões do pai idoso que mora sozinho e começa a demenciar. O filme todo se passa no apartamento do irmão mais sarcástico (o ótimo Javier Cámara). Por se encontrarem quase nunca, os três aproveitam a ocasião para destilar mágoas retroativas, mas nada que pese a mão. É um filme leve sobre as implicâncias inerentes a toda família e o tempo que se perde em disputas repetitivas, enquanto o que importa mesmo fica sempre para depois.
No cinema, foi a vez de Pai, Mãe, Irmã, Irmão, que ganhou o último Leão de Ouro em Veneza. O humor do diretor e roteirista Jim Jarmusch é bem mais sutil, e o filme, dividido em três partes, tem um intimismo quase bocejante, até que a terceira parte costura magnificamente as outras duas e confirma: pai e mãe piram os filhos, sendo tão gloriosos e tão tiranos. A não ser quando estão a uma distância razoável.
Afasto-os deste texto, pois, e me concentro nos irmãos: adoraria ter tido três, quatro, cinco. Conheço quem tenha tido sete, e mesmo sabendo das dificuldades de alimentar e dar atenção a todos da mesma forma, ainda assim embarco na ideia romantizada da sala de jantar com todas as cadeiras ocupadas, e mais adiante os namorados chegando para compor a santa ceia, e filhos, sobrinhos e netos em decorrência, transformando um prosaico almoço de domingo em uma festa para 50 pessoas.
Nunca vivi essa bagunça eletrizante. Os almoços lá de casa eram apenas entre quatro. Pai, mãe, irmã, irmão. Um irmão só, mas que irmão. Quando crianças, brigávamos apenas para ver quem rasparia a tigela da sobremesa. Então crescemos e nem isso. Ele é gente boa demais. O cara sensato, inteligente e zeloso que ama o tênis e o futebol, a praia e o churrasco, sua família e os amigos. Trabalha o dia inteiro e ainda faz o supermercado e o almoço, o tipo do sujeito com quem se pode contar. Sei do que digo: temos atravessado um momento delicado que nos obriga a falarmos todos os dias e a tomarmos decisões em conjunto. Mesmo a gente sendo diferente em muitos pontos, a sintonia prevalece. Pequenas discordâncias se diluem sem drama, dois adultos em plena forma de sua maturidade. Hoje já não como sobremesa, isso talvez colabore também.
Tive apenas duas filhas e talvez um dia elas reclamem por eu ter dado apenas uma irmã para cada. Nunca as vi brigar por nada mais sério do que invadirem o guarda-roupa uma da outra nas noites de balada, então acho que deu tudo certo, até agora não escutei lamentos pela falta de cinco ou seis elementos a mais na família. Eu, ao menos, desisti de reclamar. O Fernando vale por uma mesa cheia.




