
Inclui sarcasmo: o meu sonho era ter uma esposa. No início da minha carreira, essa figura metafórica teria sido valiosa, faria o supermercado e cuidaria das crianças, enquanto eu me dedicaria exclusivamente aos meus textos – que me alçariam ao Pulitzer, claro. Não que eu possa me queixar de ter tido um marido em vez de esposa: ele dividia as tarefas domésticas quando eu pedia, boa vontade não lhe faltava. Mas, para agilizar, eu escrevia com a máquina portátil no colo enquanto embalava com o pé o carrinho do bebê.
Até que as crianças cresceram. E eu continuei fazendo o que as esposas costumam fazer, que é manter a geladeira abastecida, a casa limpa e a família mentalmente sã, dentro do possível. Nunca saí para comprar cigarros e sumi. Nunca fiz a mala tendo uma passagem só de ida. Mesmo quando precisava ficar a sós, sem escutar um único “manhê!” interrompendo meu trabalho, as solicitações continuavam a chegar de todos os lados, inclusive de dentro de mim: “Vai passar a tarde escrevendo enquanto sua filha adolescente está visivelmente deprimida? Resfriada ela está, repare o nariz correndo. Vai fazer nada? Oferecer um lenço, uma vitamina C?”.
Hoje não tenho mais crianças se interpondo entre mim e a literatura, mas ainda não posso me isolar numa sala por horas a fio, a fim de me introjetar em meus pensamentos e criar frases, crônicas, livros. Há uma mãe idosa a quem preciso acolher. Uma das filhas ainda almoça em casa todos os dias. A geladeira continua aos meus cuidados. Eu sou minha própria esposa. Essa coluna foi inspirada pelo livro Monstros, de Claire Dederer, que discute se é possível separar obra e artista (ótimas reflexões sobre Woody Allen, Polanski, Nabokov e outros gênios que foram cancelados com o passar dos anos).
O capítulo específico que me trouxe até aqui é sobre mulheres que abandonaram os filhos para se dedicar exclusivamente ao seu ofício (caso de Doris Lessing) ou porque não suportaram o peso da vida (Sylvia Plath). O suicídio de uma mãe a torna um monstro? Uma mulher que fizesse o que Gauguin fez (largar a família e o emprego para pintar no Taiti) receberia um julgamento similar ou ela seria vista como mais monstruosa que ele? É um livro atual e instigante, ainda que eu questione o uso generalizado da palavra monstro – ora, todos nós, em algum aspecto, seremos considerados monstros pelos outros, baste que nossa intimidade vaze.
Há 30 anos, escrevi uma crônica sobre Picasso em que eu concluía: “Os bonzinhos dão ótimos maridos, mas suas canções, poemas e pinturas raramente valem a pena”. Uma provocação, naturalmente, pois ninguém precisa ser ruim como ser humano para ser um artista incrível. Há muitos bonzinhos geniais – mas não esqueçamos de agradecer às esposas.



