
Já tinha dado a extrema-unção para a originalidade, até porque originalidade não se encomenda, não se planeja, ela surge sem combinar com ninguém. Consumo teatro, filmes, livros e fico realmente entusiasmada com o talento brasileiro, com tantas boas ideias, mas é quase um milagre a gente deparar com uma obra e dizer para si mesmo, silenciosamente: isso é novo. Em meio a enxurrada de conteúdo despejado pelas redes sociais, tudo que é empacotado como original brilha por quatro segundos e logo é substituído por outro e mais outro engraçadinho, quando não é a inteligência artificial que exibe seu poder de transformar material de arquivo em efeito especial.
Foi então que caiu um livro em minhas mãos, de um poeta que eu desconhecia, uma alma perturbada, com um ritmo frenético de escrita, quase bobo, não fosse contundente como um soco, e eu disse para mim mesma, silenciosamente: isso é novo.
Gosto de usar esta coluna para compartilhar descobertas que, na minha opinião, merecem holofote, uma forma de retribuir o que já fizeram por mim quando eu era iniciante. Acredito que o reconhecimento sempre vem, mas se alguém ajuda a arrombar a porta, tanto melhor. Se meu empurrão servirá para algo, não sei, é uma incógnita, pois agora a aposta é mais secreta, no escuro. Sei quase nada sobre o autor, a não ser que nasceu no interior do Rio Grande do Sul e foi convidado a participar da Bienal do Livro do Rio em 2019 – entrou mudo e saiu calado, segundo ele, mas alguém da organização teve o faro mais cedo que eu. Se tivemos uma equivocada primeira impressão, o tempo vai dizer.
O título do livro é Amarelando Blue, de Vinicius Knecht, que fez sua obra chegar em minhas mãos com um bilhetinho manuscrito em que dizia: “Olá, Martha, sou poeta e conquistei meu primeiro milhão com a poesia, agora posso fazer doações como esta”. Esbocei um sorriso condescendente. Virei a primeira página e, isolada na folha branca, encontrei a palavra “Gravando”. Inesperado. E na página seguinte, a dedicatória oficial do livro: “Não é para você, Isabela”. O livro tem 307 páginas: quantos outros truques ele tiraria da cartola? Curiosa, comecei a ler e só parei na página 308.
O que o garoto entrega? Estilhaços de poemas, trocadilhos, ironias. Fragmentos de textos que podem ser diálogos, roteiros, legendas. Ficções e confissões, tudo misturado e fragmentado, um mosaico de alucinações, o rebuliço de uma cabeça que sofre e ama e arranca todos os forros, sem definir que gênero literário é esse, que troço isso vai dar. Experimental e profundo, um autor em pedaços que tenta controlar o desespero de um riso nervoso. Editora Bestiário, apenas vendas online. A cara do nosso tempo.






