
A cinebiografia sobre Bruce Springsteen, em cartaz nos cinemas, flerta perigosamente com o tédio, mas as cenas da infância do roqueiro são tocantes e se interligam com a depressão que ele veio a sofrer aos 30 anos, enquanto produzia o álbum Nebraska. Afundado em memórias difíceis de seu relacionamento com o pai, partiu para um retiro solitário em busca da sua música em estado bruto. Gravou voz, violão e gaita em um equipamento caseiro, tendo apenas seus fantasmas como testemunhas.
Venceu a resistência da gravadora, do empresário e dos técnicos de som, e lançou o disco com todos os ecos de sua conversa consigo mesmo. Sem divulgação, sem turnê, sem sua foto na capa. Já tinha Born in the USA na manga, mas estava em um período sombrio e foi atrás da sua verdade em um projeto kamikaze. Os holofotes teriam que esperar.
A depressão pode ser amiga da criação, mas sem garantia de final feliz. Lidar com o sucesso não é algo fácil como os sites de fofocas fazem parecer. Vencedores levam uma vida de contrastes. O lado bom (dinheiro, visibilidade, convites, movimento) apresenta sua outra face (autocrítica, sugação, falsidades, esgotamento).
Por este ponto de vista, o fracasso é mais tranquilo, razão pela qual alguns talentosos natos nem chegam a colocar a mão na massa, já antevendo o esforço que envolve a exibição pública. Outros até conseguem começar a escrever, atuar, cantar, tocar, mas lá pelas tantas cansam das consequências e interrompem sua trajetória ascendente, a fim de ir ao encontro da paz dos cemitérios. Quase foi o caso de Springsteen. Desafiar o mainstream foi uma espécie de suicídio, mas o álbum Nebraska não foi nem de longe um fiasco, e sua carreira seguiu meteórica. Amém.
Depressão não tem nada de atraente e precisa ser tratada, já o sofrimento, comum a todos, costuma, sim, dar uma mãozinha para quem trabalha com a subjetividade e a profundidade dos sentimentos. A dor motiva a autoanálise. Principalmente, as dores da infância. Quase todos nós trazemos cicatrizes oriundas da família, ou do colégio, ou de algum cenário dos nossos primeiros anos.
As pracinhas, que tantas alegrias nos deram, são bem educadoras: balanços, gangorras, escorregadores – seguimos submetidos a esses brinquedos vida afora. O velho e conhecido frio na barriga denuncia o medo, mas a ordem é ir em frente com medo e tudo. Compensa. Certas crianças com feridas emocionais tornam-se adultos que continuam fazendo arte.
Minha opinião: Bruce Springsteen não rendeu um filmaço. Não tem a vivacidade de outras cinebiografias musicais como a de Elvis Presley, Elton John, Freddie Mercury ou Bob Dylan. É mais lúgubre, quieto. Mas o rock também é feito de gritos silenciosos.



