Quem associa o botox apenas às rugas da testa e aos pés de galinha talvez se surpreenda com uma das mais recentes indicações aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Desde o início do ano, a bula da toxina botulínica passou a incluir a aplicação na proeminência do músculo platisma, localizado no pescoço.
Na prática, isso significa que a aplicação da toxina nessa região, conhecida entre especialistas como “efeito Nefertiti”, ganhou respaldo regulatório após estudos clínicos. O procedimento, no entanto, não é uma novidade nos consultórios.
— A gente já usa essa técnica há bastante tempo por experiência clínica e porque existem muitos estudos publicados. A diferença é que ela era considerada um uso off label, ou seja, fora da bula. Agora, passou a ser uma indicação oficialmente aprovada pela Anvisa, o que traz mais segurança para médicos e pacientes — explica a dermatologista Laura Milman, diretora da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Seção Rio Grande do Sul (SBD-RS).
O “efeito Nefertiti” faz referência à rainha egípcia frequentemente retratada com mandíbula bem marcada e pescoço alongado. A técnica pode incluir outros procedimentos além da aplicação do botox.

Como funciona
O alvo do tratamento é o platisma, um músculo fino e superficial que se estende da região superior do tórax até a mandíbula. Sua função natural é ajudar a puxar o pescoço e a parte inferior do rosto para baixo.
Com o envelhecimento e a perda de sustentação dos tecidos, essa ação pode se tornar mais evidente, contribuindo para um contorno facial menos definido. Ao relaxar esse músculo, a toxina reduz essa força de tração.
— Esse músculo puxa o nosso rosto para baixo. Quando a gente relaxa essa musculatura, melhora tanto o aspecto do pescoço quanto o contorno da face, porque ele se insere na mandíbula — explica a dermatologista Juliana Catucci Boza, da Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Apesar de melhorar o desenho da mandíbula, especialistas alertam que o procedimento não substitui tratamentos para a flacidez da pele.
— O botox relaxa a musculatura e melhora o contorno. Mas ele não estimula colágeno nem melhora a qualidade da pele. Quando o problema principal é flacidez, normalmente é preciso associar outras tecnologias, como ultrassom microfocado, radiofrequência ou bioestimuladores de colágeno — afirma Laura.

Juliana destaca que o benefício costuma ser maior em pessoas que apresentam bandas do platisma mais aparentes:
— Quem tem essas bandas muito visíveis certamente vai se beneficiar bastante da toxina. Já quem tem excesso de pele ou gordura abaixo do queixo pode precisar de outros procedimentos. Hoje, a tendência da dermatologia é combinar tratamentos de acordo com a necessidade de cada paciente.
Segundo as especialistas, a região do pescoço costuma começar a incomodar muitos pacientes a partir dos 35 ou 40 anos, mas não existe idade ideal para iniciar o tratamento. A indicação depende da anatomia, da força muscular e dos objetivos de cada pessoa.
Avaliação individual
Embora seja um procedimento considerado seguro quando realizado por profissionais habilitados, a aplicação exige conhecimento detalhado da anatomia daquele indivíduo. Isso porque os pontos variam conforme a contração muscular de cada paciente.
— Não existe receita de bolo. A musculatura do pescoço não se contrai da mesma forma em todas as pessoas. Por isso, é preciso avaliar individualmente onde aplicar, para evitar assimetrias e outros efeitos indesejados — explica Juliana.

Laura acrescenta que, apesar de o platisma ser superficial, existem estruturas importantes em planos mais profundos do pescoço:
— É um procedimento seguro quando feito corretamente. Mas, se realizado por alguém sem capacitação, existe risco de complicações, como fraqueza excessiva da musculatura, assimetrias e, em casos raros, dificuldade para engolir.
A toxina também é contraindicada para gestantes e para pessoas com doenças neuromusculares, como miastenia grave.
Quanto tempo dura?
Os primeiros resultados costumam aparecer a partir de 48 horas após a aplicação, com efeito máximo em aproximadamente duas semanas. A duração varia conforme o metabolismo, a força da musculatura e a dose utilizada, mas costuma ficar em torno de quatro meses. A bula recomenda intervalo mínimo de três meses entre as aplicações.


