
Vinagre de maçã, azeite de oliva e óleo de coco estão entre os ingredientes improvisados que ganharam espaço na rotina de cuidados capilares, agora impulsionados por dicas nas redes sociais. Essas práticas são milenares e podem trazer benefícios para os cabelos. Ainda assim, especialistas alertam que o uso sem orientação exige cautela.
— Registros históricos de povos antigos, como os egípcios, ou os vedas, mostram que esses ingredientes eram usados para culinária, saúde e embelezamento. Mas sempre tem esse ciclo: as blogueiras descobrem que o azeite de oliva, por exemplo, é bom para o cabelo, divulgam e outras pessoas começam a usar. Embora pareça novidade, existem artigos científicos que validam os benefícios, que também têm papel histórico e cultural — avalia Katia Smaniotto, professora do curso de Estética e Cosmética da Universidade Feevale.
Alguns produtos comuns na cozinha concentram compostos que ajudam a explicar a fama, como ácidos graxos, antioxidantes e acidez. Essas propriedades químicas podem contribuir para a maciez, a proteção da fibra capilar, o aumento do brilho e a redução do frizz, promovendo uma melhora na saúde e na aparência do cabelo.
Comportamento
Para fechar as cutículas e dar brilho
O vinagre de maçã é um líquido ácido produzido a partir da fermentação do açúcar das maçãs, que se transforma primeiro em álcool e depois em ácido acético. Na culinária, é usado principalmente para temperar saladas, marinadas, conservas e molhos. Quando aplicado no comprimento do cabelo, pode ser benéfico para diminuir o aspecto opaco dos fios.
Giselle Martins, dermatologista especialista em doenças capilares, explica que o pH natural do cabelo é levemente ácido, entre 3,5 e 4,5. Produtos com pH mais elevado, acima de 7, podem abrir as cutículas — camada mais externa dos fios, formada por pequenas “escamas” protetoras. Com essas estruturas abertas, a superfície do cabelo se torna mais irregular, o que deixa os fios mais opacos, ásperos ao toque e com maior propensão ao frizz.
— Os vinagres, em geral, são produtos que tendem a ter um pH de 2,5 a 3,5, ácido também. Ao se expor a um produto com o pH ácido, o cabelo vai fechar a cutícula e ficar brilhoso, bonito. Mas a gente precisa passar vinagre para deixar o cabelo bonito? Não! Existe um monte de cosméticos que vão dar o mesmo efeito sem deixar o cabelo com cheiro de vinagre — pontua a especialista.
Como usar o vinagre de maçã no cabelo?
Em farmácias, lojas especializadas e supermercados, é possível encontrar shampoos, condicionadores, máscaras e outros cosméticos que têm o pH apropriado para selar a cutícula. Ainda assim, para quem quiser testar a alternativa caseira, a médica sugere diluir o vinagre em água, espalhar a mistura pelo comprimento dos fios e deixar agir por alguns minutos antes de lavar o cabelo.
Embora seja comum encontrar na internet conteúdos que atribuem ao vinagre a capacidade de tratar problemas como dermatite, caspa e até infecções, Giselle ressalta que não há evidências científicas consistentes que comprovem esses benefícios. A aplicação direta no couro cabeludo não é recomendada e pode provocar irritações.
Para Katia, que também é mestre em genética e toxicologia, cutículas alinhadas nem sempre são sinônimo de um cabelo saudável. A especialista defende que é fundamental uma avaliação profissional para identificar as causas da opacidade e do frizz e, a partir disso, entender quais são as opções de tratamento adequadas para melhorar a aparência e saúde dos fios.
Óleos vegetais são aliados dos fios
Extraídos de plantas, produtos como o azeite de oliva e o óleo de coco, fiéis companheiros de quem gosta de cozinhar, são ricos em ácidos graxos e antioxidantes. Além de serem saudáveis quando incluídos na alimentação, esses óleos vegetais podem ajudar a nutrir os fios, reduzir o ressecamento, melhorar a maciez e dar mais brilho.
— O azeite de oliva, por exemplo, é fotoprotetor, antioxidante e anti-inflamatório. Há comprovações científicas de que os óleos vegetais são seguros e melhoram a textura, o brilho, a resistência mecânica do fio (de não arrebentar). Isso só comprova que aqueles conhecimentos ancestrais seguem sendo benéficos. A área da cosmética está se valendo desse conhecimento, utilizando nas composições — acrescenta a professora da Feevale.
Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) apontou que o uso de formulações com óleos vegetais pode trazer benefícios que vão além do efeito superficial nos fios. De acordo com os resultados, esses ingredientes contribuíram para o aumento da resistência da fibra capilar, melhora da maciez e redução da força necessária para pentear, indicando um impacto também na estrutura interna do cabelo.
Entrevistas
Em comparação, o levantamento mostrou que cosméticos com silicone (composto sintético derivado do silício, um mineral) apresentaram principalmente um efeito externo, promovendo brilho e suavidade por meio da formação de uma camada sobre os fios, sem atuar de forma significativa no interior da fibra capilar.
Uso como pré-shampoo
Os efeitos podem ser encontrados em diferentes óleos vegetais, não só os encontrados na cozinha. Giselle cita os de argan e de semente de uva, por exemplo, que são considerados mais cheirosos. Além disso, a dermatologista aconselha buscar por misturas prontas que combinam óleos diferentes na mesma fórmula.
As especialistas destacam que esses produtos podem ser usados como pré-shampoo, aplicados nos fios por algumas horas ou até antes de dormir, com lavagem no dia seguinte. A recomendação é usar pouca quantidade, espalhando bem e massageando, aproveitando o momento de autocuidado.

— Se for usar o azeite de oliva, por exemplo, é recomendado ser uma colherinha de sobremesa para todo o cabelo. A pessoa vai sujando a mão e os dedos e aplicando, nos fios e no couro cabeludo. Não tem problema espalhar por tudo, só que depois tem que ser removido com shampoo, usar condicionador, e dar sequência ao tratamento. Tem que cuidar o excesso porque pode empapar e ser difícil de remover depois — orienta Katia.
O que não fazer?
Quando o assunto é usar ingredientes da cozinha nos cabelos, a única contraindicação da dermatologista especialista em doenças capilares é evitar as misturas com cosméticos prontos. Embora algumas pessoas acreditem que essa prática potencializa os efeitos, pode trazer riscos para a saúde dos cabelos.
— É perigoso desestabilizar fórmulas pré-existentes. Não posso comprar um shampoo e colocar vinagre dentro para baixar o pH. Vai modificar a fórmula que já foi criada. Não posso acrescentar óleos dentro de um frasco e ir usando porque é a mesma coisa, pegar uma fórmula que foi estudada e mexer. Não sabemos o quanto vai ser danoso — alerta Giselle.














